Além dos atletas: a rede de profissionais que mantém o esporte em movimento

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Por NINJA Esporte ClubeMídia NINJA

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Professores, organizadores, costureiras e jornalistas: o esporte também vive de quem nunca sobe ao pódio

Por Renan Paiva

Antes do reconhecimento e das premiações, alguém ensinou o primeiro movimento. Alguém organizou a primeira competição, ainda que fosse só um campeonato de bairro. Alguém costurou o primeiro uniforme, cuidou da primeira lesão, escreveu a primeira linha sobre um nome que ninguém conhecia ainda. O esporte brasileiro é sustentado por essa gente — professores, organizadores de evento, fabricantes, profissionais de saúde, jornalistas — que vive do ofício sem nunca disputar um pódio.

A modalidade muda, a lógica se repete: antes do treino, o professor; antes da competição, quem organiza; antes do equipamento, quem fabrica; antes do reconhecimento, quem conta a história.

Antes de qualquer resultado, existe uma aula. Em abril, um projeto de basquete viabilizado pelo ex-jogador Oscar Schmidt venceu um torneio escolar nacional, e a reportagem da Agência Brasil trouxe um detalhe que resume o papel do professor nesse tipo de iniciativa: o esporte não formou só atletas, formou gente que hoje trabalha em educação física, medicina e outras profissões, e que segue em contato com quem os treinou.

Pesquisas acadêmicas sobre projetos esportivos em favelas do Rio de Janeiro descrevem uma rotina parecida: professores de educação física que, além de ensinar técnica, criam vínculo, acompanham dificuldades familiares e funcionam como uma das poucas referências adultas estáveis na vida de crianças e adolescentes. É trabalho de formação, não só de treino — e raramente aparece como linha de currículo.

Nenhuma prova acontece sozinha. Levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo) mostra que o Brasil saltou de 2.827 para 5.241 corridas oficiais entre 2024 e 2025 — crescimento de 85% em um único ano, o que dá uma média de mais de 100 competições por fim de semana no país inteiro.

Atrás de cada uma dessas provas há uma equipe cuidando de inscrição, percurso, hidratação, segurança, kit, cronometragem e autorização da prefeitura. É gente que, em geral, o corredor nunca vê — a não ser quando alguma coisa dá errado.

Uniforme, bola, chuteira, tatame: tudo isso é indústria antes de ser equipamento. Um exemplo do tamanho que esse mercado pode alcançar é a Volt Sport, fabricante catarinense fundada em 2021, que hoje veste 12 clubes das três divisões do futebol brasileiro, opera fábrica própria em Joinville, emprega cerca de 500 pessoas e produz mais de 1 milhão de camisas por ano.

Nem toda a cadeia é assim estruturada. Em projetos sociais com pouco financiamento, consertar uma rede rasgada ou adaptar um equipamento usado costuma ser a única forma de manter o treino de pé — trabalho tão técnico quanto o da fábrica grande, só que invisível.

Fisioterapeutas, médicos, nutricionistas e psicólogos do esporte não atendem só quem está em busca de medalha. Atuam também na reabilitação de amadores, na prevenção de lesão em criança e na saúde mental de quem vive a pressão da competição sem o salário que a justifique.

A desigualdade de acesso a esse cuidado é uma extensão da desigualdade de acesso ao próprio esporte: clubes estruturados mantêm equipe multidisciplinar; projetos comunitários funcionam, com frequência, com um único profissional dividido entre dezenas de crianças.

E há quem viva de registrar tudo isso. A própria cobertura colaborativa da Copa do Mundo de 2026 pela NINJA Esporte Clube é um exemplo do tamanho dessa engrenagem: quase 300 colaboradores, entre jornalistas, fotógrafos, editores e revisores, produziram 273 matérias especiais e mais de 600 publicações, alcançando mais de 1 milhão de pessoas — cobrindo inclusive modalidades que a grande mídia esportiva historicamente deixa de fora.

Essa escolha editorial importa. Pesquisas sobre cobertura esportiva brasileira apontam um padrão antigo: o futebol masculino concentra tempo, espaço e verba de produção, enquanto esportes olímpicos, paralímpicos, femininos e de base disputam as sobras — mesmo movimentando atletas, público e, como mostram os números acima, uma cadeia inteira de trabalhadores.

Depois de conhecer parte dessa gente, vale a pergunta: quanto vale, afinal, esse trabalho somado? Em 2025, o Instituto Sou do Esporte lançou, com a consultoria EY, o primeiro Relatório Nacional da Economia do Esporte do país. Usando 2023 como ano-base, o estudo calcula que o setor movimentou R$ 183,4 bilhões — 1,69% do PIB brasileiro, mais que o setor cultural (1,55%) no mesmo período.

O número mais relevante para quem trabalha fora das quadras é outro: 3,3 milhões de empregos diretos e indiretos, considerando só vínculos CLT — fora o MEI e a rede informal de ambulantes e prestadores autônomos que o próprio instituto reconhece não conseguir medir por completo. E os setores que mais empregam não são o alto rendimento: comércio de artigos esportivos (52%), atividades recreativas (25%), indústria (13%), mídia e publicidade (7%).

Há ainda um efeito multiplicador: cada R$ 1 investido pela iniciativa privada gera R$ 23,36 na cadeia produtiva do esporte; no setor público, o retorno é de R$ 12,83.

É aqui que o número revela sua contradição. Um setor de R$ 183 bilhões e 3,3 milhões de empregos deveria significar estabilidade para quem sustenta essa cadeia. Não significa. A maioria dessas pessoas segue sem vínculo fixo: professor que dá aula em três instituições diferentes para fechar a renda, organizador que vive de temporada de eventos e patrocínio, jornalista que produz para mais de um veículo, fabricante que consegue manter treino de pé só improvisando.

A desigualdade também é territorial. Clubes estruturados mantêm equipe multidisciplinar; projetos comunitários funcionam, com frequência, com um único professor dividido entre dezenas de crianças. Um lado da cadeia tem contrato, plano de saúde e equipamento novo. O outro tem paixão — e a paixão não substitui remuneração adequada, direitos trabalhistas nem política pública.

O relatório da Sou do Esporte provou que esse trabalho pode ser medido em bilhões de reais. Falta medir o que ainda não cabe em planilha: se esse dinheiro está chegando, de fato, a quem segura a ponta de baixo dessa cadeia — o professor do projeto social, a costureira da confecção pequena, o organizador que ainda não vive só disso. Antes de existir uma medalha, existe muita gente. A pergunta que sobra é se essa gente também está sendo cuidada.

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Fonte: Mídia NINJA

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