Aos 93 anos, Goiânia encontra no Setor Central novas oportunidades de desenvolvimento
Por Giovanna Campos — Jornal Opção

A história de Goiânia começou a ser escrita no Setor Central. Foi entre avenidas planejadas, edifícios públicos e construções que hoje integram o patrimônio arquitetônico da capital que a cidade deu seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento. Ao completar 93 anos, em 24 de outubro, Goiânia encontra em seu núcleo pioneiro um retrato das transformações urbanas que marcaram sua trajetória e das novas possibilidades de ocupação residencial.
Idealizada na década de 1930 para substituir a antiga capital do estado, a cidade de Goiás, Goiânia nasceu como símbolo de modernização e progresso. O projeto urbanístico inicial, desenvolvido pelo arquiteto e urbanista Attílio Corrêa Lima, estabeleceu uma organização territorial marcada por avenidas amplas, espaços públicos e edifícios administrativos. A Praça Cívica tornou-se o principal núcleo desse planejamento, de onde partiram importantes vias de circulação, como as avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins.
Ao longo das décadas, a cidade ultrapassou os limites previstos em seu planejamento original. Projetada inicialmente para comportar cerca de 50 mil habitantes, Goiânia registrou 1.437.366 moradores no Censo de 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2026, a estimativa populacional mencionada nos dados utilizados para esta matéria chegou a 1.511.709 habitantes.
O crescimento populacional foi acompanhado pelo surgimento de novos bairros, pela ampliação da infraestrutura urbana e pela formação de diferentes polos comerciais e residenciais. Nesse processo, o Setor Central deixou de concentrar exclusivamente as principais atividades da cidade, à medida que novas centralidades passaram a atrair moradores, empresas e investimentos.
Os dados censitários ilustram essa transformação. Em 1991, o bairro tinha 31.393 habitantes. Em 2010, a população havia recuado para 24.204 moradores, uma redução de aproximadamente 22,9%. Já em 2022, o número voltou a crescer, alcançando cerca de 29 mil habitantes, ainda abaixo do registrado no início da década de 1990.
Para o engenheiro civil Ricardo Maciel, sócio-diretor e diretor técnico da SIM Incorporadora, a trajetória do Setor Central acompanha as mudanças vividas pela própria capital.
“Vejo essa transformação como um reflexo do próprio crescimento de Goiânia. Com a expansão urbana e o surgimento de novas centralidades, parte dessas atividades e da procura por moradia se deslocou para outros bairros. Isso trouxe desafios de conservação e ocupação, mas não apagou a relevância da região”, explica.
O cenário amplia o debate sobre como aproveitar a infraestrutura consolidada do Centro, sua oferta de transporte público e a diversidade de serviços existentes, criando condições para atender às novas demandas da população sem comprometer suas características históricas.
Incentivos e novas perspectivas de ocupação
A reocupação residencial do Setor Central ganhou novo impulso com mudanças na legislação urbanística e a criação de incentivos para investimentos na região.
O Plano Diretor de Goiânia, aprovado em 2022, estabeleceu condições mais favoráveis à implantação de novos empreendimentos, incluindo benefícios relacionados à outorga onerosa do direito de construir.
Em 2026, o município também aprovou medidas de incentivo fiscal vinculadas ao Programa Morar no Centro, com previsão de isenção de IPTU por até dez anos para empreendimentos enquadrados nas regras estabelecidas. O programa contempla iniciativas de construção residencial, uso misto e requalificação de imóveis existentes, além de benefícios tributários relacionados ao ITBI e ao ISSQN, conforme as condições legais aplicáveis.
As medidas buscam estimular a participação da iniciativa privada na renovação urbana, ampliando a oferta de moradias e incentivando o aproveitamento de terrenos e edificações subutilizados.
Um exemplo desse movimento é o Katedral Sky Rooftop, empreendimento da SIM Incorporadora localizado na Rua 20, nº 74, no Setor Central.
Entregue em 2024, o residencial foi implantado em uma área anteriormente ocupada por um terreno vazio e pela estrutura abandonada de um hospital. A transformação do espaço representou uma nova possibilidade de uso para uma área que havia perdido sua função original.
Para Paulo Silas, sócio da SIM Incorporadora, o empreendimento também revelou a existência de uma demanda residencial ligada à memória afetiva dos antigos moradores da região.
“Além de trazer uma ocupação para um espaço subutilizado, o empreendimento atraiu muita gente que já havia morado no Centro e tinha vontade de voltar para o bairro. Faltava apenas uma oportunidade”, destaca.

