A parcialidade truculenta ronda as eleições: do TSE à Meta

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Por Elisabeth Lopes — Brasil 247

A democracia não combina com decisões judiciais sob parcialidade, quando as regras parecem pesar mais para um candidato do que para outro, é a própria lisura da eleição que fica em xeque. E o eleitor tem o direito de saber o que está por trás dessas decisões.

A sequência de decisões conflitantes, tomadas pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, em benefício de ações eleitorais movidas pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), suscita questionamentos legítimos sobre a proporcionalidade das restrições impostas e a uniformidade dos critérios adotados. A liberdade de mobilização política e a igualdade de tratamento entre candidaturas são princípios fundamentais de uma disputa eleitoral democrática. As decisões favoráveis a um dos candidatos à Presidência, pertencente ao mesmo espectro político do ministro que preside a Corte, levantam hipóteses sobre as possíveis motivações de sua conduta, sobretudo diante do conjunto de suspeitas que recaem sobre ele e que, se comprovadas, poderão trazer sérias consequências para seu futuro. Vale lembrar que por volta dos dias 21 e 22 de setembro de 2026, no âmbito das investigações do chamado Caso Master vieram à público as suspeitas de ligação comprometedora entre Kassio Nunes e do ex banqueiro preso, Daniel Vorcaro. Entre os registros identificados, aparece a expressão “Turma do KN”, referência ao ministro do STF, utilizada por interlocutores e assessores de Vorcaro ao tratar de demandas envolvendo favores e relações de proximidade. As mensagens também mencionam solicitações de hospedagem em hotéis de luxo, como o Fasano, ingressos para a Fórmula 1, em Interlagos, camarote na Marquês de Sapucaí e o custeio de uma residência de alto padrão no Rio de Janeiro, alugada por Vorcaro, que seria destinada ao ministro e a sua família. As investigações apontaram ainda menções a pagamentos relacionados a Kevin Marques, filho do ministro, e a um suposto repasse associado a um encontro

Outras revelações ganharam aspectos ainda mais degradantes com a divulgação de mensagens que fazem referência a uma festa realizada no tríplex de Vorcaro, em São Paulo, em fevereiro de 2025. Segundo reportagem do UOL publicada em 13/10/2026, um funcionário relatou ter cedido um quarto a um ministro acompanhado de cinco mulheres. Dias depois, uma intermediária cobrou R$ 10 mil de Vorcaro, alegando que uma das convidadas havia ficado com alguém identificado como “Kassio”. Vorcaro pediu os dados para efetuar o pagamento.

A controvérsia mais recente envolvendo Kassio Nunes diz respeito à suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, utilizado para mobilizar apoiadores do presidente e divulgar conteúdos da campanha à reeleição. No dia 11/10, atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE determinou a retirada do canal do ar, sob a alegação não checada por ele de disseminação de conteúdos falsos. A decisão foi revertida nesse mesmo dia pelo corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, que considerou insuficientes os elementos apresentados para justificar uma medida tão abrangente e apontou problemas na intervenção de Kassio Nunes em um caso que já estava sob sua relatoria. Já no dia 12/10 a equipe técnica do TSE concluiu o exame pericial requisitado atestando que não foram identificadas publicações com notícias falsas entre os conteúdos analisados.

Todavia, no dia 13/10, Nunes Marques voltou a suspender o canal, desta vez alegando a ausência de registro formal junto à Justiça Eleitoral e condicionando sua reativação ao cumprimento das exigências legais. Cumpre salientar que impor essa exigência a canais gerenciados por terceiros e apoiadores cria barreiras burocráticas à mobilização espontânea que não estão expressamente postas na rotina das campanhas. No fim da tarde do dia 13/10 após o canal ter sido registrado junto ao TSE, Kassio autorizou a retomada das atividades do “Exército do Lula” no WhatsApp. Ao fim e ao cabo, o ministro conseguiu atingir seu objetivo, impedir 48 horas de atividades do canal de comunicações criado pelo deputado Janones. Na sequência de decisões controversas praticadas por Kássio Nunes, no dia 15/10, após pedido do deputado Gustavo Gayer (PL), o ministro autorizou a recomendação algorítmica de perfis e publicações de candidatos eleitos no primeiro turno, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro, por disputarem o segundo turno, permanecem sujeitos à restrição. Embora a medida não favoreça diretamente a candidatura de Flávio, pode ampliar o alcance de conteúdos de seus aliados, suscitando dúvidas sobre a igualdade de condições na disputa eleitoral.

