Bolsonarismo contra a CNBB: relatório reúne ameaças, monitoramento e ataques a bispos desde 2018

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – Um levantamento documental sobre ataques à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aponta que acusações de alinhamento político, deslegitimação religiosa, campanhas de boicote e episódios de intimidação contra bispos vêm sendo registrados de forma recorrente desde pelo menos 2018. O material reúne casos ocorridos ao longo de oito anos e mostra que a controvérsia ganhou novo impulso em setembro de 2026, após declarações do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

As informações constam do relatório “Ataques à CNBB e aos seus bispos — recorrência, intimidação e disputa política”, que compila registros institucionais, reportagens e publicações em redes sociais entre 2018 e 27 de setembro de 2026. O próprio documento ressalta que o levantamento é dirigido e não exaustivo e que a recorrência de autores e argumentos não comprova, isoladamente, uma coordenação única entre todos os episódios.

De acordo com a documentação, os ataques se repetem em torno de alguns eixos: associação da CNBB ao PT e ao comunismo, questionamentos sobre o destino de recursos de campanhas religiosas, acusações de heresia ou desvio doutrinário e tentativas de desmobilizar iniciativas como a Campanha da Fraternidade. O levantamento também reúne ocorrências de natureza mais grave, entre elas ameaças, intimidação em celebrações religiosas e um episódio de monitoramento de bispos descrito em investigação da Polícia Federal.

Flávio acusa pessoas da CNBB e entidade reage

O episódio mais recente registrado pelo relatório ocorreu em 27 de setembro. Durante uma carreata em Goiânia, Flávio Bolsonaro afirmou que pessoas ligadas à CNBB teriam colaborado para a disseminação da informação de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

“O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente essa realidade”, declarou o candidato ao Metrópoles.

O relatório registra duas frases de Flávio durante a entrevista: “conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB” e “liberou a liga da mentira do PT a atuar livremente”. O documento ressalta que as declarações são distintas: a primeira atribui participação a pessoas da instituição, enquanto a segunda se refere ao PT.

Horas depois, a CNBB divulgou uma nota de esclarecimento em que negou ter produzido, autorizado ou participado da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao processo eleitoral. A conferência também rejeitou qualquer vinculação a estruturas político-partidárias.

“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a instituição. A CNBB declarou ainda que atribuir à entidade participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação “sem fatos e provas” atinge injustamente a conferência.

No dia seguinte, Flávio afirmou que a nota da entidade havia sido “muito boa” e “esclarecedora” e agradeceu à CNBB pelo posicionamento, embora tenha mantido a acusação contra o PT.

Ataques nas redes após a entrevista

O levantamento reconstrói a repercussão da declaração durante a noite de 27 de setembro. Segundo o documento, a publicação da entrevista pelo Metrópoles apareceu no acervo às 18h31. Às 19h14, o jornalista Sam Pancher publicou o vídeo no X. Pouco depois, começaram a aparecer manifestações que vinculavam a CNBB ao PT, ao comunismo ou à Teologia da Libertação.

Às 19h49, por exemplo, uma usuária chamou a conferência de “puxadinho do PT”. Às 20h37, outra publicação classificou a CNBB como cúmplice. Às 20h42, um perfil identificado como Bolsonaristasnews acrescentou a expressão “Teologia da Libertação” ao compartilhar a acusação de Flávio.

Às 21h25, o Centro Dom Bosco e Álvaro Mendes Júnior republicaram o vídeo e acrescentaram uma interpretação segundo a qual gestões da CNBB teriam simpatia pela extrema esquerda e existiria uma “infiltração revolucionária” na Igreja. A publicação acumulava 7,2 mil curtidas e 987 comentários na captura preservada pelo levantamento.

O relatório contabiliza 33 registros preservados relacionados à repercussão daquela noite. Desses, 25 foram classificados como manifestações vinculadas à entrevista, quatro eram diferentes publicações da própria declaração, duas eram críticas posteriores cujo nexo direto com a fala não foi confirmado e duas eram registros de contexto ou contraponto. O documento adverte que esses números não correspondem a 33 ataques independentes nem permitem concluir que todas as manifestações tiveram a mesma natureza ou gravidade.

Histórico remonta a 2018

A documentação situa o início do recorte em 2018, quando a Campanha da Fraternidade passou a ser alvo de acusações envolvendo dinheiro, política e doutrina. Naquele ano, a CNBB precisou responder a alegações de que recursos da coleta financiariam iniciativas favoráveis ao aborto ou grupos terroristas, acusações negadas pela entidade.

Ainda em 2018, durante a campanha eleitoral, circulou um vídeo em que Jair Bolsonaro utilizava a expressão “parte podre” ao se referir a integrantes da Igreja e da CNBB. O relatório ressalva que a data original da gravação não foi confirmada.

No mesmo ano, a Agência Pública registrou mensagens hostis dirigidas ao então bispo dom André de Witte e um episódio de intimidação contra uma equipe da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Itaberaba, na Bahia. Segundo o relato reunido no documento, houve registro de boletim de ocorrência.

Eduardo Bolsonaro falou em “infiltração”

Em 2019, Eduardo Bolsonaro publicou uma mensagem afirmando que a esquerda teria se infiltrado na religião católica principalmente por intermédio da CNBB. No mesmo período, o então presidente da conferência, dom Walmor Oliveira de Azevedo, passou a ser alvo de críticas e ataques nas redes.

O documento também recorda que dom Orlando Brandes foi atacado após uma homilia em Aparecida, em outubro daquele ano. Ainda em 2019, a CNBB apareceu entre as chamadas “hienas” em um vídeo divulgado no perfil presidencial de Jair Bolsonaro. A publicação acabou retirada, e Bolsonaro pediu desculpas.

