Breno Altman: “Ou Lula muda a campanha ou terá muitas dificuldades nas urnas”

0

Por Dafne AshtonBrasil 247

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa alterar o eixo de sua campanha à reeleição e apresentar propostas capazes de oferecer à população uma perspectiva concreta para os próximos quatro anos. A avaliação é do jornalista Breno Altman, fundador do Opera Mundi, que apontou a ausência de medidas de impacto relacionadas a emprego, renda, direitos e endividamento popular como um dos principais problemas da estratégia eleitoral do presidente.

Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Altman afirmou que a campanha partiu de um diagnóstico equivocado ao considerar que a principal dificuldade de Lula seria comunicar melhor as realizações de seu terceiro mandato. Para ele, informar o eleitorado sobre as políticas implementadas desde 2023 não será suficiente para construir a maioria necessária à vitória.

“Ou o governo imediatamente apresenta propostas concretas para resolver os principais problemas do povo ou vai ter muitas dificuldades nas urnas”, afirmou.

Segundo Altman, o ponto de partida da estratégia eleitoral teria sido a avaliação de que Lula comandou um governo com muitas entregas, mas que parte significativa da população ainda desconheceria esses resultados. Dessa interpretação teria surgido a aposta de que uma campanha voltada à divulgação do que foi realizado seria capaz de ampliar o apoio ao presidente.

O jornalista contesta essa premissa. Para ele, o problema não está apenas no conhecimento ou desconhecimento das políticas públicas implementadas, mas na distância entre os resultados obtidos e as expectativas existentes entre setores da população.

“A percepção da população não é de um governo sensacional, mesmo quando as entregas são conhecidas, porque, embora essas entregas sejam positivas e sejam muitas, elas estão aquém da expectativa popular, das necessidades do povo e das aspirações do povo”, disse.

Do balanço do governo para uma agenda de futuro

Na avaliação de Altman, Lula precisa apresentar o terceiro mandato como um período de reconstrução do Estado e das políticas públicas e, a partir desse argumento, mostrar o que pretende realizar em um eventual quarto governo.

A campanha, portanto, deveria deslocar seu centro da comparação com governos anteriores para uma discussão sobre os próximos passos do país.

“As pessoas precisam enxergar um futuro. Elas precisam entender que o presidente Lula teve que dedicar o seu terceiro mandato à reconstrução do Estado e das políticas públicas destruídas nos seis anos anteriores, durante os governos Temer e Bolsonaro, e que somente agora, que arrumou a casa, um governo Lula 4 pode transformar o país”, afirmou.

Altman considera que essa dimensão ainda não aparece com clareza no programa apresentado pela campanha ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo ele, o documento concentra grande parte de seu conteúdo no diagnóstico da situação brasileira e no balanço das políticas adotadas pelo atual governo.

“O programa de campanha faz um diagnóstico do país, mas se dedica fundamentalmente a reivindicar o que fez o governo Lula 3, com projeções para o futuro, mas sem propostas concretas”, disse.

O jornalista argumentou que a dificuldade fica evidente quando até pessoas que acompanham diariamente a política têm dificuldade para enumerar algumas das principais propostas de Lula para um novo mandato.

Entre as medidas apresentadas, Altman destacou a universalização do ensino integral em um período de dez anos. Ao mesmo tempo, apontou uma contradição entre esse objetivo e discussões no governo sobre mudanças nas regras constitucionais de financiamento de áreas como saúde e educação.

Apostas e endividamento popular

Uma das propostas que Altman considera capaz de estabelecer conexão direta entre a campanha e problemas enfrentados pela população seria a proibição das plataformas de apostas, conhecidas como bets.

Para o jornalista, o avanço das apostas passou a integrar o quadro de endividamento das famílias, sobretudo entre brasileiros de menor renda, ao lado de questões estruturais como juros elevados e baixos rendimentos.

“Esse é um grande ponto de estrangulamento da economia popular hoje. O endividamento do povo também é alavancado por uma elevada taxa de juros e uma baixa renda salarial, mas o peso das apostas no endividamento popular, especialmente nas camadas de menor renda, é muito grande”, afirmou.

