A proibição das bets e a volta da grande política

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Por Leonardo Miazzo — Carta Capital

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Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Além dos efeitos sobre os eleitores, essa mudança favorece o lado da disputa comprometido com a democracia

Depois de semanas nas quais a eleição seguia o tempo dos inquéritos policiais e processos judiciais, a grande política assume outra vez o centro da cena. O debate em torno das bets trata de questões relevantes, como os limites da liberdade individual para prejudicar a si próprio ou as contribuições de setores da economia para o desenvolvimento nacional. Também ganham destaque reflexões sobre formas de regulação da economia e taxação da riqueza, ou acerca dos problemas trazidos pelo excesso da desigualdade. Para além da avaliação dos méritos e da temporalidade da medida, é um alívio para a democracia brasileira que se debata algo além de esquemas e desvios de indivíduos. Até porque o debate em torno das bets substitui uma leitura moralista da corrupção, pautada pela distinção entre puros e impuros, por uma interpretação política, que aponta para o mecanismo fundamental da produção de condutas corruptas no capitalismo: a compra do Estado e dos indivíduos pelo dinheiro.  

Democracia envolve conflito, que usualmente opõe os que têm mais aos que têm menos. Trata-se de uma forma de governo que não promete as melhores medidas, já que é comum que o povo e as elites delirem, mas que permite que todas as decisões passem, em algum momento, pelo escrutínio dos que são por elas afetados, nem que seja por meio dos seus representantes. O debate sobre o que atinge ou não o povo, ou sobre o que prejudica uma maioria para favorecer uma minoria é, portanto, uma questão fundamentalmente democrática. Isso envolve lados antagônicos, ou, como diz o senso comum, o “nós contra eles”.

Os últimos anos viram a emergência de um grande consenso em parte do debate público contra o conceito de polarização. Trata-se de uma interpretação que produziu, em certo sentido, uma indústria, com seus especialistas e vozes públicas. Há até mesmo institutos de pesquisa que leem todo o processo eleitoral a partir do conceito, em perspectiva que enfatiza não as ameaças à democracia ou a possível emergência das várias formas de autoritarismo, mas o funcionamento “polarizado” da nossa atual ordem política. O problema, neste sentido, não estaria nos que fazem do ataque à democracia sua agenda, mas sim aqueles que preferem o dissenso ao consenso. 

Há, contudo, pouca evidência de que foi a polarização a responsável pela emergência da ultradireita nas mais diversas latitudes. Muito mais influente é a interpretação diametralmente oposta, que vê em lideranças autoritárias de direita a resposta a um marasmo democrático, que não conseguia convencer a população da efetividade do voto, dada a pouca diferença entre os partidos de perfil ideológico diverso. Ou seja, o problema não seria o excesso, mas a falta de dissenso.

Se a democracia carrega certa dose necessária de conflito, regimes autoritários costumam ser bem eficazes para acabar com a polarização. Nossa última experiência do tipo foi inaugurada, em 1964, para instaurar uma ordem contra aqueles que agitariam a política brasileira, opondo pobres a ricos. O bolsonarismo cultiva um imaginário semelhante. Ele promete uma sociedade unida em torno de um só ideal, que pode ser a pátria, a família ou um ocidente no qual seríamos uma nova colônia norte-americana. Mesmo sem a clara intenção, o samba de uma nota só que ataca a polarização e silencia sobre o autoritarismo constrói um cenário favorável a este tipo de liderança política.

A valorização desmedida do tema da corrupção faz o mesmo. Não se trata de ignorar os problemas da tomada do público por interesses privados, mas de identificar adequadamente suas raízes, que estão mais na desregulação do capital do que no caráter moral dos indivíduos ou em certa ideia de uma índole nacional. A sensação de uma degradação generalizada e da política como ambiente sujo favorece desejos salvacionistas, assim como a vitória de uma liderança capaz de romper com todas as mazelas do presente. É possível que um ator de esquerda parta desse diagnóstico para um movimento de democratização da sociedade, mas não só isso é relativamente raro na história brasileira, como não é o que o cenário político global aponta. Nas duas últimas décadas, os discursos do tipo prepararam terreno para a ascensão de lideranças autoritárias. 

O tema das bets recoloca o conflito no centro e, com isso, volta a identificar a democracia com a grande política, não com investigações sigilosas ou artigos do código penal. Outra vez falamos de projetos distintos, ou avaliamos políticas públicas pregressas, e pensamos na capacidade da política de efetivamente mudar o País. Para além dos efeitos sobre os eleitores, essa mudança de política favorece o lado da disputa comprometido com a democracia. 

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

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Fonte: Carta Capital

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