Bispo católico cobra Flávio Bolsonaro por promessa de decreto sobre Jesus Cristo
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da diocese de Campos, cobrou do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) explicações sobre o alcance da promessa do candidato à Presidência de, caso eleito, “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”. Para o religioso, a intenção anunciada pelo presidenciável levanta questionamentos sobre a liberdade de crença e a laicidade do Estado brasileiro.
Dom Roberto, que integra a Pastoral da Saúde e a Comissão para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), classificou a medida prometida pelo candidato como “perigosa” por envolver cidadãos de diferentes religiões.
“O candidato disse que este será o seu primeiro ato de governo. É uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões”, afirmou o bispo, de acordo com a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.
Dom Roberto questionou quais seriam as consequências práticas de uma medida dessa natureza para cidadãos que não professam a fé cristã. “O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos?”, perguntou.
“Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar. A liberdade religiosa e de crença é um dos princípios da Constituição brasileira e interessa a todas as religiões. Se um não é respeitado em sua religião, ninguém mais será”, acrescentou.
A assessoria de Flávio Bolsonaro foi procurada pela reportagem, mas ainda não havia se manifestado sobre os questionamentos apresentados pelo religioso.
Promessa de Flávio provoca questionamentos
A declaração que motivou a manifestação de dom Roberto foi feita por Flávio Bolsonaro em agosto. Na ocasião, ao justificar sua ausência no debate da TV Bandeirantes, o candidato disse que gostaria de debater com quem “não acredita em Deus” e anunciou a intenção de oficializar sua declaração sobre o Brasil e Jesus Cristo caso chegasse à Presidência.
A promessa também foi registrada posteriormente em reportagem sobre a disputa religiosa na campanha presidencial. A Folha de São Paulo relatou que Flávio Bolsonaro afirmou que um de seus primeiros atos, caso eleito, seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
Para dom Roberto, a discussão deve se concentrar precisamente naquilo que foi anunciado pelo próprio candidato, independentemente de outras controvérsias religiosas surgidas durante a campanha.
“É necessário se ater ao que o candidato disse. E ele disse que baixará um decreto que pode ter graves consequências”, afirmou.
Bispo diferencia fé pessoal de política de Estado
Na avaliação de dom Roberto, existe uma diferença fundamental entre um político expressar publicamente sua religião e anunciar uma medida de governo baseada nessa crença.
“Não cabe a um candidato a presidente dizer isso. Se ele é cristão [Flávio Bolsonaro é evangélico], pode fazer uma declaração de fé. Mas não pode anunciar um ato que fere a laicidade do Estado brasileiro.”
O bispo afirmou ainda que a crença individual de um governante não deveria ser convertida em política pública. “Ele não pode fazer de sua crença uma política pública, adotando no Brasil o confessionalismo de Estado”, disse.
Dom Roberto defendeu que a função do poder público é assegurar o exercício das diferentes crenças, sem estabelecer uma religião oficial ou conceder tratamento privilegiado a determinada confissão.
“O Estado não tem fé. O Estado deve garantir o exercício da fé de todos, deve garantir a liberdade religiosa para todos. Ele, se for eleito, governará para todos, independente da religião que tenham”, disse.
Dom Roberto alerta para liberdade religiosa
O religioso também sustentou que critérios confessionais não deveriam orientar decisões administrativas de um presidente da República. “Ele não pode, por exemplo, escolher alguém para um cargo por ser terrivelmente evangélico”, afirmou.
A declaração faz referência à expressão utilizada pelo ex-mandatário Jair Bolsonaro (PL) ao defender a escolha de André Mendonça para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao analisar a promessa de Flávio Bolsonaro, dom Roberto mencionou ainda a influência de uma “doutrina dominacionista que nasceu no fundamentalismo religioso pentecostal radical dos EUA, que prega a hegemonia do cristianismo evangélico, que quer dominar a política”.
O bispo também citou como exemplo histórico a ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Segundo ele, nos anos 1970, o regime favoreceu agremiações evangélicas em um período no qual setores da Igreja Católica se opunham às perseguições, torturas e mortes promovidas pela ditadura.
Atrito com a CNBB envolve notícia falsa sobre padroeira do Brasil
A manifestação de dom Roberto ocorre após Flávio entrar em atrito com a CNBB em razão da circulação de uma informação falsa segundo a qual, se eleito, ele retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Não há indício sólido de que essa medida faça parte dos planos do candidato. O caso ganhou força durante a campanha e que Flávio a classificou como “uma grande mentira” sem “pé nem cabeça”. Ele também declarou defender o direito de pessoas de qualquer fé de exercerem livremente suas crenças.
Flávio acusou “gente de dentro” da CNBB de ter ajudado a divulgar a notícia falsa. Nesta segunda-feira (28), porém, fez um aceno à entidade após a conferência negar ter disseminado a informação. “Agradeço à CNBB por confirmar que isso é uma grande fake news”, afirmou o candidato.
Fonte: Brasil 247