Artigo | Bancada policial pode dobrar de tamanho no Senado e conquistar governos estaduais

0

Por Catarina Duarte — Ponte

Entre você e a realidade

Compartilhe este conteúdo

A presença massiva de policiais e militares na política já não pode mais ser encarada como uma novidade. Desde 2018, em todos os níveis de poder, o Brasil tem observado a eleição de um número jamais visto de membros das forças de segurança na política. E tudo indica que esse fenômeno pode acontecer com ainda mais força na disputa da próxima semana.

Na legislatura compreendida entre 2019 e 2022, sob a presidência de Jair Bolsonaro, nada menos que 55 policiais e militares ocuparam uma cadeira no Congresso Nacional, sendo 47 na Câmara dos Deputados e 8 no Senado. Na atual, no período do governo Lula, o número aumentou: 53 na primeira Casa legislativa e 7 na segunda, totalizando 60 parlamentares.

Leia também: Bancada da Bala troca policiais ‘sindicalistas’ por influencers na Câmara

Somada a força política que este grupo também acumulou nos âmbitos estaduais e municipais, os membros das forças de segurança parecem ter se credenciado de vez como uma verdadeira classe política no país, e, agora, demonstram uma capacidade muito provável de expandir seus horizontes de poder, buscando voos mais altos nas eleições de 2026.

Parte disso se reflete nas disputas pelos governos estaduais. Policiais e militares somam nada menos do que 9 candidatos a governador e outros 18 candidatos a vice espalhados por 15 unidades federativas diferentes. Se muitos deles representam candidaturas pouco expressivas por pequenos partidos, não é nada irrelevante o número de concorrentes com alguma chance de vitória ou de disputa de 2º turno.

É o caso do tenente-coronel do Exército, Luciano Zucco, que atualmente ocupa o cargo de deputado federal pelo Rio Grande do Sul e agora lidera as pesquisas para o governo gaúcho pelo PL.

No Espírito Santo, uma chapa policial também mostra força: a candidatura do delegado de Polícia Civil Lorenzo Pazolini (Republicanos), acompanhada de sua vice, a cabo da PM Eliane Leal (PL), vem figurando na segunda colocação dos levantamentos eleitorais, podendo forçar uma disputa de 2º turno contra o atual governador capixaba. Situação parecida com a de Soldado Sampaio (Republicanos), que, desde o início do ano, enquanto presidente da Assembleia Legislativa de Roraima, assumiu o governo estadual de forma interina e agora disputa o cargo efetivamente, aparecendo na vice-liderança das sondagens.

Leia também: Por que o seu candidato deveria falar de letalidade policial nessas eleições?

Outros policiais aparecem com chances em chapas de estados do Norte do país, mas na condição de vice-governadores. Em Rondônia, o Delegado Camargo (Podemos) integra a candidatura favorita de Marcos Rogério (PL). No Amazonas, o Coronel Aníbal (PL) da PM oscila entre a segunda e a terceira posições em chapa encabeçada por Maria do Carmo. Já no Acre, a candidatura de Bocalom ainda sonha em alcançar ao menos a segunda colocação e disputar um segundo turno tendo como seu vice o sargento da PM acreana, Adonis (PSDB).

Se nas eleições para o Poder Executivo, policiais e militares já conseguem destaque, é na disputa ao Senado, porém, que as chances de vitória aparecem em maior número. São 26 candidatos encabeçando a chapa de senadores presentes em 16 estados do país. Destes, ao menos 14 mostram chances reais de vitória.

Três destes nomes buscam a reeleição ao mesmo cargo. Um deles é uma exceção à regra quanto ao alinhamento político: o delegado Fabiano Contarato, do PT, tem disputado ao menos a segunda colocação nas pesquisas ao Senado pelo Espírito Santo. Outro nome é o do capitão da PM Styvensom Valentim (Podemos), que lidera algumas pesquisas no Rio Grande do Norte.

O terceiro na busca pela reeleição é o senador Alessandro Vieira, que este ano adotou o nome de urna Delegado Alessandro (MDB) e surge bem colocado nas pesquisas do Sergipe, mas atrás de outra candidatura policial: a do Delegado André David (Republicanos).

Somam-se a eles outros candidatos que tentam saltar da Câmara dos Deputados para o Senado Federal, como o Capitão da PM Alberto Neto (PL), que parece se consolidar na segunda posição no Amazonas, e o Dr. Fernando Máximo (PL), perito médico da Polícia Civil que lidera as pesquisas em Rondônia.

Em uma disputa bastante embolada no Rio Grande do Sul, o escrivão da PF Sanderson (PL) busca ao menos uma segunda colocação. Situação parecida com a do policial rodoviário federal Nicoletti (PL), em Roraima, do Delegado Éder Mauro (PL), no Pará e do escrivão da PF Carlos Jordy (PL), no Rio de Janeiro.

Outro que ensaia a transição da Câmara dos Deputados ao Senado é Guilherme Derrite (PP), capitão da PM que passou cerca de 3 anos à frente da Secretaria de Segurança Pública de SP, onde acumulou um aumento explosivo da violência policial e deixou um legado de escândalos de envolvimento das polícias estaduais com o crime organizado. Isso não o impediu de voltar à Câmara e, agora, figurar entre as primeiras colocações, disputando uma das cadeiras do Senado com Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB).

