Antes do Bolsa Família, eu vi crianças sem infância
Por Joaquim de Carvalho — Brasil 247
O reajuste do Bolsa Família, anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a poucas semanas da eleição, produziu a reação previsível de seus adversários. Candidatos da oposição o classificaram como eleitoreiro, e houve questionamentos sobre sua legalidade. A proximidade das urnas torna legítimo discutir politicamente o momento escolhido pelo governo. Mas há duas questões diferentes aqui. Uma é jurídica. Outra, muito mais importante, é saber o que o Bolsa Família significou para o Brasil.
Comecemos pela lei.
O artigo 73, parágrafo 10, da Lei nº 9.504, a Lei das Eleições, proíbe, no ano eleitoral, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública. Mas o próprio dispositivo estabelece exceções. Entre elas estão os “programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior”.
É precisamente nessa exceção que se enquadra o argumento jurídico em defesa do reajuste do Bolsa Família: trata-se de um programa permanente, instituído por lei e em execução orçamentária muito antes de 2026. Eventuais questionamentos sobre o caso concreto, evidentemente, cabem à Justiça Eleitoral.
O reajuste anunciado em setembro é de 15,04%, correspondente à inflação acumulada pelo INPC desde março de 2023. O piso por família sobe de R$ 600 para R$ 691. Os novos valores começam a ser pagos em outubro.
Esses são os números. Mas números não explicam inteiramente o que está em discussão.
Para compreender o Bolsa Família, é preciso lembrar de que Brasil estamos falando.
Em 1947, Manuel Bandeira escreveu um dos poemas mais dolorosos da literatura brasileira. Chamava-se “O Bicho”:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Em dez versos curtos, Bandeira retratou um país no qual a fome podia retirar de um ser humano até aquilo que, aos olhos dos outros, o distinguia de um animal. O choque do poema está justamente na última palavra: homem.
Quase meio século depois, aquele Brasil ainda existia.
Eu o vi.
Em 1995, percorri diferentes regiões do país para uma reportagem sobre trabalho infantil publicada pela revista Veja, “O Suor dos Pequenos”. Havia pelo menos 3 milhões de crianças às quais, na prática, era negado o direito à infância.
Elas não brincavam. Muitas mal estudavam. Trabalhavam.
Vi isso de perto.
Em Mato Grosso do Sul, conheci um viúvo já idoso que trabalhava em fornos de carvão alimentados com madeira. Ele tinha três filhas. Uma delas tinha apenas sete anos.
As três meninas trabalhavam junto com o pai.
Não porque alguém naquela família acreditasse que criança deveria trabalhar. Trabalhavam porque a remuneração dependia da quantidade de carvão de eucalipto produzido e porque, sem o trabalho delas, entraria ainda menos dinheiro em casa.
E, mesmo trabalhando todos, passavam fome.
Quando terminei a entrevista, fiz uma coisa que um repórter não deve fazer. Sem que aquele homem percebesse, tirei R$ 100 da carteira e deixei o dinheiro sobre um móvel. Corrigidos para valores de hoje, seriam algo em torno de R$ 570.
Não queria que ele soubesse que tinha sido eu. Repórter não paga por entrevista — e eu não estava pagando pela entrevista. Queria apenas que ele encontrasse aquele dinheiro depois. Talvez pensasse que tivesse esquecido que o possuía. Talvez uma das meninas o encontrasse. Talvez imaginassem que tivesse sido um acaso, uma sorte inesperada, quem sabe até um pequeno milagre.
Passaram-se mais de 30 anos, mas nunca esqueci aquela família.
Nem deixei de pensar que, entre o homem que Manuel Bandeira viu catando comida entre os detritos em 1947 e aquelas três meninas que encontrei trabalhando em fornos de carvão quase cinquenta anos depois, havia uma linha terrível de continuidade.
Era o Brasil da fome.
É preciso lembrar desse Brasil para compreender o significado histórico das políticas de transferência de renda.
O Bolsa Escola federal foi criado no governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, como um programa nacional de renda mínima vinculada à educação. A ideia era simples e poderosa: transferir dinheiro às famílias pobres e, em contrapartida, manter as crianças na escola, reduzindo a pressão para que trabalhassem. O benefício era de R$ 15 por criança, limitado a três crianças por família.
Em 2003, já no governo Lula, nasceu o Bolsa Família. Ele reuniu programas que existiam separadamente — entre eles Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio-Gás — numa política nacional unificada de transferência de renda.
Nos governos Lula e Dilma Rousseff, o programa ganhou escala e se transformou em uma das principais peças da rede brasileira de proteção social.
É importante reconhecer essa história inteira. Políticas públicas raramente nascem de uma única pessoa ou de um único governo. O Bolsa Família tem antecedentes.
Houve experiências municipais de renda mínima e Bolsa Escola, como as de Anthony Garotinho quando prefeito de Campos de Goytacazes e de José Roberto Magalhães Teixeira, então prefeito de Campinas. Houve uma experiência de dimensão maior, a de Cristovam Buarque, no Distrito Federal.
