Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Os contos da indiana Banu Mushtaq são, em sua maioria, protagonizados por mulheres que vivem sob o frágil equilíbrio entre a submissão e a resiliência

A iminência do trágico perpassa cada um dos contos de Banu ­Mushtaq, escritora indiana que venceu o prestigioso International Booker Prize com Coração Iluminado, o primeiro livro de contos a conquistar o prêmio.

No livro, Banu se debruça sobre o cotidiano de meninas e mulheres muçulmanas dos pequenos vilarejos do estado de Karnataka, no sudoeste da Índia. São personagens que vivem e sobrevivem em um caldo de sabores, cores e sons, mas sobretudo de tradições religiosas que as colocam num lugar de frágil equilíbrio entre a submissão e a resiliência.

Coração Iluminado. Banu Mushtaq. Tradução: Julia Dantas. Instante (224 págs., 89,90 reais)

A própria escritora casou-se muito jovem e, conforme o costume, mudou-se para a casa da família do marido, onde tinha o dever de servir a ele, aos sogros e a outros 30 parentes. Poucos dias após o casamento, foi obrigada a abandonar o emprego de professora para se dedicar aos afazeres domésticos.

Sua tristeza era, porém, tão evidente que o marido a incentivou a voltar à escrita, sua grande paixão. Banu passou então a atuar como jornalista, tornou-se advogada e, nos anos 1970, foi uma das poucas mulheres a integrar o movimento literário Bandaya Sahitya, que denunciava o sistema de castas, a miséria, a opressão religiosa e a condição imposta às mulheres.

Publicados originalmente em canarês, os contos de Coração Iluminado tratam dos dramas de uma parcela da população indiana praticamente intocada pelos valores e hábitos ocidentais.

Boa parte deles tem mulheres como protagonistas. A autora é hábil em se aproximar de seus personagens com uma intimidade desconcertante, arrebatando o leitor com o desenrolar sempre inesperado dos acontecimentos. Não há promessa de redenção, mas uma pluralidade de pontos de vista que dispensa simplificações.

Em Najas Pretas, um dos contos mais bem-acabados e exasperantes, um julgamento está prestes a ocorrer na mesquita. O mutawalli (administrador do templo) deve decidir o destino de uma mulher abandonada pelo marido por não lhe ter dado filhos homens.

Na miséria absoluta, ela tenta exigir o mínimo para sustentar as três filhas – a mais nova é uma bebê faminta e doente que agoniza em seu colo. “Hoje em dia, nesses tempos, ainda existem pessoas assim?”, pergunta sua patroa, que a estimula a buscar seus direitos.

A pergunta ecoa por todas as histórias de Coração Iluminado – que, apesar de retratar um contexto tão singular, espelha muitas outras realidades atravessadas pelo patriarcado. Não à toa, o livro já foi traduzido para 35 línguas. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sob a iminência do trágico’


Débora Mamber

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Fonte: Carta Capital

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