Ação entre irmãos: queda de sigilo no Caso Master reforça vínculo entre Castro e Vorcaro
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Os documentos também mostram que André Mendonça negou um pedido da PF para deflagrar novas ações contra o ex-governador do Rio
A publicação pelo Supremo Tribunal Federal de arquivos sobre as investigações contra o Banco Master reforça suspeitas levantadas pela Polícia Federal sobre o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), apresentado como um aliado ativo de Daniel Vorcaro em uma importante dimensão da estratégia do ex-banqueiro para alavancar a fraude: o aliciamento de fundos de previdência ligados a servidores públicos estaduais.
Nesse terreno, o Master teve no Rioprevidência seu parceiro mais generoso. O instituto, responsável por gerir aposentadorias e pensões de funcionários do governo fluminense, realizou entre novembro de 2023 e julho de 2024 nove aportes no banco de Vorcaro, em um total que se aproxima de 3,7 bilhões de reais. Os “investimentos”, realizados na contramão da política de investimentos definida – e até então praticada – pela direção do Rioprevidência, aconteceram com a anuência direta de Castro e, como os indícios já sugeriam, sob a batuta de diretores escolhidos exatamente para cumprir essa missão.
Um relatório da PF mostra que entre julho e outubro de 2023, Castro nomeou Deivis Marcon Antunes como diretor-presidente do Rioprevidência. Antunes, na sequência, definiu Euchério Rodrigues e Pedro Guerra Leal como diretor e gerente de Investimentos, respectivamente. No mesmo dia da nomeação, orientado pela própria direção do Rioprevidência, o Master solicitou credenciamento para se tornar apto a receber os aportes do fundo, sendo prontamente atendido.
Segundo a PF, os três “foram nomeados com o propósito de praticar o crime de gestão fraudulenta, pois ocuparam os três cargos que tinham poder de decisão sobre o credenciamento do Master, a análise e a definição dos respectivos investimentos”.
Os dados mostram também que o ex-governador bolsonarista teve pelo menos oito encontros com Vorcaro em um ano, vários deles próximos às datas dos aportes no Master pelo Rioprevidência. Três dessas agendas aconteceram em Nova York, inclusive nas famosas degustações de charutos e bebidas, parte do modus operandi do então banqueiro.
Em duas oportunidades, jantares foram oferecidos a Castro no Nusr-Et Steakhouse, restaurante famoso por preparar pratos com filés folhados a ouro. Outro mimo custou a Vorcaro um milhão de reais e, segundo a PF, aconteceu na véspera de dois aportes – de 80 e de 70 milhões de reais – realizados no Master pelo fundo de pensão do governo do Rio de Janeiro.
Diálogos de Whatsapp mostram o assédio de Vorcaro sobre o ex-governador e sugerem uma relação de proximidade que incluiu convites para uma feijoada: “Se puder ir com a esposa”, disse na ocasião o então banqueiro, que se referia a Castro como “meu irmão”. O ex-governador pediu para confirmar o endereço: “Fala, irmão! Vou sim. Te dou um abraço lá”. A troca de mensagens sugere que em março de 2024 houve um encontro fora da agenda oficial entre Castro e Vorcaro no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador. Em uma mensagem antes do encontro, o então dono do Master disse querer conversar sobre “quanto o fundo do Rio tem conosco”.
O sigilo retirado revela ainda que o ministro do STF André Mendonça negou, em maio deste ano, um pedido da PF — corroborado pela Procuradoria-Geral da República — para deflagrar mais uma leva de ações de busca e apreensão contra Castro e pessoas próximas, no âmbito das investigações sobre o Master. Na ocasião, Mendonça alegou que não havia elementos a justificarem “nova medida invasiva”, uma vez que o ex-governador já havia sido alvo de uma operação.
Os documentos agora divulgados por determinação do presidente do STF, Edson Fachin, revelam também contatos entre Mendonça e Castro que sugerem ir além da relação institucional. Em um deles, o então governador disse: “Amigo, preciso falar sobre o caso Cabral”. Mendonça respondeu que identificaria o processo e depois retornaria. Uma semana depois desse diálogo, o ministro votou pela soltura do ex-governador Sérgio Cabral.
Maurício Thuswohl
Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro
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Fonte: Carta Capital