Num ensaio perigoso de risco democrático, que bate de frente com as características do Estado de Direito, o país se depara com a possibilidade de um futuro repressor, caso Flávio seja eleito. Ao pleitear junto ao TSE mais uma censura à liberdade de expressão, ao pedir o bloqueio de redes de entidades civis, artistas e políticos até o segundo turno, a campanha de Flávio choca o país e oferece uma amostra irrefutável de suas práticas autoritárias e antidemocráticas.

Engrossam o caldo de parcialidades, a atuação de uma das maiores big techs. Aliada de Trump, a Meta tem agido diretamente em prejuízo da campanha de Lula. Ela admite falhas nas métricas do Instagram que vem prejudicando Lula e favorecendo Flávio Bolsonaro, o candidato de Trump, mas não esclarece satisfatoriamente o ocorrido. Também, suspendeu perfis que divulgaram conteúdos em favor de Lula. Ainda que temporária as suspensões, a retirada do ar comprometeu o alcance e o engajamento desses perfis. Diante desses fatos, a Meta precisa explicar seus critérios, dar transparência às suas decisões e responder pelos efeitos de suas falhas sobre a circulação de informações políticas, sobretudo em um período eleitoral. Depois das demonstrações de parcialidade em favor da campanha de Flávio e das denúncias publicadas fartamente pela imprensa nacional, estrangeira e da campanha do presidente Lula ter acionado o TSE, cobrando explicações da Meta, a empresa adotou medidas corretivas. Para bom entendedor, meia palavra basta. Cabe ressaltar, porém, que essa mudança se refere à geração de imagens pela Meta AI, no WhatsApp, e não comprova que as demais denúncias sobre o alcance das publicações no Instagram tenham sido resolvidas.

Como se não bastassem as investidas parciais do ministro indicado por Jair Bolsonaro e da Meta, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, também ampliou os atos de irregularidades ao divulgar mensagens falsas sobre a manifestação em favor de Lula na Avenida Paulista. Ao disseminar desinformação, Tarcísio rebaixa o cargo de governador à militância ideológica ilícita. Outra investida denunciada pelo Intercept Brasil, em16/10, é de que Flávio Bolsonaro teria pago R$ 600 mil a empresa que comercializa nos EUA uma IA voltada à manipulação eleitoral. Documentos divulgados por um ex-consultor indicam que a Elytron teria oferecido uma operação clandestina baseada em inteligência artificial para identificar eleitores, criar perfis falsos, disseminar informações falsas e atacar adversários políticos. A campanha de Flávio Bolsonaro nega tal fato.

Até o presente, foram vários os mecanismos utilizados nesse sentido. Contando com apoiadores de seu campo ideológico nas esferas do Legislativo, dos governos estaduais e municipais bolsonaristas, além da Justiça, Flávio desvela sua falta de compromisso com a democracia quando pretende tutelar o debate público. Há histórico sobre esta questão na família. Seu pai, Jair Bolsonaro, ao afirmar que governaria “dentro das quatro linhas”, após perder G a eleição de 2022 produziu uma tentativa de golpe à democracia, inclusive com esboço de um plano de assassinato do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e de um ministro do STF.

No entanto, as preocupações com a lisura do processo eleitoral não se limitam às decisões judiciais e à atuação das plataformas digitais. As relações políticas e os episódios envolvendo aliados da candidatura de Flávio Bolsonaro também merecem atenção. Na quinta-feira, dia 15/10, Márcio Canella (União Brasil), segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, foi preso pela Polícia Federal, na oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma organização criminosa suspeita de lavar dinheiro por meio de postos de combustíveis. Ex-prefeito de Belford Roxo, Canella tem ligações políticas com Flávio Bolsonaro, que apoiou sua pré-candidatura ao Senado. O parlamentar também é alvo de suspeitas de vínculos com grupos milicianos.

