Ameaça de um ‘super El Niño’ desafia cidades brasileiras a se preparar para eventos extremos

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Por Carolina DantasRevista Pesquisa Fapesp

Milhares de quilômetros a oeste do Peru e a leste da Indo­nésia, no coração azul do oceano Pacífico equatorial, um aumento pequeno, porém persistente, da temperatura da água está colocando o planeta inteiro em alerta. Cien­tistas preveem que, até o fim deste ano, o deslocamento dessa massa de água aquecida na direção da América do Sul poderá desencadear o mais intenso evento de El Niño já registrado pela ciência moderna, com consequências potencialmente gravíssimas para diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil.

O primeiro alerta veio no início de junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, sigla em inglês) anunciou que um El Niño havia se formado. Isso acontece quando a temperatura da água na faixa equatorial do oceano Pací­fico permanece pelo menos 0,5 °C acima da média por vários meses consecutivos, acompanhada de mudanças no padrão de circulação dos ventos alísios, que normal­mente empurram essa água quente na direção da Aus­trália e do Sudeste Asiático (veja infográfico completo).

Desde então, a situação só piorou. Em julho, a anoma­lia térmica já havia ultrapassado 2 °C em grande parte da região leste do Pacífico, que banha a América do Sul. Em 13 de agosto, a Noaa anunciou que havia 90% de proba­bilidade de esse El Niño se tornar “muito forte”, com um aumento persistente acima de 2 °C na temperatura média da água nessa região, e 69% de probabilidade de ele se tor­nar o El Niño mais forte já registrado desde 1950, com um aquecimento próximo de 3 °C.

Amanda Perobelli/Reuters Uma placa de “pare” e o topo de uma casa emergem da água em Canoas, em 5 de maio de 2024. As duas imagens integram a série “Brazil’s Worst-Ever Floods”, premiada no World Press Photo 2025. O júri destacou o registro de um dos maiores desastres climáticos da história do país Amanda Perobelli/Reuters

Segundo o programa de monitoramento climático Copernicus, da União Europeia, a temperatura média do oceano como um todo em julho deste ano (20,96 °C) foi a maior registrada nas últimas cinco décadas, e muitos pes­quisadores já preveem que 2026 e 2027 poderão ser os anos mais quentes da história moderna — em grande parte, por causa desse “super El Niño” que está se configurando. Tudo isso, agravado pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas globais já em curso.

“A classificação do El Niño varia entre fraco, moderado, forte e muito forte”, explica o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cen­tro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Natu­rais (Cemaden), em São José dos Campos (SP). “Agora, além do aquecimento do Pacífico, temos como pano de fundo o aquecimento global. Ou seja, a soma dos dois processos. É por isso que surgem termos como ‘super El Niño’, embora eles não façam parte da classificação científica.” Num pla­neta mais aquecido, a atmosfera armazena mais umidade e, quando isso acontece, é como se estivessem colocando mais “gasolina no fogo”, compara Marengo.

Ninguém pode alegar que foi pego de surpresa. O El Niño é um fenômeno natural bem conhecido e bem moni­torado, que costuma se repetir em ciclos de dois a sete anos, e cujos efeitos são sentidos, principalmente, entre o último trimestre de um ano e o início do ano seguinte. Os eventos El Niño mais fortes já documentados pela ciência ocorreram em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016. Vários estudos alertam, porém, que esses eventos pode­rão se tornar cada vez mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis à medida que a temperatura média do planeta aumenta.

A Noaa estima 90% de chance de o El Niño de 2026 se tornar “muito forte” e 69% de chance de ser o mais intenso já registrado desde 1950

As consequências são sentidas em todo o mundo, com variações bruscas nos padrões meteorológicos e aumento na ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas e tempestades. No Brasil, a tendência é que chova menos no Norte e mais no Sul do país, com consequências potencialmente severas para ambientes naturais, agríco­las e urbanos. Em 1983, por exemplo, a cidade de Blume­nau (SC) permaneceu por cerca de um mês debaixo d’água e mais de 200 mil pessoas ficaram desabrigadas no estado. Em maio de 2024 (também um ano de El Niño intenso), quatro décadas depois, agora com a temperatura média do planeta ainda mais quente, o Rio Grande do Sul sofreu uma inundação de proporções avassaladoras, com mais de 5,5 milhões de pessoas afetadas, particularmente em Porto Alegre, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE).

Marengo argumenta que o El Niño nunca é o causador isolado do impacto, nem a mudança climática. Os even­tos extremos provocados pelo fenômeno constituem a ameaça ambiental, mas, para que ela se transforme em desastre, também é necessária uma alta vulnerabilidade das populações que vivem em áreas expostas — algo que depende de políticas públicas, e não do clima. O climato­logista lembra que, em setembro de 2023, quando o fenô­meno já estava se configurando e confirmado, ocorreram chuvas intensas no Vale do Taquari, região localizada no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 100 km da capi­tal gaúcha.

