A cadeira vazia e os dois pesos da Globo
Por Florestan Fernandes Jr — Brasil 247
Na próxima quinta-feira (1º/10), a três dias do primeiro turno, a principal rede de televisão do país fará seu último movimento político no primeiro turno da campanha eleitoral de 2026. Ao anunciar a possibilidade de colocar uma cadeira vazia para simbolizar uma eventual ausência de Lula no debate, a Rede Globo transforma a possível não participação de um candidato em parte do próprio espetáculo.
O articulista do jornal O Globo, Lauro Jardim, fez o alerta ao escrever: “Não parece razoável que Lula vá deixar sua cadeira vazia na quinta-feira, mesmo com todas as restrições que faz aos debates.”
Ora, ninguém é obrigado a participar de entrevista ou debate em qualquer emissora de rádio ou televisão. A decisão de comparecer ou não pertence ao candidato e à sua campanha. Transformar uma eventual ausência em uma cadeira vazia ultrapassa os limites da imparcialidade jornalística e revela uma tomada de posição editorial. O debate deixa de ser apenas um espaço de confronto de ideias e passa também a ser um espetáculo, produzido para gerar cortes que serão utilizados nas redes sociais.
A postura da mídia corporativa diante dos debates eleitorais também merece ser lembrada. Em 1994, depois de assumir a liderança nas pesquisas, Fernando Henrique Cardoso passou a demonstrar sua contrariedade em participar de debates com Lula.
A Globo utilizou justificativas de ordem burocrática para não realizar o debate do primeiro turno. Em 1998, na campanha pela reeleição de FHC, a emissora novamente recorreu às mesmas justificativas e não realizou o debate do primeiro turno.
Assim, não foi preciso colocar uma cadeira vazia no estúdio nem reforçar a ideia de que o candidato era um “fujão”.
Qual o objetivo da Globo ao adotar dois pesos e duas medidas? Por que uma eventual ausência de Lula hoje deveria ser tratada como espetáculo, quando, em outros momentos, não foi dessa maneira?
A resposta está na própria cobertura midiática feita pela chamada “grande imprensa” nesta eleição. Na tentativa de construir um candidato de terceira via, a estratégia usada mais uma vez foi tentar criminalizar Lula. No dia 19 de março deste ano, veio o primeiro ataque: o PowerPoint da GloboNews e a distorção do caso Banco Master. O jornalismo da emissora colocou em um PowerPoint, bem no centro visual dos envolvidos na rede de Daniel Vorcaro, uma foto do presidente Lula com a faixa presidencial. A peça foi tão parcial e equivocada que a reação nas redes sociais foi imediata, forçando a emissora a pedir desculpas pelo erro.
Mas a corrida contra o tempo para desgastar o governo Lula não parou por aí. Vazamentos utilizados para incluir o filho do presidente, Fábio Luís, no escândalo do INSS chegaram ao limite. Mesmo com a quebra dos sigilos bancário e fiscal de “Lulinha”, denominação criada pela própria mídia corporativa, nada foi encontrado que comprovasse seu envolvimento no escândalo que, diferentemente do que ocorreu com o Banco Master, tem ramificações claras e documentadas com o governo de Jair Bolsonaro e seus filhos.
É nesse ambiente que chegamos à reta final do primeiro turno da campanha. Lula poderá ou não participar do debate da Globo. Flávio Bolsonaro já confirmou presença e passou a cobrar publicamente a participação do adversário.
A Globo tem todo o direito de organizar seu debate, definir suas regras e informar ao público quem participa ou deixa de participar. O candidato, por sua vez, também tem o direito de decidir onde e como pretende expor suas propostas e ideias.
O que está em discussão é outra coisa: até onde pode ir uma emissora de televisão na transformação de uma decisão política de um candidato em um elemento do próprio espetáculo jornalístico?
A cadeira vazia pode parecer apenas um recurso cenográfico. Mas, numa eleição tão disputada e a poucos dias da votação, ela também se transforma em uma mensagem política. E justamente por isso deveria ser tratada com o máximo cuidado por quem tem a responsabilidade de informar milhões de brasileiros.
Portanto, caso Lula não participe do debate, a cadeira vazia no estúdio falará mais da Globo do que do candidato Lula. É a própria emissora que, ao transformar a ausência de um candidato em espetáculo, se afastará do papel de imparcialidade que deveria orientar sua cobertura jornalística.
Ao terminar este artigo, surgiu uma nova informação: o líder do governo no Senado, senador Camilo Santana, afirmou que Lula participará do debate da Globo na próxima quinta-feira. A informação, porém, ainda não foi confirmada pelo presidente nem por sua campanha.
Fonte: Brasil 247