‘Só a economia resolve a crise climática’, diz Corrêa do Lago no JOTA Global
Por Victoria Lacerda — JOTA
O presidente da COP30 , André Corrêa do Lago, afirmou durante o JOTA Global , em Nova York, que a questão climática deixou de ser vista apenas como uma pauta ambiental e se tornou, sobretudo, uma questão econômica. O evento reuniu, na última quarta-feira (23/9), tomadores de decisão brasileiros e líderes globais para discutir temas que impactam o mundo, durante a semana da Assembleia Geral da da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Climate Week. A programação também abordou transição energética , terras raras e inteligência artificial (IA), além de iniciativas e oportunidades para a América do Sul.
Em um dos painéis do evento, Corrêa do Lago falou da mudança de foco da presidência brasileira da conferência climática , que agora se concentra na implementação de decisões já aprovadas por consenso, em vez de seguir negociando novos acordos. Segundo o diplomata, esse é um resultado inédito da COP30, realizada em Belém, no Pará, em 2025. “Sim, de alguma forma, eu me sinto otimista, mas um otimista realista”, disse Corrêa do Lago, ao ser questionado sobre sua confiança na capacidade de resposta global à crise climática, em um cenário geopolítico marcado pela saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.
O presidente da COP30 afirmou que a mudança climática começou como uma questão meteorológica, depois se tornou uma questão ambiental e hoje é uma questão econômica. Por isso, ele colocou a economia como eixo central para enfrentar o problema. “Só a economia pode resolver a crise climática.”
Corrêa do Lago defendeu que é preciso resgatar a confiança na capacidade de mitigação significativa das emissões, sem abrir mão da adaptação às mudanças em curso. Para ele, alguns setores vêm tratando a crise climática como um destino inevitável, e essa narrativa acaba desestimulando a ação. “Alguns setores estão transformando a questão do clima em destino, e isso vai acontecer de qualquer forma, se fazemos alguma coisa ou não”, afirmou.
Em relação à crise no Estreito de Ormuz, o diplomata fez questão de esclarecer a ordem dos acontecimentos. Foi a guerra que provocou o fechamento do estreito, e não o contrário. Para ele, o episódio ilustra como as crises de segurança acabam se somando à urgência climática, ainda que não estivessem originalmente ligadas ao tema.
Pautas para a COP31
Sobre o roteiro que o Brasil vai apresentar na COP31, em novembro de 2026, na Turquia, Corrêa do Lago disse que o documento vai se basear no único consenso alcançado até hoje, firmado em Dubai, o compromisso de transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos. Segundo ele, esse entendimento é suficiente para avançar, citando como exemplo o acordo entre as 20 maiores petroleiras do mundo para reduzir em 80% as emissões de metano, compromisso que, na visão dele, não precisa esperar por um novo consenso para começar a ser implementado.
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O presidente da COP30 também alertou para tentativas de reverter, por maioria de votos e não por consenso, decisões tomadas na Organização Marítima Internacional (IMO) e na Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) sobre a demanda por combustíveis sustentáveis. Segundo ele, Brasil e Estados Unidos, como maiores produtores de biocombustíveis atualmente, são os principais beneficiários dessa demanda criada, ainda que outros países, como a Índia, comecem a avançar nesse mercado.
Ao comentar o conceito de “transição justa”, central nas negociações climáticas, Corrêa do Lago afirmou que o objetivo é evitar deixar pessoas e países para trás, respeitando as diferentes realidades de cada nação. Isso vai refletir na COP31, cujo roteiro está sendo preparado para não impor um caminho único, mas se adaptar às circunstâncias específicas de cada país. “Não vamos impor qualquer coisa. Os países têm de ser convencidos de que isso é uma oportunidade para o seu desenvolvimento.”
Fundo Florestas Tropicais para Sempre
Já sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) liderado pelo Brasil e lançado na COP30, em Belém, o presidente da conferência explicou que a estrutura foi criada fora das negociações formais, como uma coalizão entre países doadores e florestais, o que a torna autônoma e não dependente de consenso. Ele destacou que essa lógica também permite que países em desenvolvimento, como Brasil e Indonésia, invistam recursos próprios no fundo, cada um com aporte de US$ 1 bilhão. A meta é alcançar US$ 120 bilhões, com uma meta intermediária de US$ 10 bilhões até dezembro para dar segurança ao setor privado.
Sobre os possíveis impactos do processo eleitoral brasileiro na confiança no fundo, Corrêa do Lago disse que o país tem uma estrutura robusta o suficiente para não depender do resultado de uma única eleição.
Combustíveis sustentáveis ainda dependem de apoio público
No mesmo painel, o CEO do Molecule Group e chefe do Secretariado do Biofuture Council, Gerard Ostheimer, discutiu como a atual crise de segurança energética global pode acelerar a transição para combustíveis sustentáveis. Ele enfatizou que o mundo vive um momento em que as inseguranças climática, energética e alimentar se somam, criando pela primeira vez uma nova disposição para propor mudanças. “Estamos vendo ao redor do mundo uma nova praticabilidade, e essa praticabilidade é dirigida por uma soma, uma adição, se quiser, de insegurança climática, insegurança energética e, eu diria, insegurança alimentar”, afirmou.
Ostheimer também citou o Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis (Belém 4x), no qual países se comprometem a quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis até 2035, incluindo hidrogênio e combustível de aviação sustentável (SAF). Para ele, o Brasil tem papel de liderança nesse processo desde o Proálcool, nos anos 1970, e tende a se beneficiar diretamente do aumento da demanda por biocombustíveis, junto com os Estados Unidos, hoje os dois maiores produtores globais.
O JOTA Global teve realização do JOTA , com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.
Fonte: JOTA