Polícia Federal registrou levantamento sobre 152 bispos

Um dos episódios de maior gravidade destacados pelo relatório ocorreu em 2020. De acordo com a documentação reunida, uma investigação da Polícia Federal descreveu um levantamento envolvendo 152 bispos que haviam assinado uma carta crítica ao então governo Jair Bolsonaro.

O relatório da PF citado no documento teria uma seção denominada “Ação Clandestina Arcebispos/Bispos” e mencionaria atuação de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e encaminhamento pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI). O relatório sobre a CNBB ressalta que se trata de descrição contida em investigação policial, e não de uma condenação judicial.

Também em 2020, dom Marcony Vinícius Ferreira, então bispo auxiliar de Brasília, recebeu uma ameaça depois de recusar a instalação de um acampamento ligado ao grupo 300 do Brasil na área da Catedral. Segundo o registro, a recusa havia sido justificada por razões sanitárias e de preservação do espaço.

Campanha da Fraternidade vira alvo de boicotes

Em 2021, as críticas passaram a incluir campanhas organizadas para que fiéis deixassem de contribuir financeiramente com a Campanha da Fraternidade Ecumênica.

O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), por exemplo, divulgou conteúdo contra a iniciativa e promoveu um abaixo-assinado pedindo que católicos não contribuíssem com a campanha. O período também foi marcado por vídeos, hashtags e outdoors com críticas à CNBB e à proposta ecumênica.

Ainda naquele ano, o então deputado estadual paulista Frederico D’Ávila fez ofensas contra dom Orlando Brandes, a CNBB e o papa Francisco na Assembleia Legislativa de São Paulo. A conferência cobrou providências da Alesp. O parlamentar posteriormente reconheceu ter se excedido e pediu desculpas.

Bispo sofreu intimidação durante celebração

Em novembro de 2022, o então bispo auxiliar de Belo Horizonte dom Vicente Ferreira foi alvo de intimidação durante uma celebração de crisma, segundo registros reunidos no documento.

Notas e reportagens citadas pelo levantamento mencionaram ameaça de morte e a presença de ao menos uma pessoa armada. A Arquidiocese de Belo Horizonte manifestou solidariedade ao religioso e afirmou que a situação também atingia a comunidade.

No mesmo ano, dom Odilo Scherer foi associado ao PT nas redes sociais depois de aparecer usando uma camisa vermelha. Em entrevista posterior, o cardeal advertiu sobre o uso da religião como instrumento de poder.

Observatório falou em “estratégia articulada” em 2024

Em 2024, um informe do Observatório da Comunicação Religiosa (OCR), iniciativa ligada à Conferência dos Religiosos do Brasil e à Comissão Brasileira Justiça e Paz, interpretou ataques à Campanha da Fraternidade como parte de uma disputa pela autoridade dentro da Igreja.

O documento do observatório utilizou a expressão “estratégia articulada de ataques à Igreja” e citou o Centro Dom Bosco entre os atores envolvidos. O próprio relatório agora divulgado faz uma ressalva metodológica: a avaliação pertence ao OCR e não constitui, por si só, prova da existência de um comando central responsável por todos os episódios registrados entre 2018 e 2026.

No fim daquele ano, novas manifestações políticas atingiram a instituição. O deputado federal Paulo Bilynskyj chamou a CNBB de “antro de comunistas”, enquanto o ex-ministro Adolfo Sachsida afirmou que a conferência havia “apodrecido” e chamou bispos de “covardes”, segundo publicações preservadas pelo levantamento. Relatório sobre tentativa de do…

Ecologia, democracia e direitos sociais entram na disputa

Em 2025, o debate passou a incluir temas relacionados à ecologia e à atuação pastoral. Bernardo Küster acusou a CNBB de envolvimento com uma “agenda globalista”, questionou dom Jaime Spengler e relacionou a Campanha da Fraternidade a organizações e fundações internacionais.

Outro perfil, chamado Educar para o Céu, publicou conteúdos contra os chamados Padres da Caminhada, associando a Teologia da Libertação a um “câncer” e prometendo “expor” sacerdotes. O Centro Dom Bosco também promoveu campanha de boicote à coleta da Campanha da Fraternidade.

O relatório registra ainda ataques contra dom Mário Antônio da Silva depois de uma convocação para participação no Grito dos Excluídos e contra dom Limacêdo Antônio da Silva após manifestações em defesa da democracia.

Em 2026, novas notas institucionais foram publicadas em solidariedade a bispos atingidos por ataques nas redes. Entre os episódios listados estão críticas contra dom José Ionilton Lisboa de Oliveira e novas manifestações contra dom Limacêdo relacionadas a posições sobre direitos trabalhistas, escala 6×1 e democracia.

Relatório evita atribuir coordenação geral

Apesar de identificar repetição de argumentos, personagens e métodos, o documento dedica uma seção específica aos limites da pesquisa.

O levantamento afirma que uma publicação não equivale automaticamente a um ataque independente e diferencia entrevistas, comentários, republicações, sátiras, críticas e denúncias. Também separa as responsabilidades de quem fez uma declaração, de quem a publicou e de quem posteriormente acrescentou comentários próprios.

A conclusão aponta uma continuidade de repertórios entre 2018 e 2026, especialmente acusações de ligação com o PT ou o comunismo, questionamentos doutrinários e campanhas contra a Campanha da Fraternidade. Ao mesmo tempo, ressalta que a comparação histórica não permite atribuir automaticamente autoria, responsabilidade ou relação causal entre episódios diferentes.

Fonte: Brasil 247

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