Por Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

O APUBHUFMG+ é o sindicato dos professores e das professoras da Universidade Federal de Minas Gerais. A Coluna do APUBHUFMG+ é mantida pela diretoria da entidade e conta com textos elaborados, principalmente, por docentes da UFMG. Os textos que compõem a coluna tratam de educação, ciência, tecnologia, cultura e artes, que, no conjunto, compõem o trabalho desenvolvido nas universidades.

No audio source provided.

Por Marco Antônio Sousa Alves

A inteligência artificial (IA) é uma realidade. O espaço que compartilhamos para produzir e difundir conhecimento é cada vez mais atravessado pela IA. Utilizamos a IA em diversas atividades acadêmicas, passando pelo ensino, pela pesquisa e pela gestão, assim como em nossas vidas cotidianas, mesmo sem estarmos cientes disso, através de diversos recursos embutidos nas plataformas digitais, como o Google.

Um relatório publicado em setembro de 2025, fruto de uma consulta pública promovida pela Comissão de IA da UFMG, que ouviu quase 2.500 docentes, discentes e servidores técnico-administrativos da UFMG, demonstrou que mais de 75% de nossa comunidade já utiliza a IA nas mais variadas atividades acadêmicas. E esse número, assim como a amplitude das utilizações feitas, não para de aumentar.

Não devemos simplesmente temer a IA, recusá-la de partida, ou negar seus potenciais benefícios, como o desenvolvimento de métodos de ensino inovadores, o apoio em pesquisas que realizam análise de dados ou a promoção de tecnologias assistivas, como o oferecimento de ferramentas inteligentes que conferem mais autonomia a pessoas com deficiência ou necessidades especiais. Mas sua utilização, especialmente na universidade, requer extrema cautela e muita responsabilidade.

São muitos os riscos envolvidos e os possíveis danos, geralmente evitáveis, em especial quando a IA é usada de forma inadequada ou irresponsável, como a dependência tecnológica, as infrações aos direitos autorais, a perda da autonomia dos estudantes e pesquisadores, os usos potencialmente discriminatórios e as violações da privacidade e da proteção de dados.

Para além desses riscos mais diretamente relacionados com a qualidade do ensino, a integridade na pesquisa e a gestão responsável, devemos também considerar a dimensão social da introdução e da ampla utilização dessa tecnologia nas universidades. Se esse processo ocorrer sem a devida regulação, como vem ocorrendo, corremos um sério risco de vermos nossas condições de trabalho se deteriorarem rapidamente, com mais precarização, sobrecarga e perda de postos de trabalho.

Os interesses das grandes corporações internacionais de tecnologia e inovação, as chamadas Big Techs, claramente estão em conflito com a defesa da soberania nacional, com a proteção da democracia e com o respeito aos direitos sociais e às garantias fundamentais, como a liberdade de expressão e a privacidade. Nós, trabalhadores, devemos disputar o futuro da IA. Do contrário, tendemos a ser simplesmente atropelados por grandes interesses corporativos e de outros países.

Nesse sentido, o Sindicato dos Professores APUBHUFMG+ saúda a iniciativa e integra a coordenação da Frente Minas Gerais por IA com Direitos Sociais. Precisamos acompanhar de perto o avanço do Projeto de Lei 2338/2023, que tramita na Câmara Federal e visa instituir o marco legal da inteligência artificial no Brasil.

Opor inovação e incentivo à livre iniciativa ao respeito aos direitos fundamentais é um falso dilema. Os direitos sociais e a proteção dos mais vulneráveis não podem ser atingidos em prol de uma visão equivocada, retrógrada, antissocial e eticamente descomprometida de inovação. Avanço tecnológico sem responsabilidade é retrocesso civilizatório.

Afinal, será que os desenvolvimentos da IA estão voltados realmente para melhorar nossas vidas, em termos econômicos, sociais e existenciais? Será que é sustentável, em termos ambientais, esse novo mundo inteligente, com sua gigantesca demanda energética? Teremos melhores condições de trabalho em um mundo repleto de dispositivos inteligentes?

Esse talvez seja um dos grandes desafios de nossa geração. É preciso um esforço de compreensão considerável, para estarmos à altura dos desafios do nosso tempo. Devemos também entrar na luta e disputar o futuro da IA, para que possamos deixar para as próximas gerações um mundo bem melhor do que aquele que herdamos.

Marco Antônio Sousa Alves é segundo vice-presidente do APUBHUFMG+ e membro da Comissão de IA da UFMG.

—

Leia outros artigos da coluna Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta, do APUBH, no Brasil de Fato.

—

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *