Augusto Cury ameaça Lula e Flávio Bolsonaro? O negócio da antipolítica em 2026
Por Isabella Mota — Intercept Brasil
A ideia nasceu numa mesa de bar. O jornalista Itaboraí Martins, do Estado de S. Paulo, resolveu lançar Cacareco para vereadora de São Paulo. Gráficas imprimiram santinhos e muros amanheceram pichados. Alguém escreveu a quadrinha que circulou pela cidade: “Cansados de tanto sofrer / E de levar peteleco / Vamos agora responder / Votando no CACARECO.“
Cacareco, no caso, era uma rinoceronte emprestada ao novo zoológico paulistano pelo prefeito do Distrito Federal.
Na eleição de outubro de 1959, Cacareco teve cerca de cem mil votos, enquanto o vereador (humano) mais votado recebeu 10.214. A revista Time publicou a frase incisiva de um eleitor paulistano: “melhor eleger um rinoceronte do que um asno”.

Em 1988, os humoristas da Casseta Popular repetiram a dose no Rio com o chimpanzé Tião, que fez 400 mil votos e teria terminado em terceiro na disputa pela prefeitura. Não era uma forma trivial de protesto. O eleitor precisava saber do que se tratava, lembrar o nome do animal diante da urna, preencher a cédula à mão e sacrificar o próprio voto sabendo que seria anulado.
A partir de 1996, com a implementação gradual da urna eletrônica, o voto de protesto perdeu uma de suas formas de expressão mais orgânicas. Para disputar uma eleição, passou a ser preciso um candidato de carne e osso com registro no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, filiação partidária e uma estrutura mínima de campanha.
A antipolítica, em outras palavras, precisou se organizar sem deixar de chamar atenção. Ao longo das décadas seguintes, candidatos como Enéas Carneiro, Levy Fidelix e Padre Kelmon ocuparam esse espaço, todos com pouquíssimas chances de vitória, mas capazes de transformar a própria improbabilidade de suas candidaturas em parte de seu apelo.
Fernando Collor e, mais recentemente, Jair Bolsonaro foram além, convertendo o desencanto popular com a política vigente em vitórias eleitorais.
‘Mente capitalista e coração social’
No espaço liminar entre a improbabilidade e a relevância surge hoje a candidatura de Augusto Cury. Psiquiatra e escritor de enorme sucesso, mas sem trajetória política, Cury cresceu nove pontos na Nexus/BTG entre 24 e 31 de agosto, saltando de 2% para 11%. Na AtlasIntel, foi de 1,6% para 7,8%.
Ganhou mais de dois milhões de seguidores no Instagram em três dias e tornou-se o primeiro nome fora dos polos de Lula e Flávio Bolsonaro a atingir dois dígitos nas pesquisas, deixando para trás candidatos com décadas de experiência política e que entraram na corrida com expectativas muito maiores do que as depositadas nele. Adversários já estudam pedir ao TSE que investigue de onde saíram tantos seguidores.
Para o eleitorado, Cury, que declarou R$ 242 milhões em bens à Justiça Eleitoral, incluindo 17 fazendas, oferece uma fórmula ideológica simples, cujas possíveis contradições sequer são cogitadas: “mente capitalista e coração social”.
Diz que o brasileiro está cansado de ser obrigado a escolher entre dois lados que não o representam e afirma ter crescido na disputa “sem dinheiro, sem máquina, sem palanque”.
A primeira constatação tem certa validade. A segunda, bem menos.
É verdade que sua campanha dispõe da menor estrutura partidária entre os principais concorrentes e carece de palanques estaduais. Os sete deputados federais do Avante garantem-lhe apenas 35 segundos de propaganda televisiva e R$ 72,5 milhões em fundo eleitoral, contra os 5 minutos e 32 segundos de Lula e os R$ 881,7 milhões do PL.
Mas estrutura partidária limitada não é o mesmo que anonimato. Cury não surgiu do nada. Antes de entrar na política, já era um escritor conhecido, dono de uma vasta plataforma e de um público construído ao longo de décadas.
