A arquitetura da nova ordem: Dilma Rousseff detalha como o NDB e os BRICS constroem a multipolaridade na prática
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — A transição em curso na governança global não é apenas retórica diplomática: ela já possui estruturas institucionais consolidadas, balanços patrimoniais robustos e projetos de infraestrutura de longo prazo em execução. Essa é a síntese da análise apresentada pela presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, em entrevista exclusiva concedida aos jornalistas Leonardo Attuch e Fernando Morais, na TV 247 (em parceria com o canal Nocaute).
Ao detalhar a trajetória e o horizonte do chamado Banco dos BRICS, Dilma desenhou o mapa de uma transformação geopolítica profunda, na qual o Sul Global deixa de ser mero espectador passivo das decisões do Norte para se consolidar como artífice de uma nova arquitetura financeira e multilateral.
“A multipolaridade é multilateral, multicultural e multidiversa. É muito difícil manter o estágio atual de desenvolvimento da humanidade com modelos unilaterais e hegemônicos, onde um único centro impõe suas regras, sua cultura e sua visão de mundo”, afirmou a ex-presidenta.
O contraponto ao modelo de Bretton Woods
Dilma relembrou que a criação do NDB — formalizada em 2014, durante a histórica Cúpula de Fortaleza sob seu mandato presidencial — nasceu como uma resposta concreta às assimetrias históricas dos organismos de Bretton Woods, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
A diferença central, segundo a mandatária do NDB, reside na preservação inegociável da soberania nacional:
- Modelo demand-driven: O NDB não impõe receituários de austeridade, desregulamentação ou exigências de privatização de patrimônio público como pré-requisitos para aprovar empréstimos.
- Respeito aos projetos locais: A atuação do banco é moldada a partir das prioridades definidas pelos próprios governos soberanos dos países-membros.
- Financiamento paciente: Os empréstimos são estruturados com prazos alargados de 10, 20 a 30 anos e custos altamente competitivos, fundamentais para projetos de grande porte que o capital privado e os bancos tradicionais hesitam em custear.
“A nossa missão não é dizer ao país o que ele deve fazer, porque quem está de fora raramente compreende a complexidade da realidade local. Nossa função é apoiar o projeto de desenvolvimento que a própria nação desenhou para si”, sublinhou.
Moedas locais: neutralizando a armadilha do dólar hegemônico
Um dos momentos mais teóricos e agudos da entrevista abordou o papel do dólar nas finanças internacionais. Dilma desmistificou leituras simplistas sobre “desdolarização” imediata, destacando que o NDB atua no plano prático para mitigar as distorções provocadas pela dependência exclusiva de uma única moeda de reserva.
Dilma explicou que o regime de moeda hegemônica gera dois efeitos perversos: de um lado, força os Estados Unidos a déficits em conta corrente crônicos e à desindustrialização; de outro, impõe aos países emergentes o fardo das oscilações da política monetária norte-americana, que encarecem dívidas e desestabilizam balanços soberanos (o descasamento cambial).
A resposta estratégica do NDB, portanto, é a institucionalização de empréstimos em moedas locais:
- Casamento de receitas e dívidas: Quando um país ou empresa toma empréstimo na sua própria moeda (ou em moedas de seus parceiros de troca), o serviço da dívida acompanha sua receita real, neutralizando choques externos.
- Captação alternativa: O NDB consolidou-se como o maior emissor privado de títulos em moeda chinesa fora do mercado continental (Panda Bonds), combinando operações em renminbi, euro e dólar para baratear custos e pulverizar riscos.
“Um sistema financeiro multilateral baseado em moedas locais é intrinsecamente mais seguro, equilibrado e estável para a economia internacional”, sintetizou.
De 5 para 20 membros: a expansão exponencial do banco
Após uma fase inicial concentrada nos cinco fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o NDB acelerou substancialmente seu ritmo de expansão sob a presidência de Dilma.
Com a incorporação recente de Emirados Árabes Unidos, Egito, Bangladesh, Argélia e Uzbequistão, além da tramitação avançada das adesões de Etiópia, Angola e Zimbábue, a instituição se prepara para um novo salto de escala:
- Meta de 2027: A projeção do banco é alcançar cerca de 20 países-membros até meados de 2027.
- Diversificação e solidez: A ampliação da base acionária aumenta a capacidade de captação e empréstimo do NDB no mercado internacional, combinando economias com diferentes perfis e fortalecendo a liquidez mútua.
- Representatividade geográfica: O NDB já mantém escritórios regionais na África do Sul, Índia, Rússia e no Brasil (com representações em Brasília e São Paulo atendendo a América do Sul), descentralizando o atendimento a partir da sede em Xangai.
O ciclo 2027–2031: ciência, tecnologia e soberania cultural
Olhando para o futuro, Dilma adiantou os pilares do plano estratégico do NDB para o período 2027–2031. Sem abandonar a vocação em saneamento, logística e transição ecológica, o banco colocará a transferência tecnológica e a inovação no centro de todas as suas linhas de atuação.
Entre as novas diretrizes aprovadas pelos países-membros estão o financiamento a parques industriais, agropecuária de alta precisão, inteligência artificial aplicada à saúde pública (como o projeto do Hospital Inteligente no Brasil) e o lançamento do Portal de Inovação BRICS–NDB, plataforma destinada a compartilhar avanços científicos e soluções sociais geradas pelos países do grupo — como as experiências da Embrapa na agricultura tropical e a exploração de águas profundas no Brasil.
Por fim, Dilma ressaltou que a multipolaridade não sobrevive sem o respeito à identidade e ao soft power de cada povo:
“O desenvolvimento não existe sem cultura e sem alma nacional. A cooperação entre os países do Sul Global tem de se apoiar no reconhecimento de que nenhuma civilização é superior a outra. Nossa força está na diversidade. Quando afirmamos a nossa soberania e nos recusamos a ser submissos, abrimos caminho para a paz e para um desenvolvimento que realmente chegue às maiorias”, concluiu.
Fonte: Brasil 247