Por Redação — Jornal Opção

As lavadeiras do Chapéu de Padre

Fernando Cupertino

O sol ainda nem tinha tomado conta das pedras da velha Goiás, mas as margens do riacho do Chapéu de Padre já estavam cheias de vida.

Era dia de lavação de roupa. E, na antiga Capital, dia de lavação de roupa — ou dia de se levar roupa “pra fonte”, como se falava naquele tempo — era quase um acontecimento público. As lavadeiras chegavam cedo, cada qual com sua trouxa na cabeça, o sabão de cinza embrulhado num pano, a bacia de lata e uma língua mais afiada que pedra de amolar.

No final dos anos 1930, não havia tanque de cimento nem água encanada, o que somente iria acontecer no final da década seguinte. Para muita gente, a água do rio era a torneira, o tanque, a banheira, a privada e, às vezes, até o lugar de se saber das novidades.

Foi numa dessas manhãs que Nhá Rita e Dona Luzia se encontraram num remanso empedrado daquele pequeno curso d’água.

Nhá Rita já estava agachada sobre uma pedra, esfregando uma camisa branca que, de tão encardida, parecia ter nascido bege.

— Ô, Luzia! Ocê tá chegando cedo demais, sô!

Dona Luzia ajeitou a trouxa no chão e respondeu:

— Cedo nada. Eu é que cheguei na hora. Ocê que tá atrasada até pro serviço.

Naquele tempo, as casas mais abastadas podiam ter criadas, cozinheiras e lavadeiras. Mas as mãos que deixavam as roupas alvas eram quase sempre mãos de mulheres pobres, que recebiam pouco e trabalhavam muito

— Eu? Atrasada? Eu saí de casa inhantes do galo cantá.

— Então seu galo anda cantano dispais do almoço.

Nhá Rita deu uma risada.

— Esse meu galo é muito preguiçoso. Puxou a família inteira nessa história de sono.

Dona Luzia  abriu a trouxa e começou a separar as roupas.

— Hoje tem roupa demais.

— Tem.

— De quem?

— Do coroné.

Dona Luzia parou de esfregar.

— Coroné de novo?

— Uai. E quem mais tem roupa pra sujá desse tanto?

— O coroné suja roupa ou manda os zoto sujá por ele?

Nhá Rita olhou para os lados, baixou a voz e respondeu:

— Fala baixo, muié. Vai que a roupa dele escuta e conta pr’ele…

As duas caíram na gargalhada.

As águas corriam de mansinho, indiferentes às diferenças entre quem lavava e quem vestia. Naquele tempo, as casas mais abastadas podiam ter criadas, cozinheiras e lavadeiras. Mas as mãos que deixavam as roupas alvas eram quase sempre mãos de mulheres pobres, que recebiam pouco e trabalhavam muito.

Dona Luzia pegou uma calça de linho.

— Olha isso aqui. Parece roupa de santo.

— Santo não usa calça de coroné. Só se for de Santo Antônio, que tem inté patente. Parece que é capitão ou major, num sei…

— Pois é, mas é mesmo do coroné. E coroné não lava roupa.

— Ainda bem — respondeu Nhá Rita. — Se lavasse, decerto que ia querê cobrá do rio.

Dona Luzia gargalhou.

— E é bem capaz de até mandá o rio pagá imposto.

A conversa foi interrompida por um menino que passou correndo pela margem.

— Nhá Rita! Nhá Rita!

— Que foi, menino?

— Dona Emerenciana mandou perguntar se a senhora já lavou a camisa do dotô.

Nhá Rita levantou a camisa ensaboada.

— Diz pra ela que lavei.

— Mas essa aí num é do coroné?

— Então diz que tô lavando duas ao mesmo tempo: a do dotô e a do coroné. E se perguntá mais, é pru mode fazê economia de sabão.

O menino saiu correndo.

Dona Luzia olhou para a amiga.

— Ocê ainda vai morrê por causa dessa língua.

— Morrê eu vou mesmo. Mas, enquanto num  morro, pelo menos me divirto.

Dona Luzia suspirou. — Rita, ocê já reparou numa coisa? — Em quê? — A roupa dos ricos é mais difícil de lavar. — É porque vem acompanhada de orgulho. — E a dos pobres?— A dos pobres vem acompanhada de remendo

E voltou a esfregar.

A manhã avançava. O sol esquentava as pedras e fazia brilhar as gotas que saltavam das roupas. As duas mulheres trabalhavam sem parar.

De vez em quando, uma estendia uma peça sobre a pedra. Depois vinha outra e outra, e mais outra: camisas; lençóis; toalhas; vestidos; roupa de criança; roupa de homem.

Roupa de gente que podia pagar para que outras pessoas lavassem.

Dona Luzia suspirou.

— Rita, ocê já reparou numa coisa?

— Em quê?

— A roupa dos ricos é mais difícil de lavar.

— É porque vem acompanhada de orgulho.

— E a dos pobres?

— A dos pobres vem acompanhada de remendo.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

Dona Luzia pegou uma camisa muito gasta.

— Essa aqui é minha.

— Sua?

— É. Tava na trouxa. Esqueci que tinha colocado.

— E por que não lava em casa?

— Porque em casa num tem água boa igual a essa.