Quem cuida do marketing de Cury é o publicitário Sergio Lima, que trabalhou para Jair Bolsonaro e assumiu a operação em agosto. Lima descreveu o candidato como eufórico com um crescimento em que, segundo ele, ninguém da campanha esperava. Diante das suspeitas de uso de robôs para impulsionar artificialmente o crescimento do candidato, Lima respondeu que não havia robô nenhum: Cury simplesmente fala o que o eleitor quer ouvir.
O linguajar de Cury é o da autoajuda institucional. O Brasil é o paciente e a polarização, a doença a ser tratada. Mas não é o único buscando ocupar o vácuo político para quem prefere não votar nem em Lula, nem em Flávio.
Renan Santos passou uma década dentro da política antes de se apresentar como quem vem de fora, baseando sua candidatura explicitamente no exemplo do presidente argentino Javier Milei.
Embora cassado, Pablo Marçal ainda busca se colocar como força política em 2026 para manter vivo seu projeto, baseado na promessa de que qualquer um pode enriquecer e a culpa do fracasso é de quem não conseguiu. São três gramáticas para o mesmo público desiludido. A razão dessa desilusão, no entanto, é motivo de disputa.
A antipolítica e os candidatos sem trajetória pública
Muito se fala da polarização brasileira, dividida ferrenhamente entre esquerda e direita. Na opinião de José Dirceu, no entanto, o eleitor brasileiro está politizado, não polarizado. Se a polarização é a fidelidade total ao time, politização é engajamento crítico com o que está em jogo.
Assim ele explica como o PT venceu cinco eleições apesar da força institucional da direita. Fernando Haddad, por sua parte, sustenta que o quadro atual se caracteriza pelo embate entre democracia e autoritarismo. Nessa lógica, o mais importante agora é a união de uma frente ampla para derrotar o extremismo para depois retomar diferenças pontuais entre forças democráticas.
A demanda que Cury como outsider está captando claramente tem bases reais. A cisão do país de fato cansa grande parte do eleitorado. Mas o impulso antipolítico que favorece candidatos sem trajetória pública também é uma forma de política identitária. Importa menos o que o candidato propõe do que aquilo que o eleitor vê nele e, sobretudo, aquilo que ele não é.
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Quem abraça a terceira via quase sempre entende que o candidato não vai ganhar. O eleitor de 1959 sabia disso ao escrever o nome de uma rinoceronte na cédula. O intuito é expressar inconformismo ou talvez projetar a pessoa para uma disputa futura. De qualquer forma, reflete o desejo de indiretamente pautar o governo do vencedor.
Espólio eleitoral
Enéas Carneiro nunca chegou perto do Planalto e em 2002 foi o deputado mais votado do país. Em 2022, Padre Kelmon ocupou os debates para bater em Lula e proteger Bolsonaro, teve 0,07% dos votos, mas cumpriu integralmente a função limitada a que se propôs.
O desejo de mandar um recado para os demais postulantes tem resultados políticos imprevisíveis. Antes de ser retirado definitivamente do páreo, Marçal disse em voz alta que sua candidatura existe para esvaziar a terceira via sem arranhar a candidatura do Flávio.
Na semana em que Cury subiu nove pontos, Flávio Bolsonaro caiu quatro e Lula oscilou dois para baixo, acendendo um “sinal amarelo para Lula a 30 dias das eleições,” segundo Lauro Jardim. Lula já busca estabelecer contato com Cury, que no passado chegou a apoiar a ex-ministra Marina Silva, hoje candidata ao senado por São Paulo na chapa governista.
Cacareco não tinha estrategista. Estes têm, e sabem que um voto de protesto sempre acaba servindo a um dos candidatos colocados. À medida que Cury cresce, a disputa entre Lula e Flávio passa a girar também em torno de seu eventual espólio eleitoral.
Desencanto como força política
Cem mil paulistanos votaram numa rinoceronte porque rejeitavam as alternativas em oferta. Era um protesto, e também uma piada, mas o gesto revelava um problema real.
Sessenta e sete anos depois, esse mesmo impulso encontra candidatos de carne e osso capazes de transformar o desencanto em força política. Cury provavelmente não será presidente, mas seu crescimento já redesenha uma disputa até aqui marcada pela incapacidade da terceira via de deslanchar.
Quem vota para mandar um recado mesmo assim acaba ajudando a decidir quem governará. E, uma vez contado, o voto deixa de pertencer inteiramente à intenção de quem o deu.
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Fonte: Intercept Brasil