A modernização do atraso
Por Carlos Castelo — Brasil 247
Na esquina da Paulista com a Consolação, um rapaz mantinha o celular erguido como quem tenta captar um sinal de vida inteligente. Não estava fotografando o pôr do sol, nem gravando um vídeo para ensinar a enriquecer antes dos trinta. Queria apenas que um mapa resolvesse aparecer. No alto da tela, em letras garrafais, brilhava um orgulhoso 5G. A realidade, porém, insistia em trafegar em carroça.
Confesso uma nostalgia improvável pelo velho 3G. Era um sujeito de poucas virtudes, mas de uma honestidade quase rural. Se fosse lento, fazia questão de avisar. Você apertava um botão e tinha tempo para pedir um café, ler a manchete do jornal e arrepender-se da mensagem antes que ela fosse enviada. Não prometia milagres. Apenas entregava atrasos.
Já o 5G pertence à era em que o marketing substituiu a experiência. Seu maior feito não é acelerar a internet, mas convencer o consumidor de que ela ficou mais rápida. O ícone mudou. O discurso se alterou. A propaganda não é mais a mesma. Só a espera permaneceu igual.
Vivemos numa civilização em que trocar o rótulo vale mais do que melhorar o conteúdo.
No meu celular, a diferença entre o 4G e o 5G lembra aquelas reformas de restaurante que anunciam: novo conceito. Trocam a iluminação, pintam a parede de cinza, servem o hambúrguer numa tábua de madeira e cobram o dobro. A carne continua a mesma. O cliente, entretanto, sai convencido de que degustou inovação.
A tecnologia descobriu que percepção rende mais dividendos do que desempenho.
É curioso como ninguém admite essa pequena fraude cotidiana. Quando o vídeo trava, a culpa é do aplicativo. Quando a chamada falha, é do aparelho. Quando a página demora é porque a rede está congestionada. O 5G permanece acima de qualquer suspeita, protegido pelo mesmo mecanismo psicológico que absolve promessas eleitorais e dietas milagrosas: a esperança tem memória curta.
O mais engraçado é observar o celular alternando entre 4G e 5G com a desenvoltura de um ator trocando de figurino nos bastidores. A experiência continua idêntica. É como mudar a fonte do cardápio e chamar isso de revolução gastronômica.
Colecionamos versões como quem coleciona medalhas. Wi-Fi 7, Bluetooth 6, IA alta, câmera de duzentos megapixels. Quanto maior o número, menor parece a obrigação de entregar algo perceptível. A inovação virou um exercício tipográfico.
Antes, a novidade precisava funcionar para justificar o anúncio. Hoje, basta existir um comercial bem produzido. O produto corre atrás depois, se der tempo.
Talvez eu esteja ficando velho. Ou apenas tenha vivido numa época em que progresso era uma experiência, não uma promessa publicitária. O 3G era ruim, ninguém discute. Mas tinha uma qualidade em falta no mundo moderno: nunca fingiu ser outra coisa.
O 5G, ao contrário, é a charrete com um velocímetro novo.
Fonte: Brasil 247