Após excessos na harmonização, pacientes buscam resultados mais naturais; especialista explica mudança no comportamento

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Por Luan MonteiroJornal Opção

Após excessos na harmonização, pacientes buscam resultados mais naturais; especialista explica mudança no comportamento

A imagem de um rosto com lábios muito preenchidos, mandíbula acentuada e maçãs do rosto marcadas já não representa, necessariamente, o resultado procurado por quem chega aos consultórios de estética. A preferência de parte dos pacientes tem se deslocado para intervenções menos perceptíveis, capazes de amenizar características específicas sem modificar a identidade facial.

A discussão sobre o futuro dos procedimentos de harmonização ganhou outro componente em agosto, quando uma decisão judicial voltou a colocar em debate quais profissionais estão autorizados a realizar determinados procedimentos invasivos no rosto.

No dia 19 de agosto, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) decidiu pela anulação de uma resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) que reconhecia a harmonização orofacial como especialidade e autorizava cirurgiões-dentistas a realizar procedimentos estéticos invasivos em toda a face.

A ação envolve uma disputa iniciada em 2019 e teve recursos apresentados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Segundo o entendimento adotado pelo tribunal, uma norma editada por conselho profissional não poderia ampliar as atribuições de uma categoria além daquilo estabelecido pela legislação.

O processo, no entanto, ainda não terminou. O CFO anunciou que pretende recorrer e orientou os profissionais da área a continuar realizando os atendimentos de harmonização orofacial enquanto não houver uma decisão definitiva.

Menos transformação, mais preservação

Para a dermatologista Maria Lígia Mendonça, que trabalha há 14 anos na área, a discussão sobre os procedimentos ocorre em um momento em que o próprio paciente está mudando a expectativa em relação ao resultado. Em vez de chegar ao consultório com o objetivo de reproduzir determinado padrão visto nas redes sociais, muitos procuram corrigir um detalhe específico e preservar os demais traços.

Maria Lígia Mendonça é dermatologista | Foto: Arquivo Pessoal

“Hoje, o paciente chega muito mais consciente do que quer. Ele não quer necessariamente mudar o rosto. Quer melhorar aquilo que o incomoda, mas continuar se reconhecendo no espelho”, afirma.

A procura por tratamentos estéticos continua expressiva no país. De acordo com o Global Survey 2024, da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), divulgado em 2025, o Brasil ocupou a primeira posição mundial em cirurgias plásticas estéticas. Na soma dos procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos, ficou atrás apenas dos Estados Unidos. A toxina botulínica está entre as intervenções não cirúrgicas mais realizadas.

Reação aos excessos

O crescimento das intervenções faciais também ajudou a consolidar um modelo de beleza facilmente reconhecido. Nos últimos anos, imagens nas redes sociais popularizaram rostos com contornos muito definidos, lábios volumosos e maior projeção em determinadas áreas.

Esse padrão passou a ser associado ao termo “Instagram face”. Agora, segundo Maria Lígia, alguns pacientes chegam aos consultórios justamente para evitar esse tipo de resultado.

“A gente passou por um período de muitos excessos, de muito exagero. Hoje, praticamente todo paciente que chega pela primeira vez me diz a mesma frase: ‘vim aqui porque sei que o resultado é natural’”, relata.

A dermatologista explica que os procedimentos que utilizam substâncias injetáveis podem considerar o rosto de maneira integrada. A técnica permite trabalhar diferentes regiões em conjunto, mas, segundo ela, isso não significa que todos devam receber intervenções semelhantes.

“Quando a gente traz o injetável para uma abordagem mais global do rosto, os resultados melhoram muito. Mas isso também abriu espaço para exageros, para uma padronização que a gente não deveria buscar”, avalia.

O que funciona para um rosto pode não funcionar para outro

A definição do tratamento, nesse contexto, depende de uma avaliação individual. Estrutura facial, proporções, idade, condição da pele e expectativa do paciente são alguns dos elementos considerados antes de uma intervenção.

A própria percepção do que representa um resultado equilibrado pode variar de pessoa para pessoa. Por isso, a dermatologista defende que o profissional tenha autonomia técnica para estabelecer limites quando o desejo apresentado pelo paciente puder levar a um resultado artificial.

“É claro que a gente escuta o paciente, escuta o que incomoda, o que ele deseja. Mas o limite entre o que vai ficar natural e o que vai ficar exagerado tem que ser apurado pelo profissional. Isso não tem preço.”

Procedimentos também envolvem riscos

A disputa entre entidades profissionais trouxe à tona outra questão: os riscos envolvidos nos procedimentos estéticos invasivos.

Entre os produtos utilizados está o ácido hialurônico. Embora seja amplamente empregado em procedimentos faciais, uma aplicação inadequada pode atingir vasos sanguíneos. Em situações raras, complicações desse tipo podem provocar consequências graves, incluindo perda de visão.

Para Maria Lígia, o conhecimento necessário para realizar um procedimento não se resume ao domínio da técnica estética.

“Quando falamos de procedimentos injetáveis, não estamos falando apenas de estética. Estamos falando de anatomia, conhecimento técnico e capacidade para reconhecer e tratar uma eventual complicação. Por isso, a formação do profissional é tão importante quanto o resultado que ele promete entregar”, explica.

A orientação, portanto, é que o paciente não escolha um profissional exclusivamente pelo preço ou pela exposição nas redes sociais. Formação, experiência, conhecimento anatômico e preparo para enfrentar possíveis intercorrências também devem ser considerados.

“Comparar por preço é se enganar pensando que está comprando a mesma coisa. Quando a gente vende um serviço, não existe comparação por preço. A gente entrega resultado, tecnologia, segurança e capacitação”, afirma.

A mudança na preferência dos pacientes acompanha uma transformação mais ampla na maneira como o resultado estético é percebido. Se antes a intervenção precisava ser evidente para demonstrar que algo havia sido feito, agora o resultado discreto pode ser justamente o mais valorizado.

A tendência não significa o desaparecimento dos procedimentos de harmonização nem dos resultados mais marcados. O que muda é a coexistência de diferentes expectativas e a valorização de tratamentos individualizados, que considerem as características de cada rosto em vez de reproduzir um mesmo padrão estético.

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Fonte: Jornal Opção

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