“A inundação em Porto Alegre foi em maio de 2024, quando o El Niño já estava terminando. O El Niño teve o seu auge em janeiro e depois diminuiu. Mas, então, o que aconteceu? A inundação foi consequência das chu­vas que caíram no Vale do Taquari, dos rios que levaram a água para o Guaíba e, então, as comportas não funcio­naram como o esperado. Não foram só as chuvas do El Niño”, argumenta o pesquisador.

O escritório brasileiro do World Resources Institute (WRI Brasil) publicou, em maio deste ano, uma análise multissetorial das causas do desastre de 2024 na capital gaúcha. Os autores do documento também afirmam que o alto volume de chuva foi apenas o início do problema: “A geomorfologia e o modelo de ocupação territorial do estado, com muitas cidades construídas às margens dos rios, foram determinantes para a magnitude das perdas e danos”. O relatório aponta que a resiliência só será pos­sível com ações coordenadas utilizando uma governança regional, com troca de informações e estratégias entre os diferentes níveis do governo; aumento da capacidade orçamentária dos municípios; investimento no combate à desinformação e medidas diferenciadas para os grupos mais vulneráveis, entre outras ações.

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Glauco Lara/Revista Pesquisa FAPESP

Adaptação das cidades

Neste ano, se os padrões dos últimos eventos se repetirem, espera-se que o El Niño de forte intensidade cause mais chuva no Sul e Sudeste, enquanto o Norte poderá sofrer com uma seca. Em outubro de 2024, o rio Negro, na bacia do Amazonas, a maior bacia hidrográfica do mundo, atin­giu os níveis mais baixos de sua história. Naquele ano, porém, além do El Niño, houve a influência do aqueci­mento do Atlântico Norte tropical. Esse segundo fenô­meno ainda não se confirmou para este ano, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agên­cia ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), o que poderá reduzir a gravidade dos impactos do El Niño.

O que está consolidado é a existência desse El Niño e do aquecimento global. A ciência e os órgãos de monito­ramento internacionais e nacionais divulgam periodica­mente boletins com previsões e novos dados. Há o con­senso científico de que eventos extremos — secas, ondas de calor e enchentes — serão cada vez mais frequentes. E fenômenos que já ocorrem naturalmente, como El Niño e La Niña, tendem a ser intensificados pelo aquecimento do planeta. Entra em cena, portanto, a adaptação: o rede­senho das estratégias para a vida na Terra de acordo com os impactos já sentidos.

Assim como são discutidas as estratégias para evitar o agravamento do aquecimento do planeta, com a redu­ção de emissões, também chegou a vez da pauta de redu­ção do impacto do que já está em curso. André Corrêa do Lago, presidente da 30ª Conferência das Nações Uni­das sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém no ano passado, chegou a divulgar uma carta, em outubro de 2025, para dizer: “A adaptação climática dei­xou de ser uma escolha que sucede à mitigação”.

O que é o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações

Financiado pela FAPESP e sediado no IPT, o centro reúne governo, universidades e empresas para desenvolver gêmeos digitais urbanos e ferramentas de apoio à prevenção e resposta a inundações em São Paulo

Iniciativas surgem, então, para mapear as regiões mais suscetíveis aos desastres. Em julho, o AdaptaBrasil, plata­forma do governo federal que reúne indicadores de risco de impactos das mudanças climáticas, lançou o Painel Cidades, com dados sobre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade para os 5.570 municípios do país. A cidade de São Paulo tem risco muito alto de exposição a inun­dações, enxurradas e alagamentos. O mesmo vale para o Rio de Janeiro e para outras cidades do Sul e Sudeste, como Porto Alegre.

Filipe Falcetta, pesquisador em hidrologia urbana do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), conhece o dilema das cidades concretadas. Engenheiro civil de for­mação, ele conta que São Paulo é uma cidade repleta de rios, mas que estão sob o concreto após um processo de “soterramento” histórico. As consequências aparecem agora, com as chuvas intensas do El Niño.

Ele lembra que, em 2022, por exemplo, o Beco do Batman, em Pinheiros (bairro da Zona Oeste de São Paulo), chegou a ganhar o apelido de Beco do Aquaman depois de uma enchente. “O Beco do Batman, por exemplo, é uma passagem do rio Verde, um afluente do rio Pinheiros que passa embaixo da rua Cardeal Arcoverde”, explica. E com­pleta: “Se a gente olhar para o tecido urbano, de um modo geral, ele dá as respostas para a adaptação”.

Falcetta e outros cientistas estão trabalhando jun­tos no Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) – Cidades Resilientes a Inundações, um projeto financiado pela FAPESP e fruto da parceria entre o IPT e a Secreta­ria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI), a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo (SDUH), a SP Águas, o Metrô-SP, a Companhia Paulista de Trens Metropolita­nos (CPTM), a Universidade de São Paulo (USP), a Univer­sidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade Federal do ABC (UFABC), o Insper, a Universidade Presbi­teriana Mackenzie, a Uninove e instituições internacionais.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

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