Amazônia tem aumento de queimadas após primeiro turno favorável a Flávio Bolsonaro, apoiador dos grileiros
Por Redação — Esquerda Diário

A Amazônia voltou a ser tomada pelas chamas frente ao fortalecimento da extrema direita na disputa presidencial de 2026. Na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, os focos de calor na Amazônia Legal praticamente dobraram, saltando de 1.854 para 3.695 registros, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Não é coincidência, mas sim uma expressão de que o avanço da extrema direita, com Flávio Bolsonaro a frente no primeiro turno, fortalece o objetivo do agronegócio, das mineradoras, de aprofundar as queimadas, à grilagem de terras e a perseguição dos povos indígenas.
A multiplicação das queimadas acendeu um alerta entre comunidades indígenas e ambientalistas, que temem que o fortalecimento político do bolsonarismo estimule uma nova ofensiva de grileiros, garimpeiros e invasores de terras protegidas.
No Pará, indígenas Kayapó manifestam preocupação com a possibilidade de que o avanço eleitoral da extrema direita seja um incentivo aos setores envolvidos na exploração ilegal da floresta como uma autorização para intensificar a destruição ambiental. Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, o desmatamento avançou, órgãos de fiscalização sofreram cortes e restrições na fiscalização, e territórios indígenas foram atacados pela expansão do garimpo ilegal e da fronteira agrícola.
Flávio Bolsonaro, que disputa a Presidência como herdeiro político desse projeto, defende mudanças profundas na política ambiental brasileira. Entre suas propostas estão a revisão das atribuições do Ibama, da Funai e do ICMBio, a flexibilização do licenciamento ambiental e a ampliação de atividades extrativas. O senador também declarou oposição a novas demarcações de terras indígenas.
Embora haja outros fatores envolvidos, como o avanço do El Niño, que provoca maiores secas na região, indígenas, ambientalistas e trabalhadores do Ibama afirmam que os indícios apontam que são incêndios criminosos causados por ação humana. O fogo é historicamente utilizado como instrumento de desmatamento e grilagem, permitindo a abertura de áreas para pastagens, especulação fundiária e expansão do agronegócio. Em regiões marcadas pela concentração de terras e pela impunidade, a destruição da floresta representa uma etapa da transformação de terras públicas em propriedades exploradas economicamente por interesses privados, um mecanismo histórico da acumulação de capital por parte da burguesia brasileira.
A situação no estado do Amazonas é especialmente grave, onde mais de 1,9 mil focos de calor foram identificados em outubro. A fumaça encobre cidades, provoca a suspensão de aulas, compromete a circulação de moradores e sobrecarrega os serviços públicos de saúde. Municípios como Autazes, Itacoatiara, Parintins e Careiro da Várzea enfrentam os efeitos dos incêndios, enquanto brigadistas tentam impedir que as chamas avancem sobre comunidades e territórios tradicionais.
Na Aldeia São Félix, em Autazes, o tuxaua Ilair Mura relata a dimensão da destruição para os povos indígenas, cuja relação com a floresta ultrapassa a sobrevivência econômica. “A terra pra gente é da onde a gente tira a caça, onde a gente faz o plantio, e também onde tá os nossos ancestrais enterrados, né? Ela tem um valor pra gente tanto material como também espiritual”, afirma em matéria do Fantástico.
A aproximação das chamas também espalha medo entre os moradores, atingidos pela fumaça e pela possibilidade de perder suas casas, plantações e locais sagrados. “A gente fica com medo porque a gente sabe que o pessoal já tá lá combatendo, né? Muita gente inalou fumaça. Tem gente aí que tá com crise de ansiedade, porque viu o fogo chegando muito próximo”, relata Ilair.
As autoridades ambientais apontam que a dimensão dos incêndios não pode ser explicada apenas pelas condições climáticas. O fenômeno El Niño, combinado ao aquecimento global e à estiagem, torna a vegetação mais vulnerável à propagação das chamas, mas não explica, por si só, o início de tantos focos de incêndio. Para o presidente do Ibama, Jair Schmitt, a ação humana está por trás de praticamente todos os incêndios florestais registrados no Amazonas. “Alguém risca o fósforo e ateou o fogo na floresta. As pessoas colocam fogo sem autorização para causar o desmatamento, para causar a degradação da floresta”, afirma.