É diante de fatos como esse, que expõem as relações políticas do candidato com figuras envolvidas em investigações, que chama a atenção a postura de Flávio Bolsonaro. A desfaçatez e a hipocrisia do candidato são tão abissais que, nesta semana, ao perceber a queda nas intenções de voto e as intensas manifestações de rua em favor de Lula, sua campanha entrou em modo de desespero diante da possibilidade de uma virada. Depois de Flávio se posicionar de forma totalmente contrária a um direito inquestionável dos trabalhadores, o fim da escala 6×1, ele mudou oportunamente de lado na véspera da votação no Senado, encabeçada pelo governo Lula, na tentativa de angariar alguns votos. Entretanto, conforme informações publicadas na coluna Painel da Folha de São Paulo, Flávio assegurou, em conversas reservadas com aliados e empresários, que, caso eleito, defenderá a revisão de pontos da PEC do fim da escala de trabalho 6×1. Essa revelação veio logo depois de o parlamentar ter anunciado publicamente que votaria a favor da proposta no Senado.

Mais uma vez Flávio não contraria seu caráter de mentiroso contumaz. Assim agem essas figuras deletérias da extrema direita absolutamente contrárias aos direitos trabalhistas, às melhorias das condições de trabalho e aos direitos previdenciários. Levando em conta esses aspectos, é incompreensível que parte do povo, absurdamente iludida, embarque na armadilha falaciosa de uma mudança para melhor. O que esse segmento terá, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, não será avanço, mas retirada de políticas públicas e perda de direitos arduamente conquistados pelos movimentos sociais. O risco é imenso.

Também é assustador e inacreditável imaginar que um candidato infinitamente despreparado, com um histórico político concretamente funesto e conhecido por todos, possa estar tecnicamente empatado nas intenções de voto com um estadista como Lula. Em seu terceiro mandato, o presidente voltou a tirar o Brasil do mapa da fome, do qual o país havia retornado durante o governo de Jair Bolsonaro, reduziu sensivelmente a desigualdade social, promoveu o desenvolvimento econômico sustentável e avançou na justiça fiscal, com ganhos sociais concretos, sentidos na vida dos brasileiros. Entretanto, o ódio ao Partido dos Trabalhadores foi tão bem articulado ao longo dos anos, não apenas pela extrema direita, mas também com o amplo apoio da mídia corporativa, financiada pela minoria rica, inclusive por figuras como Vorcaro, que parte da população já não consegue enxergar o abismo à sua frente. As consequências desastrosas de uma eventual chegada de Flávio Bolsonaro à Presidência poderão se manifestar em diversas áreas da vida nacional. Trata-se de uma figura nefasta que, ao longo de sua trajetória política, não apresentou realizações relevantes em benefício da população e que carrega o legado de uma família sem histórico recomendável. Por onde os Bolsonaro passaram, pouco ou nada fizeram pelo povo brasileiro, a não ser homenagear milicianos e atacar as mulheres, desrespeitando-as com ofensas bárbaras.

A rejeição ilógica ao PT por parte daqueles que declaram votar em Flávio impede que enxerguem o óbvio. Com seus votos, entregarão o país a mãos desqualificadas, alinhadas internacionalmente a governos destrutivos cujas políticas têm consequências desastrosas, como demonstram a brutal crise econômica e social na Argentina sob Javier Milei e a postura de Donald Trump, que pretende submeter o Brasil aos interesses estadunidenses. Isso significaria abrir mão de riquezas nacionais que, sob a liderança de Lula, poderiam ser negociadas por meio de parcerias estratégicas, capazes de gerar vantagens concretas para o desenvolvimento sustentável do país. É urgente que esse segmento da população abra os olhos para os riscos de um candidato com vínculos obscuros com milicianos, suspeito de corrupção, de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Diante desse conjunto de impropérios, cabe ao eleitor avaliar com seriedade as alianças políticas do candidato Flávio e os riscos que representam para as instituições democráticas. No dia 25 de outubro de 2026, o povo brasileiro estará diante de uma escolha que poderá definir os rumos do país por muitos anos, com riscos à própria democracia. Flávio demonstra, a cada dia, sua precária estatura pessoal e política. As suspeitas de ilicitudes que recaem sobre ele bastam para torná-lo inapto a governar a maior potência econômica da América Latina. Seria uma grave irresponsabilidade do povo brasileiro depositar nele essa confiança. Por fim cabe a pergunta:

Que Brasil queremos para o nosso futuro? Um país submisso, repressivo, que corta direitos sociais, enfraquece a proteção aos trabalhadores, se curva aos interesses exploratórios dos Estados Unidos sob Trump e convive com decisões judiciais parciais? Ou um Brasil soberano, democrático e socialmente justo, que defende seus interesses nacionais, valoriza seu povo e garante oportunidades e dignidade para todos?

Fonte: Brasil 247

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