Ari Diógenes, o jornalista que trabalhou, por mais de meio século, com 19 governadores

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Por Euler de França Belém — Jornal Opção

Ari Diógenes, o jornalista que trabalhou, por mais de meio século, com 19 governadores

O jornalista Ari Diógenes da Rocha morreu, aos 82 anos, na sexta-feira, 25, de infarto.

Durante algum tempo, quando trabalhava no “Diário da Manhã”, cobri os acontecimentos pertinentes ao governador de Goiás — notadamente Henrique Santillo e Iris Rezende. Depois, já no Jornal Opção, continuei circulando pelo Palácio das Esmeraldas e pelo Palácio Pedro Ludovico (conhecido como Centro Administrativo). No primeiro, conheci o jornalista Ari Diógenes da Rocha. Amizade à primeira vista.

Conversava com Ari com frequência. Ele dizia, galhofeiro: “Você é da França e de Belém — tudo bem”. Eu respondia, brincando: “Ari, filho do filósofo Diógenes e ‘irmão’ do deputado Vilmar Rocha”.

Ari, com seus cabelos brancos, era mesmo uma Rocha, como sugere o sobrenome. Nunca foi vencido pelas doenças — uma delas grave. Estava sempre firme no seu posto, servindo com presteza 19 governadores. Isto mesmo: quase 20 gestores estaduais.

Acima de tudo jornalista, avesso aos controles ideológicos, Ari me contou que se deu bem com todos os governadores — uns mais, outros nem tanto. Sem arestas com nenhum deles.

Certa vez, um governador disse: Ari, no lugar de ser jornalista, você deveria ter sido diplomata. Porque consegue se dar bem com todo mundo

Durante anos, conversei com Ari sobre uma entrevista exclusiva. O objetivo era contar uma história dos governos de Goiás pelo crivo do jornalista. Uma vez, com a conversa marcada, ele adoeceu. Depois, outros afazeres, meus e dele, impediram que o perfil fosse traçado.

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Palácio das Esmeraldas, no Centro de Goiânia: onde Ari Diógenes passou grande parte de sua vida. Fantasmas circulavam pelo edifício no período noturno? | Foto: Euler de França Belém/2026

Certa feita, durante um café da manhã para a imprensa, eu e Ari saímos para um canto e conversamos demoradamente. Falamos sobre os fantasmas do Palácio Pedro Ludovico.

Não sei se Ari acreditava nas histórias, o mais provável é que não. Mas sabia dos “fatos” espectrais. Um falecido ex-governador, ele não mencionou qual, “circulava” pelos corredores do palácio, à noite. Às vezes de maneira silenciosa; outras, não. O elevador chegava a funcionar sozinho, como se o fantasma estivesse descendo e subindo.

Consta que — certa noite, há décadas — um dos fantasmas deu um grito forte e acordou todo mundo. Depois, Ari ficou sabendo que o grito havia sido dado por um morador de rua que passara próximo do Palácio das Esmeraldas, na madrugada. Mas e se o morador de rua fosse o fantasma? Ari riu, contido, e me disse: “Nada sei sobre isso. Mas pode ser”.

Ari tinha uma memória fotográfica e sabia muito sobre os governos de Otávio Lage, Leonino Caiado, Irapuan Costa Junior, Ary Valadão, Iris Rezende, Henrique Santillo, Maguito Vilela, Naphtali Alves, Helenês Cândido, Marconi Perillo, Alcides Cidinho Rodrigues, José Eliton, Ronaldo Caiado e Daniel Vilela.

Um falecido ex-governador ‘circulava’ pelo palácio. O elevador chegava a funcionar sozinho, como se o fantasma estivesse descendo e subindo

Sobre cada um, Ari tinha uma história para contar, nunca desabonadora. Eram histórias curiosas, sempre positivas. O jornalista deu-se bem com todos, porque era um gentleman. Certa vez, um governador disse: “Ari, no lugar de ser jornalista, você deveria ter sido diplomata. Porque consegue se dar bem com todo mundo”.

Sim, Ari, como bom diplomata do cotidiano, nunca era inconveniente.

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Ari Diógenes sabia de tudo o que ocorria no Palácio das Esmeraldas, mas era discreto | Foto: Redes sociais

Uma pena que Ari não tenha escrito suas memórias palacianas. Seria um excelente livro, uma história do cotidiano. Entretanto, dada sua habitual discrição, não chegou a publicar o livro. Teria ao menos um diário? Não se sabe. O mais certo é que as histórias, múltiplas histórias, estivessem guardadas em seu cérebro.

Ari era inteligente e dotado de rara perspicácia. Percebia tudo o que estava acontecendo, mas guardava para si o que avaliava que, como membro do staff do governador, não deveria divulgar. Mas durante anos foi uma das minhas fontes palacianas. Dizia sempre: “Você está sabendo?” Não, eu não estava mas ficava sabendo.

