Anthropic monta laboratório de biologia e amplia aposta de IA na descoberta de medicamentos

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Por Aquiles LinsBrasil 247

247 – A Anthropic criou um laboratório de biologia na região da Baía de São Francisco e passou a realizar experimentos físicos como parte de sua estratégia para ampliar o uso da inteligência artificial nas ciências da vida e no desenvolvimento de medicamentos.

A iniciativa foi revelada nesta sexta-feira (18) pela Reuters, que ouviu duas pessoas familiarizadas com o projeto. Eric Kauderer-Abrams, chefe da área de ciências biológicas da Anthropic, confirmou à agência que a empresa mantém um chamado “laboratório úmido”, estrutura destinada à realização de experiências com materiais biológicos.

“Acreditamos que, para se fazer biologia, o teste final ainda é, e continuará sendo por um bom tempo, o trabalho real em laboratório”, afirmou Kauderer-Abrams. “Com certeza estamos fazendo isso hoje, e eu descreveria nossa abordagem como típica da maioria das empresas de biotecnologia, onde parte do trabalho é feita em nossas próprias instalações e parte é desenvolvida em parceria com entidades externas.”

A Anthropic afirma que pretende aplicar seus modelos de inteligência artificial a problemas que recebem menos atenção da indústria farmacêutica, entre eles doenças raras e condições historicamente consideradas difíceis de tratar. Um porta-voz da companhia ressaltou, porém, que o novo laboratório não foi criado exclusivamente para a descoberta de medicamentos.

Claude poderá operar equipamentos de laboratório

Segundo uma das fontes ouvidas pela Reuters, a empresa também estuda ampliar a capacidade do Claude, seu modelo de IA, para controlar unidades robóticas capazes de executar experiências científicas com intervenção humana limitada.

A Anthropic afirma, entretanto, que a supervisão humana continuará sendo indispensável por razões de segurança.

“Estamos nos estágios iniciais do uso da IA para automatizar a execução do trabalho de laboratório”, disse Kauderer-Abrams, acrescentando que essa área “tem potencial para produzir uma aceleração significativa em muitos processos diferentes”.

A expansão para experimentos físicos marca uma mudança importante na atuação da companhia. Até então, parte relevante das aplicações de IA em biologia estava concentrada em avaliações “in silico”, realizadas por simulações computacionais.

Segundo Kauderer-Abrams, a ambição é utilizar a tecnologia para acelerar pesquisas que atualmente demandam longos ciclos de desenvolvimento e elevados custos.

“A missão da empresa é desenvolver uma IA poderosa de uma forma que beneficie o mundo”, afirmou. “De longe, vemos a maior oportunidade para isso nas ciências da vida, e isso está motivando tudo o que estamos fazendo.”

Avanço ocorre em meio a alertas sobre riscos da IA

A entrada mais profunda da Anthropic no setor de biotecnologia ocorre ao mesmo tempo em que pesquisadores da própria companhia intensificam alertas sobre os riscos associados a sistemas de inteligência artificial mais avançados.

Nas últimas semanas, integrantes da empresa voltaram a discutir cenários extremos envolvendo a tecnologia, enquanto a própria Anthropic informou ter identificado situações em que seus sistemas poderiam ser empregados em tarefas relacionadas ao desenvolvimento de armas biológicas.

O CEO da empresa, Dario Amodei, também já defendeu cautela no avanço de sistemas de IA capazes de operar de maneira autônoma em ambientes digitais.

Kauderer-Abrams afirmou que essa tensão entre inovação e segurança está presente no trabalho desenvolvido pela divisão de ciências da vida.

“Em nosso trabalho com ciências da vida, estamos sempre equilibrando essas coisas”, disse. “Tornamos os modelos melhores de maneiras que acreditamos que vão elevar e acelerar o desenvolvimento de medicamentos, ao mesmo tempo em que pensamos cuidadosamente sobre como implantá-los para limitar os riscos.”

Anthropic amplia investimentos em biotecnologia

A companhia já havia indicado em junho que pretendia executar programas próprios de pesquisa de medicamentos. Na ocasião, Kauderer-Abrams disse que a empresa buscaria atuar em trabalhos pré-clínicos em áreas consideradas pouco atraentes financeiramente por empresas tradicionais do setor.

A Anthropic também lançou o Claude Science, ferramenta voltada à pesquisa científica, e incorporou ao seu conselho o CEO da Novartis, Vas Narasimhan.

Além disso, a companhia adquiriu a startup Coefficient Bio. Segundo reportagens citadas pela Reuters, a operação teria sido avaliada em cerca de US$ 400 milhões em ações. A Anthropic confirmou a aquisição, mas não comentou o valor. A tecnologia da empresa deverá ser utilizada na criação de ferramentas para desenvolvimento de medicamentos.

Kauderer-Abrams afirmou que manter parte da pesquisa dentro da própria Anthropic pode acelerar determinados processos.

“Há algumas coisas que podemos fazer muito mais rapidamente com nossas próprias mãos”, afirmou, acrescentando que o objetivo é “operar na maior escala possível”.

A empresa também passou a buscar profissionais especializados em operações laboratoriais, caracterização de proteínas, ácidos nucleicos e outras áreas de bioquímica. Segundo Kauderer-Abrams, ciências da vida já estão entre os segmentos que mais recebem funcionários e recursos dentro da Anthropic.

Foco em doenças difíceis de tratar

Uma das apostas da empresa é que a inteligência artificial consiga acelerar a criação de terapias contra doenças consideradas “intratáveis por medicamentos” pelas abordagens convencionais.

Entre as possibilidades mencionadas estão anticorpos biespecíficos e triespecíficos, moléculas complexas capazes de atingir mais de um ponto de uma proteína ou célula ou de atuar simultaneamente sobre diferentes alvos biológicos.

A Anthropic não revelou quais doenças estão sendo estudadas nem em que estágio se encontram suas pesquisas.

Mesmo com avanços na fase de descoberta, o desenvolvimento de um medicamento pode levar anos até chegar ao mercado. Moléculas identificadas em laboratório ainda precisam passar por etapas pré-clínicas e ensaios em humanos para demonstrar segurança e eficácia.

Por enquanto, a Anthropic afirma que não pretende entrar nessa última etapa. Kauderer-Abrams disse que a companhia estabeleceu uma divisão clara entre suas pesquisas e o trabalho tradicional de empresas farmacêuticas.

“Não estamos competindo com empresas farmacêuticas e de biotecnologia cujo negócio é levar medicamentos ao mercado”, declarou.

A decisão também busca reduzir possíveis conflitos com clientes da própria Anthropic. A companhia fornece ferramentas de inteligência artificial a grupos farmacêuticos como Genentech, da Roche, Bristol Myers Squibb e Novo Nordisk.

Em agosto, a empresa lançou ainda o Model Hardware Standard, projeto destinado a facilitar a integração entre modelos de inteligência artificial e equipamentos físicos.

Apesar da expansão da infraestrutura, a Anthropic continua afirmando que pretende concentrar seus próprios programas em etapas anteriores aos ensaios clínicos e em problemas que, segundo a companhia, não recebem investimentos suficientes da indústria farmacêutica.

Fonte: Brasil 247

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