O Katedral Sky Rooftop foi desenvolvido para atender às necessidades contemporâneas de moradia, com apartamentos de dois e três quartos, suítes e metragens entre 60 e 80 m².
O projeto incorpora soluções de infraestrutura elétrica adequadas ao uso atual de equipamentos domésticos, além de recursos como tomadas USB e instalações pensadas para as demandas das famílias.
A estrutura de lazer inclui piscina com raia, espaço gourmet, brinquedoteca, academia e rooftop. Com 156 unidades residenciais, o empreendimento também permite o compartilhamento das despesas de manutenção das áreas comuns entre um número maior de moradores.
“O Setor Central apresenta potencial residencial consistente, especialmente pela combinação entre localização, infraestrutura e oferta de serviços. A experiência de outras cidades demonstra que a requalificação de áreas centrais pode estimular novos ciclos de valorização e atrair diferentes perfis de moradores”, observa Paulo Silas.
A atuação da SIM Incorporadora na região, entretanto, começou antes do Katedral. Em 2015, a então SIM Engenharia entregou o Central Park Homework Residence, localizado na Rua 16, a poucos metros da Praça Cívica. Paulo Silas, que já morou no Centro, destaca que sua relação pessoal com o bairro também contribuiu para o interesse em desenvolver empreendimentos na região.
Moradia como estímulo à economia local
Além de ampliar a ocupação residencial, novos empreendimentos podem contribuir para fortalecer o comércio e os serviços existentes no Setor Central.
Embora o bairro permaneça entre as regiões de Goiânia com maior atividade empresarial, ainda enfrenta desafios relacionados à desocupação de imóveis comerciais.
Segundo dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Indústria, Comércio, Agricultura e Serviços (Sedicas), o Centro ocupou a quinta posição entre os bairros da capital com maior número de novos negócios no período de janeiro de 2025 a fevereiro de 2026.
Na avaliação de Ricardo Maciel, o retorno de moradores pode contribuir para dinamizar a economia local, especialmente por estimular o consumo cotidiano.
“Quem mora no bairro cria uma relação cotidiana com o comércio. Frequenta a padaria, compra na farmácia, utiliza serviços e passa a consumir também fora do horário comercial. Essa demanda recorrente pode fortalecer os estabelecimentos existentes e abrir espaço para novos negócios”, explica.

O aumento da população residente também pode favorecer a utilização mais constante dos espaços públicos, dos serviços e da infraestrutura urbana, contribuindo para uma dinâmica que ultrapassa os horários tradicionais de funcionamento do comércio.
Preservação histórica e desenvolvimento urbano
A renovação do Setor Central exige, ao mesmo tempo, atenção à preservação de sua identidade arquitetônica e cultural. A região concentra parte importante do patrimônio histórico de Goiânia, com edifícios públicos, monumentos e referências urbanísticas associados à formação da capital.
Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o conjunto arquitetônico e urbanístico Art Déco de Goiânia, que reúne 22 edifícios e monumentos públicos, concentrados principalmente no Setor Central e no núcleo pioneiro de Campinas.
Entre os principais exemplares estão o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, o Grande Hotel e a Torre do Relógio da Avenida Goiás. A Praça Cívica também permanece como um dos principais espaços de memória e convivência da cidade.
Em 2024, o Iphan publicou a Portaria nº 201, estabelecendo diretrizes de preservação e critérios para intervenções na área tombada e no entorno dos bens integrantes do acervo arquitetônico e urbanístico Art Déco da capital.
A regulamentação busca orientar transformações urbanas compatíveis com a proteção do patrimônio histórico.
Para Ricardo Maciel, novos investimentos precisam reconhecer essa responsabilidade.“A preservação não deve ser vista como impedimento à transformação, mas como um elemento orientador de projetos mais qualificados. Também é importante estimular a recuperação de edifícios existentes, a adaptação para novos usos e a manutenção de referências que fazem parte da memória da cidade”, afirma.
Mais do que conservar construções, a preservação envolve manter vivas as referências culturais e as relações estabelecidas entre diferentes gerações de moradores.
Nesse contexto, a reocupação residencial surge como uma possibilidade de conciliar memória e desenvolvimento, aproveitando a infraestrutura existente e estimulando novas formas de viver o Centro.
Aos 93 anos, Goiânia encontra em seu núcleo histórico não apenas as marcas de sua origem, mas também oportunidades para construir os próximos capítulos de sua trajetória urbana.
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Fonte: Jornal Opção