Nhá Rita olhou para a amiga.

— Então ocê veio pro rio lavá  a própria roupa?

— Vim.

— E quem vai lavá a roupa que ocê trouxe pra lavá?

Dona Luzia ficou séria.

— Num começa…

Nhá Rita começou a rir.

— Pois eu acho que descobrimos uma nova profissão: lavadeira de lavadeira.

As duas riram tanto que quase deixaram cair a bacia no córrego.

Rita: ocê pensou como seria se tivesse um jeito de lavá roupa sem precisar passá o dia esfregando? Rita arregalou os olhos. — Um jeito de a roupa se lavá sozinha? — É. — E a roupa bate nela? — Sei lá. Pode ser. — Num quero

Mas, depois da risada, veio aquele silêncio que só aparece quando a brincadeira encontra a realidade da vida.

Dona Luzia olhou para as próprias mãos. Estavam ásperas, avermelhadas, cheias de pequenas rachaduras.

— Rita…

— Hum?

— Ocê já pensou como seria se a gente tivesse um jeito de lavá roupa sem precisar passá o dia inteiro esfregando?

Nhá Rita arregalou os olhos.

— Um jeito de a roupa se lavá sozinha?

— É.

— E a roupa bate nela?

— Sei lá. Pode ser.

— Então num quero.

— Por quê?

— Porque se a roupa começá a batê em alguma coisa, daqui a pouco essa coisa começa a batê na gente. E eu já tenho serviço demais.

Dona Luzia sorriu.

— Ocê num tem jeito.

— Tenho não. Só não tenho dinheiro.

A frase saiu simples, quase sem querer.

E talvez fosse essa a maior verdade daquela manhã. Elas tinham coragem, disposição e experiência. Tinham uma amizade que valia mais que muito dinheiro. Mas dinheiro mesmo, tinham pouco.

E era justamente por isso que conheciam tão bem o peso de cada tostão.

Nhá Rita pegou uma peça delicada e começou a esfregá-la com cuidado.

— Luzia, quanto é que o coroné paga por dúzia?

— Uma miséria.

— E o dotô, o adevogado?

— Menos ainda.

— E a viúva?

— A viúva paga direitinho

— Então vamo lavá só roupa de viúva.

— E quando acabar a roupa de viúva?

— A gente lava a viúva.

Dona Luzia soltou uma gargalhada tão alta que um cachorro do outro lado do rio começou a latir.

— Cala a boca, Rita!

— Uai, o cachorro gostô da ideia.

Nesse momento, ouviram passos na margem.

Era um homem bem vestido, chapéu de feltro, sapato lustroso, acompanhado de um menino.

Ele olhou para as duas lavadeiras.

— Bom dia.

— Bom dia — responderam.

— Qual de vocês é Nhá Rita?

Ela levantou a mão ensaboada.

— Sou eu.

— A senhora está com a roupa do meu pai?

Nhá Rita apontou para uma pilha.

— Tá ali.

O homem fez uma careta.

— Mas eu pedi que lavasse com bastante cuidado.

Nhá Rita olhou para Dona Luzia. Depois olhou para o homem.

— Cuidado eu tenho. O que eu não tenho é jeito de fazê milagre.

Dona Luzia baixou a cabeça pra esconder o riso.

O homem não achou graça.

— São roupas caras.

Nhá Rita levantou uma camisa.

— Pois o sinhô fique tranquilo. A água do Chapéu de Padre  num sabe o preço da roupa. Lava tudo igual.

O homem ficou sem resposta.

Dona Luzia, que até então estava calada, completou:

— Aqui, moço, camisa de coroné encarde igual camisa de pedreiro.

O homem apertou os lábios.

Nhá Rita continuou:

— A diferença é que, depois de limpa, a do coroné vorta  pra ele, numa casa grande. A nossa vorta pra nossa casinha pobre, no mesmo corpo cansado.

O homem não respondeu.

Pegou o chapéu, chamou o menino e foi embora.

As duas ficaram olhando.

Dona Luzia murmurou:

— Ocê foi longe agora.

— Fui não. Só esfreguei a roupa até aparecê a verdade.

Dona Luzia sorriu.

O sol já estava alto quando terminaram a labuta. As roupas ficaram estendidas sobre as pedras, brancas e coloridas, quarando ao sol. Depois do enxágue, o vento ia ajudando no serviço da secagem.

Nhá Rita torceu o último lençol.

— Pronto.

— Acabô?

— Acabô nada. Amanhã tem mais.

Dona Luzia colocou a trouxa na cabeça.

— Então inté amanhã.

— Inté!

Deram alguns passos.

Nhá Rita parou.

— Luzia!

— Que foi?

— Ocê esqueceu sua camisa.

Dona Luzia voltou, pegou a peça e colocou sobre a trouxa.

— Agradecida…

— De nada.

E as duas seguiram pela rua de pedra, carregando roupa limpa, corpo cansado e a dignidade de quem, com pouco, sustentava muito.

Atrás delas, o Chapéu de Padre continuava correndo. Levava a espuma do sabão, os segredos das lavadeiras e as pequenas injustiças de todos os dias.

Mas também levava as risadas. E, naquele tempo, rir era uma forma de não deixar a pobreza vencer completamente.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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Fonte: Jornal Opção

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