Até mesmo órgãos da polícia reconhecem a existência de ações criminosas. Segundo o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Anésio Brito de Paiva, há relatos de pessoas que ameaçam voltar a incendiar áreas após a saída dos brigadistas.
Enquanto isso, os trabalhadores responsáveis pelo combate ao fogo enfrentam condições extremamente difíceis. Em Autazes, brigadistas precisam abrir caminhos dentro da mata para alcançar os focos mais intensos, transportando equipamentos e mangueiras em meio à vegetação e à fumaça. Aeronaves, helicópteros e drones auxiliam as operações, mas o acesso às áreas isoladas continua sendo um dos principais obstáculos.
A destruição ambiental também se transforma em uma emergência sanitária. Hospitais e unidades básicas de saúde registram aumento expressivo de atendimentos por tosse, falta de ar, irritação nos olhos e dificuldades respiratórias. Segundo o secretário de Saúde de Autazes, Rainer Figueiredo, a média de atendimentos respiratórios passou de um ou dois pacientes por dia para nove ou dez. Crianças pequenas e idosos estão entre os mais vulneráveis.
O comerciante Homero Pinheiro compara o esvaziamento das ruas aos períodos mais críticos da pandemia de Covid-19. “As pessoas não querem sair por causa da fumaça. Porque fica complicada a situação, falta respiração, arde o olho”, relata. A população do Amazonas foi uma das mais afetadas pela Covid-19 por conta da atuação do ex-presidente Jair Bolsonaro que deixou a população do estado, principalmente da capital, sem tubos de oxigênio em um dos momentos mais críticos da pandemia.
Dados divulgados pelo Inpe mostram que o desmatamento na Amazônia atingiu em 2026 um dos menores níveis da série histórica, com redução superior a 70% em relação a 2022. Entretanto, a queda do desmatamento não significa que a floresta esteja protegida das queimadas, da degradação ambiental ou da pressão exercida por atividades ilegais e do agronegócio.
O governo Lula apresenta a redução do desmatamento como resultado de suas políticas ambientais, mas a persistência dos incêndios criminosos demonstra os limites de uma política que alimenta o setor extrativista das mineradoras, do agronegócio, como mostra o fato do governo ter feito os maiores Planos Safra da história. Mesmo com o fortalecimento de operações de fiscalização, grileiros e redes de exploração ilegal continuam atuando em regiões onde a disputa pela terra permanece marcada pela violência e pela concentração fundiária.
A crise revela uma contradição estrutural do capitalismo brasileiro: a Amazônia é tratada por setores do grande capital como uma fronteira permanente de expansão econômica, na qual a floresta, os rios e os territórios indígenas são obstáculos à apropriação privada de recursos naturais. Nesse processo, o fogo se converte em um instrumento de expansão de fronteira agrícola, de acumulação de terras para especulação, para ação de mineradoras e garimpeiros, de petroleiras, enquanto os custos ambientais, sanitários e sociais recaem sobre os povos indígenas, comunidades tradicionais e trabalhadores da região.
O avanço eleitoral de Flávio Bolsonaro representa a volta de uma política negacionista e radicalmente extrativista que flexibiliza ao máximo a fiscalização ambiental e nega o direito ao território pelos povos indígenas. Mas a devastação em curso também demonstra que o combate à destruição da Amazônia não vai acontecer com moderação e conciliação com o agronegócio e outros agentes econômicos que mandam no país e vivem do extrativismo. É necessário enfrentar os interesses econômicos que sustentam a grilagem, o garimpo ilegal e a expansão predatória do agronegócio, responsabilizar os envolvidos nos incêndios criminosos e garantir proteção efetiva aos territórios e às comunidades ameaçadas.
A defesa da Amazônia exige mais do que discursos sobre sustentabilidade. Exige enfrentar a impunidade dos responsáveis pela devastação, garantir recursos para a fiscalização e para o combate aos incêndios, assegurar a demarcação e a proteção das terras indígenas e expropriar a terra dos grileiros, latifundiários e do agronegócio, realizando uma reforma agrária radical, conduzida pelas comunidades originárias e trabalhadores em perspectiva ecológica. Enquanto a floresta continuar subordinada aos interesses de quem lucra com sua destruição, as queimadas seguirão sendo a tônica do país, com maior ou menos grau de intensidade, independentemente dos resultados anunciados pelas urnas.
Fonte: Esquerda Diário