África pode transformar corrida por minerais críticos em nova etapa de industrialização

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Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 – A corrida mundial por minerais críticos abre uma oportunidade histórica para que a África transforme sua enorme riqueza mineral em industrialização, desenvolvimento tecnológico e geração de empregos, em vez de permanecer apenas como fornecedora de matérias-primas para as grandes economias. A avaliação é da pesquisadora Shambhavi Anand, Research Associate do Vivekananda International Foundation (VIF), um dos principais centros de pensamento da Índia.

Segundo Anand, a crescente demanda por tecnologias de energia limpa, inteligência artificial e manufatura avançada colocou minerais como cobalto, cobre, lítio e terras raras no centro das disputas econômicas e estratégicas internacionais. Nesse cenário, poucos continentes possuem uma posição tão relevante quanto a África.

O continente detém mais de um quarto das reservas mundiais de minerais considerados críticos, além de importantes depósitos de cobre, manganês, bauxita e lítio. A África também concentra mais de 60% das reservas globais de metais do grupo da platina, tântalo, cobalto e cromo.

O desafio de agregar valor

A grande questão, porém, é transformar essa abundância mineral em desenvolvimento econômico. Historicamente, boa parte dos recursos africanos é extraída e exportada com baixo grau de processamento, enquanto as etapas de maior valor agregado — refino, transformação industrial e fabricação de componentes e produtos — são realizadas em outros países.

Para Anand, o atual ciclo de expansão da demanda oferece a possibilidade de mudar esse modelo. Países africanos podem ampliar sua participação nas etapas posteriores das cadeias produtivas, desenvolvendo capacidades de processamento, refino, reciclagem e manufatura.

Isso permitiria não apenas aumentar o valor econômico capturado no continente, mas também criar empregos qualificados, estimular a formação de mão de obra técnica e gerar demanda por infraestrutura e novas tecnologias.

Um exemplo apresentado pela pesquisadora está na República Democrática do Congo (RDC), país central para o fornecimento mundial de cobalto. Uma instalação para produção de materiais precursores de células de bateria poderia exigir investimento de aproximadamente US$ 39 milhões, valor cerca de três vezes inferior ao necessário para uma estrutura semelhante nos Estados Unidos. Além da vantagem econômica, a produção africana poderia apresentar benefícios ambientais.

O exemplo demonstra que a África tem condições de disputar também as etapas industriais da cadeia de minerais críticos, em vez de limitar sua participação à extração.

Infraestrutura será decisiva

Para que essa transformação ocorra, entretanto, será necessário enfrentar um dos principais gargalos estruturais do continente: a infraestrutura.

Estradas, ferrovias, portos e fornecimento confiável de energia são fundamentais para viabilizar cadeias industriais competitivas. A cooperação regional também terá papel decisivo, permitindo que diferentes países compartilhem infraestrutura e construam cadeias de suprimentos transfronteiriças.

A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) possui, nesse sentido, condições particularmente favoráveis. A combinação entre recursos minerais e elevado potencial de geração solar e hidrelétrica pode permitir que atividades de refino e manufatura sejam abastecidas por energia renovável.

Essa integração entre minerais críticos e energia limpa poderia criar cadeias produtivas mais sustentáveis e aumentar a competitividade internacional da indústria africana.

Desenvolvimento precisa chegar às comunidades

A transformação da riqueza mineral em desenvolvimento também possui uma dimensão social. Para Anand, as comunidades localizadas nas regiões produtoras precisam perceber benefícios concretos decorrentes da exploração dos recursos.

Isso significa geração de empregos, qualificação profissional, proteção ambiental e maior transparência na distribuição das receitas obtidas com a mineração.

Sem benefícios tangíveis para as populações locais, projetos minerais de grande escala podem enfrentar resistência social e dificuldades para estabelecer modelos sustentáveis de longo prazo.

Índia e África podem construir novas cadeias produtivas

A pesquisadora do VIF também destaca o potencial de uma parceria mais profunda entre Índia e África nesse processo.

A Índia possui uma demanda crescente por minerais críticos em razão de sua própria transição energética, de sua expansão industrial e do desenvolvimento de setores tecnológicos. A África, por sua vez, possui recursos minerais abundantes e busca ampliar sua capacidade de processamento e industrialização.

Essa complementaridade abre espaço para cooperação em exploração mineral, tecnologia, infraestrutura, capacitação profissional e desenvolvimento de cadeias regionais de valor.

O BRICS pode oferecer uma plataforma adicional para essa aproximação, articulando investimentos, financiamento e transferência tecnológica entre economias emergentes. Uma cooperação Índia-África mais estruturada também poderia contribuir para diversificar e aumentar a resiliência das cadeias globais de fornecimento de minerais críticos.

Uma oportunidade de transformação industrial

Na avaliação de Anand, a atual corrida mundial por minerais críticos não precisa reproduzir o antigo modelo em que países africanos exportam recursos naturais e importam produtos industrializados de maior valor.

A combinação de reservas minerais, energia renovável, integração regional e novos parceiros internacionais cria uma oportunidade para que o continente avance para as etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas.

Mais do que uma disputa pelo acesso ao cobalto, ao cobre, ao lítio ou às terras raras, portanto, está em jogo a posição que a África ocupará na economia tecnológica do século XXI.

O desafio é transformar sua condição de potência mineral em capacidade industrial e tecnológica própria — fazendo com que a riqueza existente sob o solo africano produza também empregos, conhecimento, infraestrutura e desenvolvimento sustentável sobre ele.

Fonte: Brasil 247

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