‘A redemocratização passou uma borracha nos crimes militares e pagamos o preço hoje’, adverte Paulo Moreira Leite

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Em uma reflexão aprofundada sobre a memória histórica, as lutas de resistência e os impasses da democracia brasileira, o experiente jornalista e escritor Paulo Moreira Leite (PML) foi o entrevistado de Alex Solnik no programa Cessar-Fogo, transmitido pela TV 247. Co-fundador do canal e com mais de cinco décadas dedicadas à grande reportagem, Paulo revisitou os perfis e os bastidores de seu livro A Mulher que Era o General da Casa (lançado em 2012), obra que reúne nove perfis de personagens centrais do enfrentamento à ditadura civil-militar de 1964 e da transição para a democracia.

Durante a conversa, Solnik resgatou a relevância perene do registro em livro para as novas gerações: “Jornais e revistas diários se perdem no tempo, mas o livro permanece como documento histórico”, destacou o apresentador, conduzindo o debate pelos bastidores das reportagens com figuras emblemáticas como Therezinha Zerbini, Jaime Wright, Florestan Fernandes, José Mindlin e o embaixador norte-americano Lincoln Gordon, artífice do golpe de 1964.

Therezinha Zerbini: a coragem civil no front da anistia

O título do livro nasceu da admiração de Paulo Moreira Leite por Therezinha Zerbini, líder incontornável do Movimento Feminino pela Anistia. Esposa do general Euryale de Jesus Zerbini — um dos quatro generais legalistas que se recusaram a aderir ao golpe militar e acabaram cassados e presos —, Therezinha arregaçou as mangas e tornou-se a linha de frente do combate público pelo retorno dos exilados e pela libertação dos presos políticos.

“Ela era uma senhora com todas as prerrogativas de conforto e refinamento de uma classe social abastada. Em vez de se acomodar à proteção de sua condição, foi para a rua com a mesma disposição de luta de operários e estudantes”, relembrou PML. “Ela era um ‘general’ na casa daqueles que lutavam pela democracia. Sabia usar a proteção que o sobrenome lhe dava para falar o que outros não podiam sem serem brutalizados. Compreendia perfeitamente que as grandes conquistas históricas não nascem em conchavos de gabinete, mas da mobilização popular nas ruas.”

Intelectuais, humanistas e o peso da classe trabalhadora

PML e Solnik rememoraram a pluralidade das forças que formaram a frente antiditatorial, com destaque para a liderança moral do sociólogo Florestan Fernandes e a postura de empresários conscientes como José Mindlin (fundador da Metal Leve e guardião de uma das maiores bibliotecas do país).

“Florestan Fernandes era o radical no sentido estrito da palavra: ia à raiz das questões. Enxergava o racismo e o preconceito como engrenagens fundamentais da dominação de classes no Brasil e nunca abriu mão da teoria marxista em períodos de revisionismo”, frisou PML. Já sobre Mindlin, o jornalista destacou a raridade de sua postura na elite nacional: “Fazia parte de um punhado de empresários que ousaram pensar um país moderno com distribuição de renda, salários dignos e respeito à cultura, algo que a ditadura jamais poderia entregar.”

Solnik também resgatou o papel ecumênico e corajoso de figuras religiosas como Dom Paulo Evaristo Arns, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel — imortalizados no ato ecumênico na Catedral da Sé em 1975 após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi. Para Moreira Leite, se os intelectuais e religiosos deram legitimidade moral, o golpe de misericórdia no regime coube à classe trabalhadora organizada:

“O movimento tornou-se invencível quando os trabalhadores entraram em cena no final da década de 1970. As greves operárias, lideradas por Lula, mostraram que a resistência nascia onde a ditadura menos esperava. Aquilo mudou a correlação de forças do país.”

Lincoln Gordon e a engrenagem do intervencionismo externo

Outro capítulo central resgatado na entrevista foi o encontro de Paulo Moreira Leite, quando correspondente internacional em Washington, com o diplomata norte-americano Lincoln Gordon. O embaixador desempenhou papel decisivo na conspiração contra o presidente João Goulart, chegando a enviar despachos delirantes que pintavam Jango como “um novo Fidel Castro”.

“Gordon portava-se como tantos outros diplomatas e burocratas do poder: dizia-se apenas um ‘cumpridor de ordens’, alguém que executava diretrizes de Estado”, relatou Paulo. “Era fácil para eles alegar mais tarde que não apoiavam a violência da ditadura, principalmente quando o regime já estava isolado pelo povo e condenado pela história. Mas o suporte logístico e político que viabilizou o golpe de 64 está amplamente documentado.”

O custo histórico da transição pelo alto e a conciliação permanente

Ao analisar por que o Brasil não conseguiu responsabilizar criminalmente os torturadores e algozes da ditadura — mantendo condecorações intocadas e estruturas repressivas inalteradas nas forças de segurança —, Paulo Moreira Leite foi cirúrgico ao apontar o caráter incompleto da redemocratização:

“A redemocratização passou uma borracha nos crimes militares. Houve um pacto, formal ou tácito, que preservou as Forças Armadas de prestar contas perante a Justiça. A abertura política foi conduzida pelo alto pelas elites políticas da época, que temiam um confronto direto e não tiveram a disposição — ou a força — de apoiar uma ruptura popular que passasse a história a limpo.”

Segundo o jornalista, as lacunas deixadas por essa transição pactuada cobraram um preço altíssimo para as instituições republicanas, permitindo que a extrema-direita voltasse a disputar hegemonia abertamente no cenário contemporâneo:

“O que nós fizemos foi um rascunho de uma nova história. Não passamos o passado a limpo. E quando a política é pautada pela conciliação permanente, você se recusa a tocar nas feridas históricas para não desagradar ninguém. Só que o preço dessa escolha é o recuo constante e o apagamento da memória coletiva. E quando se apaga a memória, o passado volta para nos assombrar”, concluiu.

Assista à íntegra da conversa entre Alex Solnik e Paulo Moreira Leite no programa Cessar-Fogo, da TV 247:

Fonte: Brasil 247

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