Vorcaro interferia em vídeos de Gabriela Prioli para defender o Banco Master
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, acompanhava a produção de vídeos publicados pela advogada e influenciadora Gabriela Prioli e sugeria mudanças nos roteiros de conteúdos favoráveis à instituição financeira. Mensagens trocadas com a então superintendente de Comunicação e Marketing do banco, Ana Matos, indicam que o banqueiro tinha acesso antecipado às publicações e interferia na abordagem dos assuntos, inclusive solicitando alterações antes da divulgação nas redes sociais.
As informações foram reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo, que teve acesso a conversas extraídas do celular de Vorcaro. Segundo a reportagem, os diálogos também apontam a existência de um contrato de 12 meses com Prioli e de uma estratégia de comunicação que envolvia aproximadamente 15 influenciadores de diferentes posições políticas. A apresentadora nega qualquer vínculo comercial com o Master e afirma que o banqueiro jamais interferiu em seus conteúdos.
A documentação apresentada pelo jornal indica que a estratégia buscava defender a imagem do banco em meio às suspeitas sobre suas operações financeiras e às críticas da imprensa. Os vídeos eram divulgados como manifestações de opinião da influenciadora, sem identificação de eventual contratação pela instituição.
Em uma conversa de 6 de abril de 2025, Vorcaro comemorou a participação de Prioli na estratégia de comunicação. “Prioli foi melhor estrategia de todas disparado”, escreveu o banqueiro.
Mensagens apontam contrato de 12 meses e atuação de influenciadores
As conversas começaram a tratar da participação de Gabriela Prioli no início de abril de 2025, poucos dias depois da divulgação das negociações para a compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).
Em 4 de abril, Vorcaro demonstrou satisfação com a aproximação da influenciadora. “Prioli ótima tacada”, afirmou à responsável pelo marketing da instituição.
No dia seguinte, Ana Matos relatou ao banqueiro os resultados de uma reunião com Prioli e informou que os preparativos para uma publicação estavam em andamento.
“A conversa com a Prioli foi excelente. Estamos finalizando o roteiro do post que irá ao ar — ela é firme, tem opiniões claras. Tbm sou. Foi uma reunião boa. De forma prática: o contrato está assinado por 12 meses. Além disso, por três meses (renováveis ou não), teremos cerca de 15 influenciadores com alto engajamento. Estou avaliando os perfis disponíveis e incluindo gradualmente”, escreveu.
Segundo o Estadão, a estratégia incluía perfis identificados tanto com a esquerda quanto com a direita. A intenção era construir uma rede de apoio digital capaz de contestar notícias negativas sobre o Master e defender os interesses da instituição.
As mensagens também mostram que Vorcaro procurava influenciar a narrativa utilizada nas publicações. Ao comentar um conteúdo de Prioli sobre sua experiência em ambientes da alta sociedade paulistana, o banqueiro sugeriu associar sua própria trajetória às críticas recebidas pelo banco.
“Isso aqui é muito bom. Acho que no texto ela tem que me citar e os ataques pra explicar as fake news”, escreveu.
Em outra orientação, recomendou evitar referências partidárias que pudessem restringir o alcance das mensagens: “Tira PT. Pessoas querem politizar”.
Banqueiro pediu alterações em vídeo antes da publicação
Um dos episódios mais relevantes ocorreu em julho de 2025, quando Ana Matos encaminhou antecipadamente a Vorcaro um vídeo gravado por Prioli.
No dia 28 daquele mês, a executiva informou que havia articulado a publicação de matérias na imprensa e perguntou ao banqueiro se deveria divulgar o conteúdo da influenciadora.
“Pautei os veículos pra soltar materia amanhã. Temos a Prioli na manga. O que vc acha?”, escreveu.
Vorcaro respondeu: “Solta a prioli. Cade o video?”.
Após receber o arquivo, o banqueiro manifestou insatisfação com o material e solicitou mudanças, conforme os diálogos examinados pelo Estadão.
Dois dias depois, Ana Matos informou que as alterações haviam sido incorporadas e pediu autorização para publicar.
“Oioi. A Prioli está pronta pra soltar o vídeo. Ela absorveu nosso pedido. Tô sem margem de pedir mais alteração. Posso soltar? Ela está com mais de 6 milhões de seguidores. Vamos nessa. Tamo precisando de ajuda nessa guerra”, afirmou.
A mensagem indica que a equipe do banco considerava a participação de Prioli importante para enfrentar o desgaste da instituição e que pedidos de modificação haviam sido transmitidos à produção do conteúdo.
Vorcaro, entretanto, preferiu adiar a divulgação porque outro assunto dominava o noticiário. Na ocasião, o governo de Donald Trump havia anunciado sanções contra o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky.
Vídeos defendiam CDBs e questionavam críticas ao Master
A atuação atribuída a Prioli ocorreu em um momento de crescente questionamento sobre a situação financeira do Banco Master.
Em março de 2025, a divulgação das negociações para a aquisição da instituição pelo BRB havia provocado dúvidas sobre os riscos envolvidos na operação e a capacidade financeira do banco de Vorcaro.
Em um dos primeiros vídeos, publicado no início de abril, Prioli questionou a postura de instituições financeiras concorrentes diante do Master.
“Quem desdenha quer comprar?”, perguntou.
Na gravação, a influenciadora argumentou que bancos de médio porte costumavam oferecer rentabilidades superiores às dos grandes concorrentes para atrair investidores. Ao comentar as críticas ao Master, utilizou uma comparação com negociações imobiliárias.
“Parece aquela situação em que se coloca defeitos em um imóvel que se quer comprar.”
Prioli apresentou o conteúdo como parte de uma iniciativa pessoal para discutir assuntos financeiros, afirmando que abordaria o tema “não como especialista, mas como interessada”.
Em 18 de abril, Vorcaro sugeriu à executiva de marketing que a influenciadora produzisse um vídeo sobre os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) do Master, com o objetivo de estimular a permanência dos recursos dos investidores na instituição.
Em uma publicação que voltou a circular nas redes sociais, Prioli destacou a cobertura oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
“Esse investimento, o CDB, é mais seguro porque é garantido pelo FGC”, afirmou.
O FGC oferece proteção a determinados investimentos bancários dentro de limites e condições estabelecidos pelas regras do fundo. A existência dessa garantia, entretanto, não significa ausência de riscos nem cobertura ilimitada dos valores aplicados.
Equipe discutia ataques à imprensa e sigilo sobre estratégia
As mensagens também revelam a preocupação de Vorcaro com a cobertura jornalística sobre o Master.
Em 28 de maio de 2025, quando Ana Matos informou que preparava outro texto para Prioli e solicitou a opinião do banqueiro, ele respondeu: “Tem que bater em jornalista não no BTG”.
A orientação indicava a preferência de Vorcaro por direcionar as críticas aos profissionais da imprensa, em vez de concentrá-las no BTG, instituição financeira mencionada nas discussões.
Outro aspecto identificado nos diálogos foi a tentativa de manter reservada a estratégia de contratação de influenciadores.
Em 7 de abril, Ana Matos relatou que havia recebido comentários elogiosos sobre a participação de Prioli, mas evitava confirmar qualquer relação comercial.
“Thiago do Léo me perguntando sobre a Prioli. Não tô abrindo tá? Pra ngm. Segredo de três não eh segredo né? Quando alguém da parabéns faço de tonta. Ela, idem. Recebeu até gente querendo sondar via FSB. Fez de louca”, escreveu.
O relato sugere que a equipe de comunicação procurava preservar a aparência de independência das manifestações públicas favoráveis ao banco.
A reportagem identificou referências a pelo menos quatro publicações de Prioli relacionadas às discussões internas do Master. Os conteúdos mencionados não estavam mais disponíveis nos perfis da influenciadora quando o material foi examinado.
Gabriela Prioli nega contratação e interferência de Vorcaro
Procurada pelo Estadão, Gabriela Prioli contestou as informações e negou que tivesse mantido qualquer relação comercial com Daniel Vorcaro ou com o Banco Master.
Em nota, sua defesa afirmou:
“Daniel Vorcaro nunca editou, aprovou ou orientou qualquer conteúdo produzido por Gabriela Prioli. Conforme Prioli afirmou anteriormente, ela nunca foi procurada e/ou celebrou qualquer relação comercial com Vorcaro.”
A manifestação também questionou a ausência de documentos que comprovassem a suposta contratação e os pagamentos mencionados nas conversas.
“Onde estão as provas de todas as informações citadas? Onde está o suposto contrato? Onde estão os comprovantes dos supostos pagamentos?”, questionou.
A defesa acrescentou que todas as receitas profissionais da influenciadora estão documentadas e que não existem notas fiscais emitidas para a instituição financeira ou empresas relacionadas ao banqueiro.
“100% de seu faturamento está documentado por notas fiscais e, nenhuma delas foi emitida para o Banco Master ou empresas ligadas a Daniel Vorcaro, o que só reforça que Prioli não tem nenhuma relação comercial com eles.”
A nota também ressaltou que mensagens entre terceiros não demonstram, por si só, a participação da apresentadora nas tratativas.
“Conversas sobre Gabriela Prioli não são conversas realizadas com Gabriela Prioli. Suposições sem provas não são verdades. São apenas suposições”, afirmou.
As mensagens divulgadas pelo Estadão apresentam a versão dos interlocutores sobre a contratação e a produção dos vídeos, mas a reportagem não reproduz o suposto contrato assinado nem comprovantes de pagamento à influenciadora.
Ana Matos também foi procurada pelo jornal, mas não respondeu aos questionamentos.
Revelações ocorrem após crise e prisão de Vorcaro
A divulgação das conversas acrescenta novos elementos à controvérsia sobre a atuação de influenciadores digitais na defesa do Banco Master durante o período em que a instituição enfrentava questionamentos sobre suas operações.
As negociações com o BRB, anunciadas em março de 2025, ocorreram em meio a preocupações sobre a situação financeira do banco. Vorcaro acabou preso pela primeira vez em novembro daquele ano, no contexto das investigações sobre suspeitas de fraudes bilionárias.
Em janeiro de 2026, Prioli já havia publicado um vídeo no Instagram para negar que tivesse sido contratada para defender o Master ou participado de uma rede de influenciadores mobilizada para atacar o Banco Central, responsável pela análise regulatória da operação envolvendo o BRB.
As novas mensagens, segundo o Estadão, mostram que Vorcaro recebia informações sobre os conteúdos antes da publicação, sugeria mudanças nos roteiros e participava de decisões sobre o momento de divulgação dos vídeos.
A documentação coloca em discussão a transparência da comunicação patrocinada nas redes sociais e a distinção entre manifestações independentes de opinião e conteúdos produzidos no âmbito de estratégias empresariais de relações públicas. A existência de orientações internas do banco, contudo, permanece contestada pela defesa de Prioli quanto a qualquer participação ou conhecimento da influenciadora.
Fonte: Brasil 247