A “tempestade perfeita” de Tereza Cristina: muitos argumentos, nenhuma autocrítica

0

Por Marcos PędłowskiBlog do Pedlowski

Senadora aponta juros, crédito, clima e endividamento, mas passa ao largo das vulnerabilidades produzidas por um modelo dependente de desmatamento, agrotóxicos, água e financeirização

A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina aponta problemas reais ao falar em uma “ tempestade perfeita ” atingindo o chamado agronegócio brasileiro. Juros elevados, retração do crédito, endividamento, oscilação dos preços das commodities e eventos climáticos extremos formam uma combinação que efetivamente está colocando muitos produtores sob forte pressão financeira.

O problema está menos no que Tereza Cristina diz do que naquilo que omite. Em sua análise, a crise aparece essencialmente como resultado de forças externas que se abateram sobre o setor.  Mas Tereza Cristina  deixa de fora a pergunta mais incômoda: quanto da atual vulnerabilidade foi produzido pelo próprio modelo de agricultura que as principais organizações do agronegócio defenderam e ajudaram a consolidar?

Há primeiro uma contradição ambiental. Secas, enchentes e irregularidade das chuvas são apresentadas como adversidades climáticas, mas sem relacioná-las à expansão de um modelo agroexportador que, em importantes regiões do país, continua associado ao desmatamento, ao uso intensivo de agrotóxicos e à crescente pressão sobre os recursos hídricos. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico , a agricultura irrigada respondeu, em 2024, por 50,3% da retirada de água destinada aos usos consuntivos no Brasil. Ou seja, a crise hídrica não pode ser tratada simplesmente como uma ameaça que vem de fora da porteira, mas que é criada pela lógica que predomina dentro dela.

Além disso, existe ainda outra questão pouco mencionada: a crescente financeirização da agricultura. A expansão das Cédulas de Produto Rural (CPRs), fundos e outros instrumentos aproximou cada vez mais a produção agrícola dos mercados financeiros. Dados do Ministério da Agricultura mostram que as CPRs movimentaram cerca de R$ 205 bilhões na safra 2025/26. Isso amplia as fontes de financiamento, mas também submete a produção a uma combinação perigosa de juros, câmbio, preços internacionais e compromissos financeiros assumidos antes mesmo da colheita.  Quando esse endividamento se combina com monoculturas dependentes de fertilizantes, agrotóxicos, sementes, máquinas e combustíveis, qualquer choque climático ou econômico pode produzir efeitos em cadeia. A elevada produtividade física não significa, portanto, baixa vulnerabilidade econômica.

É justamente aí que a metáfora da “tempestade perfeita” se torna conveniente. Ela descreve a simultaneidade dos problemas, mas transforma em fatalidade aquilo que também resulta de escolhas econômicas, tecnológicas e ambientais acumuladas durante décadas.

Entretanto, a discussão não deveria se limitar, portanto, a quanto crédito será necessário para socorrer os produtores endividados.  Para ser coerente, a discussão deveria incluir uma pergunta muito mais importante: até que ponto um modelo assentado na especialização agroexportadora, na pressão crescente sobre os recursos naturais e na financeirização da produção está aumentando sua própria exposição às crises que agora denuncia?

Tereza Cristina identifica corretamente a tempestade.  Mas falta a ela reconhecer que parte da vulnerabilidade do telhado foi construída pelo próprio modelo que historicamente representa.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


Visualizar Perfil Completo →

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Fonte: Blog do Pedlowski

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *