Por Fernando CapotondoBrasil 247

A juventude chinesa considera o casamento uma opção, e não uma obrigação, e sente que as questões econômicas condicionam cada vez mais as possibilidades de ter filhos, segundo revela uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Populacional da Universidade de Pequim. O diagnóstico não parece muito diferente do observado na maioria dos países onde a natalidade vem caindo há anos. O que muda, neste caso específico, é a resposta do governo chinês.

A República Popular da China ampliou nos últimos dias seu seguro-maternidade com uma série de medidas destinadas a incentivar os nascimentos em nível nacional. “Tudo está orientado a aliviar a carga econômica das famílias”, explicou Wang Wenjun, vice-diretora da Administração Nacional de Seguridade Sanitária (NHSA), ao anunciar a medida.

Segundo dados oficiais dos primeiros sete meses de 2026, o fundo do seguro-maternidade havia desembolsado 78,42 bilhões de yuans (cerca de US$ 11,6 bilhões) para cobrir 25,56 milhões de casos. Desse montante, US$ 8,99 bilhões corresponderam a subsídios destinados a compensar a perda de renda durante as licenças, uma ajuda que atualmente é concedida diretamente às beneficiárias, sem intermediários.

A cobertura deixou de se concentrar no parto e passou a abranger desde os exames pré-natais até os primeiros cuidados com o recém-nascido. O pacote inclui subsídios, reembolsos médicos e serviços de creche a preços acessíveis. Em mais de 300 localidades de 28 províncias, já foram eliminados os pagamentos diretos pelo parto hospitalar. Os tratamentos de reprodução assistida também passaram a integrar o sistema, e os procedimentos para aliviar a dor durante o parto começaram a ser reconhecidos em todo o país, informou a agência de notícias Xinhua.

O novo sistema beneficia cerca de 260 milhões de pessoas, após o reconhecimento dos chamados trabalhadores flexíveis que estavam fora do sistema. A decisão foi de um pragmatismo considerável, levando em conta que esse universo de entregadores da Meituan, motoristas da Didi e profissionais autônomos representa nada menos que 44% da força de trabalho, segundo o Centro de Pesquisa sobre Novas Formas de Emprego da China.

A ampliação do seguro-maternidade ocorreu em meio a uma pressão demográfica cada vez mais complexa. Em 2025, foram registrados apenas 7,92 milhões de nascimentos, o pior resultado desde a revolução de 1949. A taxa de natalidade caiu para 5,63 por mil habitantes, e a população diminuiu em 3,39 milhões de pessoas. Já são quatro anos consecutivos de queda, paralelamente a um envelhecimento da população que parece ininterrupto: para 2035, projeta-se que haverá um aposentado para cada dois trabalhadores ativos, enquanto há 20 anos a relação era de um para dez.

Nesse contexto, não são necessárias muitas explicações para entender por que a construção de uma “sociedade favorável à natalidade” se tornou um dos eixos prioritários do XV Plano Quinquenal, o roteiro chinês para o período de 2026 a 2030.

Nem comprometido, nem casado, nem nada

O economista Li Xunlei, da empresa Zhongtai International, projeta que a China poderá cair para menos de 1,4 bilhão de habitantes em 2027 e chegar a 1,3 bilhão até 2039. Trata-se de um fenômeno que ganha outra dimensão em tempos de relativa tranquilidade, sem guerras mundiais no meio: pela primeira vez na história contemporânea, a população diminui porque uma geração escolhe não ter filhos.

De fato, o sociólogo Wang Feng, da Universidade da Califórnia (Irvine), considera que grande parte da juventude urbana sente que a maternidade/paternidade não é o principal caminho para a realização pessoal. “O sistema exige sacrifícios que esta geração não está disposta a fazer às custas de sua qualidade de vida”, afirma o acadêmico.

Essa tendência também aparece nas pesquisas.

Uma pesquisa da consultoria Zhaopin revela que 47% das jovens da Geração Z não estão dispostas a ter filhos. O relatório identificou uma forte diferença de gênero. Para 68,8% das entrevistadas, a gestação e os cuidados infantis são uma carga que recai sobre elas e prejudica suas carreiras, enquanto apenas 26,7% dos homens compartilham dessa visão.

Outro estudo, publicado na revista Ciências Sociais de Ningxia, entrevistou 29.489 estudantes universitários solteiros de todo o país. Ali aparece um dado ainda mais amplo: 40,9% preferem não estabelecer relacionamentos e 43,5% não querem ter filhos. O economista Yi Fuxian, da Universidade de Wisconsin-Madison, naturaliza essa tendência “como uma grande pedra rolando ladeira abaixo” e aponta entre suas possíveis causas a política do filho único, que vigorou durante décadas na China.

Sociólogos e analistas também concordam que o alto custo da moradia, a pressão pela educação dos filhos e a instabilidade no mercado de trabalho transformaram o projeto de ter filhos em um luxo que muitos não podem arcar. Diante desse cenário, e além da ampliação do seguro-maternidade, cerca de 25 milhões de bebês e crianças receberam um modesto subsídio anual de US$ 532 para cuidados, enquanto aproximadamente 24 milhões de crianças ficaram isentas das mensalidades correspondentes ao último ano da educação infantil. Para financiar essas medidas, o Ministério das Finanças destinou US$ 14,775 bilhões, 10,6% a mais que em 2025.

Ter um filho continua sendo uma decisão pessoal ou familiar. O que muda é quanto será pago para fazê-lo. O novo esquema amplia a proteção desde a gravidez, incorpora tratamentos, reduz despesas médicas e inclui centenas de milhões de trabalhadores que, até pouco tempo atrás, estavam fora do sistema. Será preciso esperar para saber se tudo isso será suficiente para reverter a crise de natalidade que preocupa a China.

Fonte: Brasil 247

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