Altman: “Precisamos acabar com o pessimismo. A luta é difícil, mas não é impossível”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O jornalista Breno Altman defendeu que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reaja imediatamente ao resultado do primeiro turno e abandone tanto o otimismo que marcou parte da reta final da disputa quanto o pessimismo surgido depois de Flávio Bolsonaro terminar a votação à frente do petista.
Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Altman afirmou que o resultado tornou a disputa mais difícil, mas não definiu antecipadamente o segundo turno. Para ele, a tarefa imediata da campanha é recuperar a confiança de sua base, apresentar propostas para um eventual quarto mandato e ampliar a mobilização nas regiões em que Lula ficou abaixo do desempenho necessário.
“É uma batalha dificílima, mas é uma batalha que pode ser travada e pode ser vencida. Não é uma batalha impossível. O jogo não está jogado”, afirmou.
Altman reconheceu que o impacto do primeiro turno sobre os apoiadores de Lula decorreu também da expectativa criada nos dias anteriores à eleição. Embora pesquisas apontassem uma disputa apertada, parte do campo progressista chegou à votação esperando uma vitória mais confortável — e, em alguns setores, até mesmo uma definição no primeiro turno.
O jornalista afirmou que já vinha alertando para a dificuldade da eleição. Agora, porém, considera que o risco passou a ser o movimento inverso: trocar o excesso de confiança por uma percepção antecipada de derrota.
“Da mesma maneira que eu vim aqui várias e várias vezes me contrapor ao otimismo exagerado, dessa vez eu vou me contrapor ao pessimismo rendido diante do processo eleitoral. Não cabe isso”, disse.
Para Altman, os dois comportamentos produzem efeitos semelhantes sobre uma campanha. O otimismo excessivo desmobiliza porque cria a impressão de que a vitória está garantida; o pessimismo, por sua vez, pode levar à desistência quando ainda existem condições para disputar votos.
“O pessimismo desvairado também não funciona, porque, se isso predomina, é o mesmo que entregar o resultado nas mãos da extrema direita”, afirmou.
A recuperação, segundo o jornalista, passa inicialmente por uma mudança na própria campanha. Altman considera que Lula deve apresentar uma agenda de futuro e abandonar a estratégia de depender principalmente da divulgação das realizações do atual governo.
Na sua avaliação, um dos problemas do primeiro turno foi a aposta de que uma comunicação mais eficiente dos resultados do terceiro mandato seria suficiente para recuperar a popularidade do presidente e, consequentemente, ampliar sua votação.
“Essa estratégia não funcionou”, resumiu. Para Altman, parte do eleitorado não comparou apenas Lula com Jair Bolsonaro, mas o atual governo com os dois primeiros mandatos do petista e com as expectativas criadas na eleição de 2022.
O jornalista sustenta que Lula deve agora apresentar compromissos capazes de sinalizar mudanças em um eventual quarto mandato. Entre eles, mencionou o fim da escala de trabalho 6×1.
“Isso começa exigindo publicamente que o Senado aprove o fim da escala 6 por 1. O presidente Lula tem que aproveitar sua campanha para servir de púlpito, de pressão sobre o Senado”, afirmou.
Altman defendeu uma estratégia semelhante à campanha “Muda Mais”, utilizada por Dilma Rousseff em 2014. Em sua avaliação, Lula deveria apresentar algumas propostas de impacto direto na vida da população para demonstrar que um novo mandato não significaria simplesmente a continuidade do atual governo.
“É apresentar duas, três, quatro propostas que representem para as pessoas um cenário de futuro”, afirmou.
A recuperação eleitoral também exigiria uma estratégia territorial. Altman identificou o Nordeste como a principal fortaleza eleitoral de Lula e defendeu ampliar a vantagem obtida na região. Ao mesmo tempo, apontou São Paulo e Minas Gerais como áreas decisivas para reduzir a diferença em relação a Flávio Bolsonaro.
“O que derrotou o presidente Lula foi um desempenho ruim em São Paulo, em Minas Gerais”, afirmou. Segundo ele, parte desse resultado está relacionada a problemas estruturais do governo, entre eles a dificuldade de produzir uma percepção de aceleração do desenvolvimento econômico, expansão dos investimentos e melhora das perspectivas de emprego e renda.
Altman também rejeitou explicações sobre fraude ou manipulação eleitoral sem evidências. Para ele, a esquerda perderia tempo político caso concentrasse sua reação em teorias sem comprovação em vez de investigar por que Lula recebeu menos votos e como recuperá-los.
“A razão pela qual o presidente Lula ficou atrás de Flávio Bolsonaro é porque ele teve menos votos”, afirmou. “Agora tem que discutir como recuperar esses votos.”
O jornalista rejeitou ainda a responsabilização dos próprios eleitores pelo resultado.
“Culpar o povo não está na minha equação”, disse. Para Altman, quando uma parcela da população demonstra insatisfação com as forças de esquerda, cabe a essas forças investigar suas próprias falhas e modificar a estratégia.
Na reta final da entrevista, Altman voltou à necessidade de enfrentar o abatimento provocado pelo primeiro turno. Ele argumentou que a esquerda brasileira já atravessou situações políticas mais adversas e que a diferença atual pode ser revertida por meio de campanha, mobilização e disputa direta pelo eleitorado.
“O que nós precisamos extirpar nesse momento é esse pessimismo descabido. A ideia da desistência tem que ser afastada. É uma luta difícil, dificílima, não é impossível”, afirmou.
Para Altman, a disputa deve recomeçar imediatamente.
“Não existe o caminho da rendição. O caminho da rendição é aceitar com naturalidade um cenário muito pior que o atual. Só existe o caminho da luta”, concluiu.
Fonte: Brasil 247