Numa conversa informal, Ari me disse que havia nascido em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) — quando a vitória dos Aliados era incerta. A Alemanha do nazista Adolf Hitler ainda estava muito forte.

Mineiro como Tiradentes e Tancredo Neves, Ari nasceu numa cidade de nome bonito — São Gonçalo do Abaeté. Em 1966, com 23 anos, mudou-se, de “mala e cuia”, para Goiás. Goiânia era uma balzaquiana de 33 anos. Uma garota bela e acolhedora.

Ao conversar sobre o ex-governador Irapuan Costa Junior, que construiu o Daia, maior distrito industrial de Goiás, Ari resumiu: ‘É sério e sábio‘

Numa cidade nova, pródiga em oportunidades, Ari sentiu-se em casa. Por isso, os amigos, como os competentes Jayro Rodrigues, Antônio Gomes, Fleurymar de Souza, Edson Ferrari, Luiz Carlos Bordoni — todos colegas de Palácio das Esmeraldas —, diziam que era o mais goiano dos mineiros, ao lado de Carmo Bernardes (de Pato de Minas) e Afonso Lopes (de Frutal).

Otávio Lage, na década de 1960: primeiro governador com o qual Ari Diógenes trabalhou | Foto: Reprodução

Mesmo com o espírito conciliador dos mineiros, Ari sentia-se goiano. Ele morava em Goiás havia 60 anos — mais de meio século.

Político de Goianésia, tendo estudado engenharia no Rio de Janeiro, Otávio Lage foi eleito governador de Goiás em outubro de 1965. Assumiu o governo em janeiro de 1966. Seu mandato terminou em março de 1971 — quando Leonino Caiado se tornou governador, agora sem eleição direta.

Todo pimpão, jovem, galã e sempre magro, Ari, com pouco mais de 20 anos, estava lá no Palácio das Esmeraldas, com o primeiro inquilino da Casa Verde de sua história. Deu-se bem com Otávio Lage, um gestor objetivo e decidido.

Ao conversar sobre o governo de Irapuan Costa Junior, que construiu o Daia, maior distrito industrial de Goiás, Ari resumiu: “Irapuan é sério e sábio”.

Durante o governo de Henrique Santillo, eu e Ari tivemos uma conversa a respeito do paulista de Ribeirão Preto. Eu e Ari respeitávamos Santillo, um político decente e focado em desenvolver Goiás e distribuir os dividendos do crescimento com o povão — por isso, investiu muito na área de saúde.

Ari e eu notávamos, porém, uma certa rigidez em Henrique Santillo — o que o prejudicava politicamente. Ele abominava conchavos, o que é positivo, do ponto de vista moral, mas não da questão política. O governador era um grande leitor e, frequentemente, conversávamos sobre a obra de Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso (sobretudo “Modelo Político Brasileiro”). Era leitor da poesia de Jorge Luis Borges. Da “proesia”.

Henrique Santillo morreu em 2002, com 64 anos. Ao me ver no Palácio das Esmeraldas, Ari me disse: “Morreu um homem de bem e do bem”. Não há síntese melhor sobre o ex-governador.

Durante o breve governo de Helenês Cândido, eu e Herbert de Moraes Ribeiro estivemos no Palácio das Esmeraldas. Ao vê-lo, Herbert disse: “Grande Ari, patrimônio do governo e de Goiás”. Ari riu e respondeu: “Parabéns pelo Jornal Opção. Herbert, você criou um jornal que todos nós que gostamos de política temos a obrigação de ler”.

Leitor infalível da coluna Imprensa, do Jornal Opção, Ari ligava e dizia: “Você pegou pesado, mas fez bem”.

No último encontro dos jornalistas com o então governador Ronaldo Caiado, no Palácio das Esmeraldas, Ari estava lá — tão decente quando Diógenes, o filósofo. Elegante e simples ao mesmo tempo — de gravata e paletó. Era o que chamava de “liturgia do poder”.

Perguntei a Ari sobre Daniel Vilela, então vice-governador. “Primeiro, é filho do grande Maguito Vilela. Segundo, é um jovem moderno e bem intencionado”. O jornalista também tinha apreço por Marconi Perillo, governador de Goiás quatro vezes.

Salvo engano, em agosto, na porta do restaurante Pérolas do Sabor, na Avenida Couto Magalhães, no Setor Pedro Ludovico, passei de carro com minha mulher, Candice, e vi Ari, acompanhado de dois adultos e de uma criança. O cumprimentei e ele respondeu, talvez sem me reconhecer. Arrependi de não ter parado para uma prosa.

Eu admirava o circunspecto Ari, sempre leal aos amigos e aos governadores a quem, durante 60 anos, serviu com presteza e competência, independentemente de ideologias partidárias.

Uma lágrima, produzida pelo cérebro (a razão) e pelos olhos (a emoção), para o sábio Ari Diógenes, que, durante toda sua vida, foi uma Rocha. Como disse Herbert, “grande Ari”.

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Fonte: Jornal Opção

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