Livro transforma caminhada macabra em viagem pela história esquecida de Porto Alegre

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Por Fabiana Reinholz — Brasil de Fato

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Depois de anos pesquisando e contando histórias que atravessam o imaginário de Porto Alegre, o escritor, músico e pesquisador André Hernandez transforma a caminhada cultural criada por ele em livro. “Porto Alegre Mal Assombrada – A Caminhada Macabra”, com 157 páginas, será lançado nesta sexta-feira (23), a partir das 19h, no Café Mal Assombrado POA. A obra também terá uma noite de autógrafos em 2 de novembro, durante a Feira do Livro de Porto Alegre.

O livro reúne histórias de crimes, execuções públicas, cemitérios que desapareceram da paisagem urbana e casas associadas a acontecimentos misteriosos. A partir de pesquisas históricas, documentos, jornais antigos, relatos orais e experiências de campo, Hernandez aborda temas que ultrapassam o sobrenatural, como escravidão, violência, religiosidade, desigualdade, poder e preservação do patrimônio.

A publicação é uma extensão da caminhada cultural Porto Alegre Mal Assombrada, criada pelo autor e aberta ao público em 2019. Desde então, a atividade já levou milhares de pessoas pelas ruas do Centro Histórico, convidando o público a conhecer episódios pouco lembrados da história da capital gaúcha.

A estrutura do livro acompanha o roteiro original da caminhada, que vai do viaduto Otávio Rocha à Igreja das Dores. Cada capítulo corresponde a uma parada e apresenta personagens, acontecimentos e lendas relacionados aos locais visitados.

Entre os episódios abordados estão o chamado misterioso paralelo 30, relacionado à latitude que atravessa a cidade e à leitura astrológica de Emma de Mascheville; a história do líder positivista Júlio de Castilhos e o fim trágico de Honorina, esposa dele; e os antigos cemitérios da Matriz, do Alto da Praia e do Campo Santo, com destaque para o primeiro cemitério da cidade, hoje desaparecido sob a praça da Matriz.

A obra também revisita os crimes da rua do Arvoredo, associados a José Ramos e Catarina Paulsen e à conhecida lenda das linguiças feitas de carne humana; a história de Nilza Linck, apresentada no capítulo sobre a prisioneira do Castelo do Alto da Bronze; os enforcamentos públicos e a escravidão no Rio Grande do Sul, no Largo da Forca; e a lenda de Josino e a suposta maldição das torres da Igreja das Dores.

Para Hernandez, o interesse por essas narrativas está relacionado não apenas aos relatos de assombração, mas também às histórias humanas e aos acontecimentos que marcaram a cidade. “Eu gosto das histórias de assombração, mas meu interesse vai além de saber se existe um fantasma em determinado lugar. Quero saber quem viveu ali, o que aconteceu e por que aquela história continua sendo contada”, afirma.

Ao reunir essas narrativas, o pesquisador propõe um olhar sobre aspectos da história de Porto Alegre que nem sempre recebem o mesmo reconhecimento que personagens e acontecimentos tradicionalmente celebrados. “Essas histórias mostram que a história de Porto Alegre vai muito além dos personagens e acontecimentos que costumamos celebrar. A cidade também foi construída sobre a escravidão, a violência e o sofrimento de muita gente. E acho importante olhar para isso sem romantizar o passado”, afirma.

O autor também chama a atenção para a maneira como determinadas histórias são preservadas enquanto outras acabam esquecidas. “Uma lenda pode não ser comprovada, mas o lugar e os acontecimentos que deram origem a ela podem ser investigados. É aí que a pesquisa fica interessante. O sobrenatural desperta a curiosidade, e essa curiosidade pode levar as pessoas a conhecer uma parte da história que talvez nunca procurassem por conta própria”, explica.

Hernandez ressalta que a valorização dos prédios históricos não deve depender da existência de relatos sobrenaturais. “Acredito que essas histórias ajudam a despertar o interesse pelo patrimônio. Mas não podemos valorizar um prédio antigo apenas porque dizem que ele é mal-assombrado. Existe uma história ali que merece ser conhecida e preservada, independentemente de qualquer relato sobrenatural”, defende.

Escritor, músico, poeta, performer e pesquisador, Hernandez é o criador da Porto Alegre Mal Assombrada e um dos idealizadores do Café Mal Assombrado POA, localizado na antiga rua do Arvoredo. Segundo ele, o livro surgiu da vontade de ampliar a experiência proporcionada pela caminhada e compartilhar o resultado de anos de pesquisa com pessoas que não participam presencialmente da atividade.

“A caminhada sempre foi uma forma de levar as pessoas a viajar no tempo comigo. O livro é uma extensão disso, mas com mais espaço para aprofundar as histórias e apresentar minhas próprias reflexões. São muitos anos pesquisando Porto Alegre, visitando lugares e tentando entender o que aconteceu aqui. Eu queria reunir parte desse trabalho em algo que pudesse chegar às pessoas mesmo quando elas não estivessem caminhando comigo”, conta.

O autor explica que a publicação também busca provocar reflexões sobre a cidade, a morte e a memória. “Eu escrevi o livro que eu gostaria de ler. Um livro que tivesse versões cruzadas. Escrevi esse livro porque Porto Alegre faz parte da minha vida e porque há muitos anos me dedico a pesquisar histórias que me despertam curiosidade desde a infância. Quero compartilhar isso com as pessoas, mas também provocar algumas reflexões”, afirma.

Hernandez conta que procura transportar para as páginas a experiência de imaginar o passado a partir dos espaços urbanos. “Quando conduzo a caminhada, peço que as pessoas fechem os olhos e imaginem um túnel que as leva ao passado. No livro, tento proporcionar essa mesma experiência. Quero que o leitor consiga olhar para uma rua de Porto Alegre e imaginar tudo o que já aconteceu naquele lugar. Não é preciso acreditar em fantasmas para ler o livro. Basta ter curiosidade pela história da nossa cidade”, diz.

A Porto Alegre Mal Assombrada nasceu como uma extensão artística da banda Lítera e foi aberta ao público em 2019. A procura pela primeira edição surpreendeu os organizadores: a divulgação de 30 vagas recebeu mais de 1,8 mil inscrições em apenas um dia.

Conduzida por Hernandez, a experiência tem duração aproximada de três horas, com limite de 40 participantes por edição. O percurso passa por locais do Centro Histórico relacionados a crimes, lendas e episódios pouco conhecidos da história da Capital e termina em frente à Igreja das Dores.

Com a publicação, o pesquisador amplia o alcance desse trabalho e reúne em livro parte das narrativas que vem investigando ao longo dos anos, propondo uma viagem pela memória de Porto Alegre e pelas histórias que permanecem à margem das versões mais conhecidas do passado.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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