Houve também o programa federal de Fernando Henrique Cardoso. Houve a unificação e a expansão promovidas a partir do primeiro governo Lula. Houve sua continuidade, mudanças de desenho e novas ampliações nos governos seguintes.
Mas também é um fato que o combate à fome ocupa um lugar antigo na trajetória política de Lula, muito anterior à sua chegada ao Palácio do Planalto.
Na biografia de Lula escrita por Fernando Morais, há relatos impressionantes do que ele encontrou ao percorrer o Brasil na primeira Caravana da Cidadania, em 1993, dez anos antes de assumir a Presidência.
A fome não aparecia como uma abstração estatística. Estava diante dele.
Havia gente revirando lixo à procura de comida. Houve uma mulher que desmaiou de fome. E outra que passou mal depois de comer palma, vegetação usada na alimentação do gado.
Lula perguntou se ela estava doente, se estava se sentindo mal.
Ela respondeu:
“Não, seu Lula, não estou doente. Estou com fome. Isso que eu vomitei é palma que comi hoje cedo, para forrar o estômago.”
É difícil encontrar uma definição mais brutal da fome.
Aquela mulher, as meninas dos fornos de carvão e o homem de Manuel Bandeira pertenciam a épocas diferentes. Mas pertenciam ao mesmo Brasil.
Um Brasil que mudou.
O Bolsa Família não acabou com a pobreza. Não acabou com a desigualdade. E, obviamente, não eliminou a fome para sempre. Nenhuma política pública tem esse poder isoladamente.
Mas cenas como aquelas deixaram de fazer parte da rotina brasileira na escala em que ocorriam.
O país, contudo, voltou a assistir a imagens semelhantes décadas depois. Durante o governo Bolsonaro, apareceram filas de brasileiros em busca de ossos e restos de carne. Em Cuiabá, em 2021, pessoas chegaram a dormir na rua para conseguir lugar numa fila de distribuição de ossos.
O Brasil também voltou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO. Em 2025, a organização anunciou que o país havia novamente saído dele: no triênio 2022-2024, a proporção média da população em situação de subalimentação ficou abaixo do limite de 2,5% utilizado pela instituição.
O mercado de trabalho é outra parte indispensável dessa história. Transferência de renda e emprego não são políticas contraditórias. São complementares.
O Bolsa Família não foi concebido para substituir o trabalho. Para milhões de brasileiros, ele complementa uma renda que, mesmo quando existe emprego, pode ser insuficiente para pagar alimentação, aluguel, gás, transporte e as despesas dos filhos.
É nesse contexto que precisam ser entendidos os R$ 600 que agora passarão a ter um piso de R$ 691.
Para quem observa o programa exclusivamente da perspectiva da disputa eleitoral, R$ 691 podem parecer apenas mais uma peça no tabuleiro político.
Para quem conheceu o Brasil das crianças nos fornos de carvão, esse dinheiro tem outro significado.
Pode significar uma criança que não precisa acompanhar o pai ao forno.
Uma menina que pode ir à escola em vez de ajudar a produzir carvão.
Uma família que não precisa escolher quem comerá melhor naquele dia.
O combate à fome não apareceu na agenda de Lula em setembro de 2026.
É um tema presente em sua trajetória política há décadas, antes de sua primeira eleição para a Presidência. E o Bolsa Família não nasceu nesta eleição. É resultado de uma construção institucional iniciada antes de Lula, unificada e ampliada a partir de 2003 e mantida, com diferentes nomes, desenhos e valores, por governos posteriores.
Por isso, qualquer discussão sobre eventual finalidade eleitoral do reajuste precisa conviver com outro dado histórico: a prioridade conferida por Lula ao combate à fome é muito anterior à eleição de 2026.
Eu vi o Brasil antes do Bolsa Família.
Vi uma menina de sete anos trabalhando num forno de carvão porque sua família precisava do trabalho de uma criança para tentar comer.
Manuel Bandeira, quase cinquenta anos antes, tinha visto um homem procurando comida no lixo.
“Meu Deus”, escreveu ele, “era um homem”.
É uma frase que o Brasil levou décadas para começar a deixar para trás.
Talvez uma das melhores maneiras de medir o que o país mudou seja justamente esta: cenas que durante tanto tempo fizeram parte da paisagem brasileira passaram a nos parecer intoleráveis.
E talvez seja essa a dimensão que não deveria desaparecer quando o Bolsa Família volta a ser discutido apenas como uma questão eleitoral.
Antes de ser um número numa pesquisa, uma despesa no Orçamento ou um argumento numa campanha, há uma pergunta muito mais antiga.
É a pergunta que atravessa o poema de Bandeira, a menina que encontrei no forno de carvão e a mulher que Lula encontrou comendo palma para enganar o estômago:
O que uma sociedade está disposta a fazer para que ninguém precise passar fome?
Fonte: Brasil 247