Por Rafael Henrique Zerbetto — Brasil 247

Ao analisar a estratégia da campanha de Flávio Bolsonaro ao Planalto, notamos um padrão retórico: rebater acusações dizendo que o adversário fez exatamente a mesma coisa. Essa é a estratégia do espelho, popularmente conhecida como “E o Lula?”.

Agindo assim, o candidato se esquiva de dar explicações e, ao mesmo tempo, passa a bola para o outro lado: “ou você se explica ou acordamos que o jogo está um a um”. E se o adversário se explicar, Flávio pode usar a explicação tanto para atacar como para se defender, novamente espelhando o adversário.

A filosofia chama isso de fracasso de relevância: o fato de outra pessoa ter cometido o mesmo erro não torna falsa a crítica original. Já a abordagem linguística aponta para a substituição do objeto do discurso: deixa-se de falar de uma coisa para se falar de outra.

Mas é a psicologia que explica a eficácia do truque: a estratégia do espelho explora nossa sensibilidade natural a sinais de hipocrisia e viés. Apontar o acusador como parcial, mesmo que ele não seja, reduz o poder persuasivo da acusação. Além disso, a técnica desloca o foco para o adversário, impedindo o processamento da crítica original.

A falsa simetria como método

A imagem que vemos no espelho é simétrica à imagem original. Mas nem todos os espelhos são iguais; alguns distorcem a imagem deliberadamente. Esta característica dos espelhos também está presente na técnica usada por Bolsonaro: trata-se da falsa equivalência.

É o que acontece quando alguém argumenta que Jair Bolsonaro foi preso e ouve a resposta “Lula também”. Se os dois já estiveram na cadeia, deduzimos que são equivalentes, mas essa equivalência se mostra falsa quando analisamos o mérito de cada prisão, pois cada uma envolveu contextos e motivos diferentes.

A técnica do espelho transforma o acusador em acusado, satura o eleitor e reduz o debate a uma briga de torcidas. É por isso que temos a impressão de que os debates de antigamente eram melhores – e de fato eram, pois discutiam-se propostas, ninguém se esquivava de responder perguntas e os candidatos não abusavam da desonestidade intelectual.

A falsa escolha entre ser “colônia dos EUA” ou “colônia da China”

A grande vantagem de Lula nesta eleição é sua defesa intransigente da soberania do Brasil. Ele não cedeu à pressão de Trump por acordos injustos e adotou a diversificação de parcerias como estratégia para reduzir a dependência brasileira sem permitir ingerência estrangeira.

Flávio Bolsonaro, ao contrário, viajou aos EUA para pedir a Trump que impusesse tarifas contra seu próprio país, e prometeu a Marco Rubio que, caso eleito, sua equipe de transição estará “à disposição” do governo estadunidense. Esses dois fatos bastam para colocar em dúvida sua lealdade ao interesse nacional brasileiro.

Mas toda vez que alguém apresenta sua preocupação legítima com a subserviência de Flávio Bolsonaro a Trump, a reação dos bolsonaristas é acusar Lula de ser submisso à China. Novamente a técnica do espelho. Novamente uma falsa simetria.

O aumento do comércio e do investimento bilateral entre Brasil e China não implica submissão, uma vez que esses dois países não se intrometem em assuntos internos um do outro; há apenas negócios, nos mesmos moldes das relações do Brasil com outras nações.

Além disso, a simetria entre EUA e China é falsa porque há uma diferença gritante entre as duas nações em termos de método: a China investe sem contrapartidas excludentes e aceita negociar transferências de tecnologia; não há tutoramento nem veto a terceiros.

Já os EUA são menos propensos a negociar transferências de tecnologia e muitas vezes exigem contrapartidas que restringem acordos com outros países e abrem brechas para ingerência estrangeira em assuntos internos. Equidistância não é ausência de riscos, mas a gestão soberana de parceiros.

Há simetria entre terras raras e açaí?

Nos últimos anos, as reservas brasileiras de terras raras têm ocupado as manchetes dos jornais. Lula quer regulamentar o setor e condicionar a participação de empresas estrangeiras à transferência de tecnologia e à agregação de valor em solo brasileiro, enquanto Flávio Bolsonaro falou apenas em negociar com os EUA, sem dar nenhum sinal de que exigirá contrapartidas.

Porém, considerando a posição do governo Trump e os interesses das empresas estadunidenses, é razoável intuir que tal negociação resultaria em beneficiamento e agregação de valor fora do Brasil. Mais que isso, Trump já deixou claro que quer prioridade de compra da produção brasileira de terras raras e restrições à participação chinesa no setor.

Ao serem questionados sobre isso, bolsonaristas têm reagido questionando a compra, por uma empresa chinesa, de toda a produção de açaí do Amapá até 2031, como se isso provasse que Lula está transformando o Brasil em “colônia da China”.

Para começo de conversa, no ano passado o Amapá produziu 30 toneladas de açaí, e o acordo da Cooperativa dos Produtores Extrativistas do Estado do Amapá (Amazonbai) com uma distribuidora chinesa de alimentos prevê o fornecimento de 15 toneladas/ano, ou seja, somente metade da produção do estado.

O açaí é uma commodity agrícola renovável, colhida todo ano, o que é bem diferente de um recurso mineral não renovável, considerado estratégico justamente por ser difícil de obter. Além disso, a compra de uma safra de açaí não transfere ao comprador o controle da cooperativa que o produz, enquanto as operações dos EUA no setor de terras raras têm por objetivo o controle da cadeia de suprimentos e não a mera compra de um produto.

Quem realmente ameaça a soberania?

Na relação colonial clássica, o que diferencia a metrópole da colônia é, sobretudo, o controle da produção — não apenas o destino da mercadoria. Com base nessa premissa, qual país estaria mais propenso a tratar o Brasil como colônia, os EUA ou a China?

No caso do açaí, vimos que tudo se resume a comércio: a China compra a safra, mas a empresa permanece autônoma e comandada por brasileiros. Além disso, o produto é processado no Brasil antes de ir para o exterior como purê, concentrado ou pó liofilizado, sendo este último o mais comum na China e justamente o que tem maior valor agregado.

Já o olho gordo de Trump sobre as terras raras brasileiras nos mostra um desejo de controlar, dominar, submeter. E aqui, novamente, aparece a técnica do espelho: quem acusa a China de querer controlar países latino-americanos não busca libertá-los, mas construir uma narrativa para justificar a subordinação desses países aos EUA.

A falsa simetria não é só má-fé retórica; ela impede o eleitor de comparar projetos reais e refletir sobre como eles impactariam sua vida. Ao escolher em quem votar, o eleitor não deve perguntar “quem também fez”, mas “quem propõe o quê”.

Fonte: Brasil 247

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