Amigo de Flávio Bolsonaro recebia decisões do STJ e pareceres sigilosos do MPF, aponta PF
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – O advogado Willer Tomaz, amigo do senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), é alvo de uma investigação da Polícia Federal (PF) por suspeitas de receber antecipadamente minutas de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pareceres do Ministério Público Federal (MPF). Segundo os investigadores, as informações sigilosas permitiam ao escritório conhecer resultados de julgamentos antes de sua divulgação e adaptar estratégias processuais conforme os interesses de seus clientes.
Segundo a coluna da jornalista Natália Portinari, do UOL, com base em informações da investigação da PF. Um dos principais suspeitos de fornecer os documentos é o procurador aposentado Antônio Carlos Simões Soares, que também mantém ligações com Flávio Bolsonaro. Ele é investigado por supostamente antecipar informações reservadas e ajustar o conteúdo de manifestações do MPF em articulação com o advogado.
Soares ocupou o cargo de subprocurador-geral da República, uma das posições mais elevadas da carreira do Ministério Público Federal. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e chegou a ser considerado para assumir a Procuradoria-Geral da República (PGR), em razão de sua proximidade com Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. O procurador se aposentou em março de 2026.
De acordo com a reportagem, a PF identificou indícios de que o escritório de Tomaz recebia informações sobre o resultado de processos antes da publicação das decisões. Com esse conhecimento, os advogados poderiam alterar sua atuação, inclusive desistindo de recursos que teriam resultados desfavoráveis.
A investigação também aponta a possível participação de outros interlocutores no fornecimento de documentos, entre eles um funcionário da área de informática do próprio STJ.
O tribunal informou ao UOL que instaurou uma investigação sobre o episódio. A reportagem não conseguiu localizar Antônio Carlos Simões Soares para comentar as suspeitas e manteve o espaço aberto para manifestações.
PF identifica acesso antecipado a decisão sobre disputa de R$ 176 milhões
Um dos episódios examinados pela Polícia Federal envolve uma disputa judicial relacionada a um terreno em Brasília, onde funcionava a antiga Academia de Tênis.
O processo envolve as construtoras Attos Empreendimentos Imobiliários e HC Incorporadora, representadas por Willer Tomaz, e uma família de herdeiros que reivindica R$ 176,4 milhões.
Segundo a investigação, o escritório recebeu, em 16 de setembro de 2026, a minuta de um acórdão do STJ que somente seria assinado dois dias depois, em 18 de setembro.
Na decisão, o tribunal reconheceu que os herdeiros tinham valores a receber das empresas. Antes do julgamento, as construtoras haviam desistido de um recurso que já estava incluído na pauta.
A Polícia Federal apura se o acesso antecipado ao conteúdo da decisão influenciou a estratégia processual adotada pelas empresas.
Desistência de recursos de Weverton Rocha também é investigada
Outro caso mencionado pela PF envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA), cliente de Willer Tomaz, em uma ação por danos morais contra a Editora Abril, responsável pela publicação da revista Veja.
O recurso estava previsto para julgamento na Quarta Turma do STJ em setembro de 2025.
Na noite anterior à sessão, tanto Weverton quanto a editora apresentaram pedidos de desistência de seus recursos.
Conforme a investigação, o escritório de Tomaz já teria conhecimento do resultado esperado para o julgamento quando a desistência foi formalizada.
A PF examina a possível relação entre o acesso a informações reservadas e a decisão de não prosseguir com os recursos.
Outros processos sob suspeita incluem a disputa entre J&F e Paper pela Eldorado Celulose, questões relacionadas ao espólio de Cid Ferreira, fundador do extinto Banco Santos, e um caso envolvendo a Difusora Comunicação, empresa pertencente ao próprio advogado.
Procurador aposentado é suspeito de atuar em sete casos
A Polícia Federal identificou sete episódios nos quais Antônio Carlos Simões Soares teria antecipado informações e influenciado o conteúdo de pareceres do Ministério Público Federal para atender a interesses de Willer Tomaz.
As suspeitas envolvem não apenas o compartilhamento de documentos antes de sua divulgação oficial, mas também a possível interferência na elaboração de manifestações institucionais do MPF.
O material reunido pelos investigadores foi encaminhado ao Ministério Público Federal para avaliação da competência judicial responsável pelo caso.
A definição depende da situação funcional de Soares. Enquanto ocupava o cargo de subprocurador-geral da República, eventual investigação contra ele poderia tramitar no STJ, em razão das regras de foro por prerrogativa de função.
Com sua aposentadoria, em março deste ano, o entendimento atualmente considerado é o de que a apuração deverá seguir para a primeira instância.
Relação com Flávio Bolsonaro e investigação sobre desvios do INSS
Willer Tomaz também aparece em outra frente de investigação da Polícia Federal, relacionada a suspeitas de lavagem de dinheiro proveniente de desvios de recursos de aposentadorias.
O advogado foi alvo de uma operação de busca e apreensão em agosto de 2026. Os investigadores apuram a suspeita de que recursos desviados tenham sido lavados em benefício do senador Weverton Rocha, que também é investigado.
A relação de Tomaz com Flávio Bolsonaro já havia sido objeto de revelações anteriores do UOL.
Segundo a investigação da PF, o advogado e o senador figuravam como beneficiários de uma mesma conta bancária no Santander. A reportagem também informou que Tomaz custeou viagens de Flávio à Europa.
Advogado nega irregularidades e interferência no MPF
Procurado pela reportagem, Willer Tomaz rejeitou as suspeitas levantadas pela Polícia Federal.
Em nota, o advogado afirmou que “nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido ou ajustado o conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal”.
A defesa também sustentou que sua atuação sempre ocorreu dentro das normas legais e das prerrogativas asseguradas à advocacia.
“Sua atuação profissional sempre observou a legislação e as prerrogativas profissionais da advocacia, pelos meios institucionais e processuais legítimos. As insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação”, declarou.
Fonte: Brasil 247