Na sua avaliação, medidas desse tipo permitiriam à campanha estabelecer uma divisão mais clara entre diferentes projetos políticos e mobilizar eleitores em torno de questões relacionadas ao cotidiano.

A mesma lógica poderia ser aplicada, segundo Altman, a áreas como segurança pública, educação, emprego, política industrial, recursos naturais e direitos sociais.

“A estratégia não deu certo”

Para Altman, a evolução da disputa presidencial mostra que a estratégia centrada na comparação entre governos chegou a um limite.

“A campanha estava voltada a uma ideia errada, que é a comparação de governos. Essa estratégia não deu certo”, afirmou.

O jornalista argumenta que o problema se torna ainda mais relevante na reta final do primeiro turno. Sem a apresentação de uma agenda nova, avalia, outros assuntos podem ocupar o centro do debate público e retirar de Lula a possibilidade de disputar a eleição no terreno que considera mais favorável ao presidente: as condições de vida da população.

Nesse contexto, Altman citou a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal como um tema que, em sua avaliação, pode ser prejudicial à campanha de Lula. Sua defesa, contudo, é de que a resposta eleitoral não deveria consistir em transformar o STF em eixo da campanha, mas justamente em criar uma agenda política capaz de deslocar o debate para propostas econômicas e sociais.

“O que interessa ao presidente Lula é falar do país, é falar do seu governo, é falar das suas propostas para o futuro, é trazer a disputa eleitoral para aquilo que interessa à população, para a chamada pauta do povo”, disse.

Para Altman, emprego, direitos, renda e redução do endividamento formariam a base dessa mudança.

“Se não forem apresentadas novas propostas, propostas concretas da pauta do povo, da pauta que interessa ao povo, que tem a ver com emprego, direitos, renda e fim do endividamento popular, eu antevejo um cenário de extrema dificuldade nessas semanas que faltam para o primeiro turno e dificuldades ainda mais graves para o segundo turno”, afirmou.

Mobilização antes da correlação de forças

Altman também contestou o argumento de que propostas de maior alcance não deveriam ser apresentadas porque dependeriam de aprovação de um Congresso de maioria conservadora.

Para ele, esse raciocínio inverte o processo político: uma medida precisa primeiro existir como proposta, conquistar apoio social e gerar pressão para que possa avançar institucionalmente.

O jornalista citou como exemplo a campanha das Diretas Já, em 1984. Embora a Emenda Dante de Oliveira não tenha alcançado no Congresso os votos necessários para restabelecer imediatamente as eleições presidenciais diretas, a mobilização produziu uma vitória política e ampliou a pressão pelo encerramento da ditadura.

“Você só tem condições de aprovar uma proposta se ela existir, se você se empenhar para haver mobilização ao seu redor”, afirmou.

Altman aplicou o mesmo raciocínio à discussão sobre o fim da escala de trabalho 6 por 1. Para ele, uma proposta pode cumprir também a função de organizar a disputa política, mesmo quando enfrenta resistência parlamentar.

“O povo precisa lutar. E, para o povo lutar, precisa ter propostas que interessem ao povo, propostas que mobilizem o povo”, afirmou.

Segundo o jornalista, o PT e o governo frequentemente acabam condicionando antecipadamente sua agenda à correlação de forças existente no Congresso.

“Não se tenta, não se luta, não se gera mobilização a favor de propostas. Olha-se para a correlação de forças e se tiram conclusões preventivas: ‘não dá para aprovar, então eu não proponho’”, disse.

Para Altman, a campanha de Lula terá maior capacidade de reação se abandonar essa lógica e transformar reivindicações populares em propostas identificáveis, pelas quais o presidente esteja disposto a disputar apoio político e social.

Sua avaliação é que a eleição não poderá ser vencida apenas pela defesa do que foi realizado desde 2023. A campanha, sustenta, precisará responder de maneira compreensível a uma pergunta mais direta do eleitor: o que mudará em sua vida caso Lula conquiste mais quatro anos no Palácio do Planalto.

“Ou o governo imediatamente apresenta propostas concretas para resolver os principais problemas do povo ou vai ter muitas dificuldades nas urnas”, reiterou.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *