Por José Andrés Lopes da CostaJOTA

Há uma leitura corrente, e incompleta, do incômodo americano com o Pix. Por ela, o problema se resumiria à concorrência que o arranjo brasileiro faz às bandeiras de cartão, e a controvérsia se dissolveria na distinção entre infraestrutura e serviço. A distinção é exata, mas cobre apenas a superfície de uma questão bem maior. O que o Pix põe em jogo não é a margem da Visa, é a titularidade dos trilhos por onde circula o dinheiro, no século em que a infraestrutura financeira se converteu em matéria de soberania e geopolítica.

Por baixo do Pix opera o Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), uma infraestrutura de liquidação bruta em tempo real (Real-Time Gross Settlement) mantida pelo próprio Banco Central. Cada transação se liquida uma a uma, de modo definitivo e irrevogável, em moeda de banco central, sem compensação por lotes e sem janela de fechamento.

A mensageria segue o padrão ISO 20022, o mesmo adotado por mais de 70 jurisdições, o que torna o Pix, em princípio, plugável a sistemas estrangeiros. Nenhuma dessas opções é neutra. A escolha técnica é, aqui, escolha de política externa, porque define de quem o país dependerá quando precisar tratar com o exterior.

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O verdadeiro diferencial brasileiro, no entanto, não é tecnológico, mas institucional. O Pix é integralmente estatal, com o Banco Central a definir, operar, regular e deter a marca, ao passo que a Índia confiou a sua UPI a um consórcio privado sob regulação do banco central, e a área do euro reservou ao Eurosistema a liquidação no TIPS mas deixou a experiência do usuário com os bancos.

No Brasil, tudo repousa na mesma mão. Essa concentração é, a um só tempo, a razão do êxito e o principal risco do modelo. Produziu coordenação, velocidade e preço, mas produziu também um ponto único de falha e um conflito estrutural entre operador e regulador. É precisamente nesse conflito que a pressão externa foi encontrar o seu ponto de apoio, o que não a torna menos instrumental.

O caso dos Estados Unidos importa menos como concorrente do que como espelho de outra economia política. Lá convivem, sob o mesmo propósito, o FedNow do Federal Reserve, o RTP (Real-Time Payments) da câmara privada The Clearing House e o Zelle de um consórcio de bancos, sem coordenação nem marca reconhecível, e por cima de tudo o duopólio das bandeiras a cobrar o seu pedágio. O trilho, ali, é estrada privada. No Brasil, é via pública, estatal e gratuita para a pessoa física.

A assimetria de custo ilustra a diferença de filosofia. Enquanto o Pix custou ao Banco Central algo entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões, o FedNow consumiu cerca de US$ 100 milhões para ser construído e outros US$ 246 milhões num único ano de operação, uma ordem de grandeza de 25 para um. O número não é mera curiosidade, pois diz quem arca com o custo e quem se apropria do valor, e explica por que um modelo público e barato, vindo de um país emergente, incomoda quem terceirizou os próprios trilhos a incumbentes privados.

Daí a reação, que é o dado mais revelador de todos. Em julho de 2025 o USTR (Office of the United States Trade Representative) abriu investigação com base na Seção 301 da lei de comércio americana, e em junho de 2026 concluiu que o duplo papel do Banco Central, operador e regulador a um só tempo, constituiria prática acionável. Uma potência não abre investigação comercial contra um aplicativo de transferências qualquer. Abre-a contra uma infraestrutura pública que passou a ameaçar interesses estabelecidos, convertendo a lei de comércio em instrumento de defesa de uma hegemonia de infraestrutura.

É aqui que a leitura comercial se mostra insuficiente. A razão pela qual os trilhos importam não é a taxa que cobram, é o poder que conferem. Excluir um país do sistema de mensageria, congelar as suas reservas, fechar-lhe o acesso ao dólar, tudo isso se tornou instrumento corrente de política externa, e pressupõe que a infraestrutura pertença a alguém capaz de acioná-la. Dispor de trilho próprio, nesse ambiente, deixou de ser questão de eficiência para tornar-se questão de autonomia estratégica.

O tabuleiro decisivo, contudo, não é o doméstico, e sim o das interligações transfronteiriças, que se fragmenta hoje em blocos de nítido contorno geopolítico. De um lado o Projeto Nexus, nascido no Banco de Compensações Internacionais (BIS) e conduzido pela Nexus Global Payments, entidade incorporada em Cingapura, que substitui a multiplicação de acordos bilaterais por um modelo radial em ISO 20022. De outro o mBridge, plataforma de moedas digitais de banco central que reúne China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, e da qual o próprio BIS se retirou em outubro de 2024. Ao redor, o Buna do Fundo Monetário Árabe, o PAPSS africano, os trilhos das bandeiras e as stablecoins privadas, que nada mais são do que a extensão privatizada da hegemonia do dólar.

A ordem global de pagamentos está se desunindo, e escolher onde se conectar é, em si, uma decisão de alinhamento. O Brasil, prudentemente, acompanha o Nexus sem a ele aderir. E os obstáculos que restam não são de banda larga, são de soberania regulatória, porque a irrevogabilidade de um pagamento instantâneo combina mal com a triagem de sanções e com a prevenção à lavagem, e porque a transferência internacional de dados esbarra na LGPD e no GDPR, sem que exista regime comum para dizer quem restitui o valor que, de um só golpe, cruzou três jurisdições em um minuto, e sob qual lei.

A influência brasileira já é concreta e reside na exportação do desenho, e é essa a dimensão que a narrativa da mera concorrência não alcança. A Colômbia construiu o seu sistema instantâneo, o Bre-B, declaradamente inspirado no Pix. O México reformulou o CoDi na mesma direção. Chile, Peru e Argentina discutem arranjos de governança pública nesse modelo. Some-se o Open Finance brasileiro, o maior do mundo. Quem define o padrão define o mercado, porque o padrão adotado cria dependência de caminho, e migrar depois custa caro. Exportar o desenho do Pix é formar, sem tratado e sem desembolso, uma zona de afinidade técnica na qual o Sul global aprende a construir trilhos próprios em vez de alugar os alheios. Outro dado eloquente é que o Pix nasceu inspirado na UPI indiana, de 2016. Dez anos depois, é o Brasil que serve de espelho aos vizinhos.

Existe, por fim, um vácuo a ser ocupado. O Brasil presidiu o G20 em 2024, quando a agenda de pagamentos transfronteiriços ganhou tração, e o relatório do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) de outubro de 2025 reconhece que as metas globais de custo, velocidade e transparência dificilmente serão cumpridas até 2027. Vácuos dessa espécie tendem a ser preenchidos por quem já tem um modelo em funcionamento para mostrar. Nada disso, porém, autoriza triunfalismo. A concentração que deu força ao Pix é a mesma que o expõe, e a questão dos blocos exige discernimento, e não alinhamento por inércia. A soberania de infraestrutura é uma possibilidade a conquistar, não um patrimônio adquirido.

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A geopolítica do Pix se resume a uma pergunta e a uma constatação. A pergunta é se uma potência média consegue manter os próprios trilhos num tempo em que as finanças voltaram a ser instrumento de coerção. A constatação é que a ordem de pagamentos do planeta se reorganiza em esferas de influência, e que participar dessa reorganização com desenho próprio vale mais do que qualquer tarifa. A querela com as bandeiras é o resíduo visível da questão. O que está submerso, e é o que verdadeiramente importa, são a soberania, o poder de fixar padrões e a arquitetura do poder econômico e geopolítico daí derivado. É disso, muito mais do que da margem dos cartões, que trata o desconforto de Washington.

Fonte: JOTA

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