Leia também: Quem é Guilherme Derrite, secretário de Tarcísio indicado como relator do PL Antifacção

Já o PRF José Medeiros (PL) pode ter vida um pouco mais difícil tentando se aproximar de uma das duas vagas ao Senado pelo Mato Grosso, sobretudo após a divulgação de um áudio onde ele zomba dos próprios eleitores.

Mais nomes já conhecidos da política também demonstram chances de conquistar o cargo de senador. Oriundo das fileiras do Exército, Capitão Contar (PL) tenta um salto mais alto, da Assembleia Legislativa para o Senado, consolidando-se na segunda colocação nas pesquisas do Mato Grosso do Sul. No Ceará, o Capitão Wagner (UB), da PM, que já ocupou uma cadeira na Câmara, agora aparece em uma disputa acirrada por uma senadoria.

É importante lembrar que cada candidato ao Senado carrega consigo dois suplentes. É comum que senadores sejam chamados a compor ministérios e secretarias ao longo de seu mandato e, quando isso acontece, a cadeira é assumida por um destes suplentes. Nas atuais eleições, conseguimos levantar que ao menos 30 policiais e militares ocupam estas posições em 15 estados diferentes.

Destes, ao menos 8 nomes compõem candidaturas com chances consideráveis de vitória. Dois deles, têm como cabeça de chapa outros policiais: o Subtenente Vélton é 1º suplente do PRF Nicoletti (PL-RR), enquanto o Tenente-coronel Íris é 2º suplente do Delegado André David (Republicanos-SE).

Outros integram chapas lideradas por civis, como a ex-PM, Dra. Eudócia (PSDB), que, apesar de ser atualmente senadora por Alagoas, aceitou apenas a 1ª suplência de Marina JHC (PSDB). Juntam-se a ela o Cabo Cassotto (PL), 1º suplente de Magno Malta (PL) no Espírito Santo, o Sargento Barbosa (PP), 2º suplente de André Fufuca no Maranhão, Rodrigo Marinho (PP), 2º suplente de Silvia Cristina (PP) em Roraima, e Lusinete Bispo (PL), 2ª suplente de Eduardo Gomes (PL) em Tocantins. Finaliza esta lista outra rara exceção em alinhamento partidário, a Delegada Carla Britto (Podemos), 2ª suplente do petista Jorge Viana no Acre.

Todos estes nomes buscam se juntar ao general Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e ao Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), dois militares com mandatos de senadoria pelo menos até 2030. Com isso, uma projeção máxima de que esta bancada de policiais e militares mais do que dobre, passando dos atuais 7 para impressionantes 16 senadores, parece bastante palpável, mesmo sem considerar a conquista de algumas suplências. Em uma projeção mínima, parece plenamente possível que este grupo ao menos mantenha o seu tamanho atual.

Uma situação que, diga-se, se soma à provável manutenção da imensa bancada policial e militar já formada na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas de todo o país.

Uma vez no poder, desde 2018, este grupo tem mostrado certa coesão em suas atividades políticas, que podem ser divididas em 5 linhas principais de atuação: 1) o aumento da autonomia e do poder das instituições policiais em relação à sociedade civil; 2) a defesa de pautas corporativistas; 3) o endurecimento das leis penais; 4) o afrouxamento da legislação armamentista; e 5) a agitação política em torno de pautas morais e culturais típicas da extrema-direita brasileira.

Quando uma classe ou um grupo político passa a conseguir este tipo de super representatividade nos espaços de poder, é preciso considerar que está ocorrendo alguma forma de desequilíbrio nas disputas eleitorais do país.

No Brasil, já sabemos bem que há quem se utilize do poderio econômico da propriedade de terras e de grandes empresas para desequilibrar o jogo eleitoral. Há também quem se utilize da força religiosa (e econômica) de igrejas com o mesmo objetivo.

Agora, parece haver também um grupo que se utiliza da força política e econômica da máquina pública policial e militar para desequilibrar ainda mais o jogo político brasileiro e construir um projeto autoritário de poder. Há um verdadeiro “Partido Policial” se consolidando em nosso país, e, a depender do resultado das eleições de 2026, pode se tornar bastante difícil para a sociedade civil fazê-lo se recolher de volta às delegacias e aos batalhões.

Almir Felitte é pesquisador e autor do livro “História da Polícia no Brasil: estado de exceção permanente?” (Autonomia Literária, 2023).

A Ponte recebe artigos e propostas de textos sobre segurança pública, justiça, direitos humanos, raça, gênero outros temas relacionados à nossa cobertura. Envia sua contribuição para [email protected]. Os textos recebidos serão avaliados pela equipe editorial antes da publicação.

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Assine

© 2026 Ponte Jornalismo

Design por dárkon vr

Desenvolvivdo por Estúdio Haste

Mantido e Hospedado por Opará Tecnologia

Usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação.

Você pode ver mais sobre os dados armazenados e configurados clicando em configurações .

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Apenas os cookies necessários ao funcionamento do site serão ativados.

Fonte: Ponte

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *