Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Como na revolta estudantil do século passado, os protestos unem problemas internos a temas globais

Esgotadas pela Guerra da Argélia e pelo governo controverso de Charles de Gaulle, as manifestações de Maio de 1968 representaram uma geração em crise. Caracterizaram um movimento de transformação que se traduziu em desencanto político, mal-estar intelectual e recusa à manutenção das tradições. As mudanças visavam refletir uma geração que lutava por autonomia e liberdade na rígida estrutura educacional e contra um sistema universitário desigual. Não obstante, reafirmavam a revolução política e de costumes, o fim do autoritarismo e da Guerra do Vietnã.

O que parece ter ficado para a história encontra eco em outubro de 2026. O paralelo da autointitulada “Geração 6-7” se constrói a partir da própria noção de continuidade daqueles que se insurgiram anteriormente. Além disso, a crise migratória e os efeitos e consequências do colonialismo também aparecem nas regiões da Île-de-France e nos cartazes de papelão expostos nas fachadas das instituições de ensino, como no tradicional Lycée ­Henri-IV. No Lycée Saint-Louis, cenário emblemático de Maio de 1968, os cartazes não deixam de afirmar que, ao contrário do que o poeta francês Arthur Rimbaud pensava, pode-se, sim, ser sério aos 17 anos.

As atuais manifestações estudantis que se espalharam pela França a partir da segunda quinzena de setembro tiveram origem nas revoltas contra as precárias condições da educação pública, especialmente nas periferias da capital, Paris. “Não é normal que, nas nossas escolas dos bairros populares, tenhamos de conviver com ratos, que faça 40 graus dentro da sala em pleno mês de maio e até mesmo em setembro. Não conseguimos nos concentrar direito nas aulas”, relata um estudante de Argenteuil.

Em poucos dias, as reivindicações dos secundaristas ganharam a adesão das universidades. Nas manifestações de 6 de outubro, foram às ruas 266 mil alunos, segundo o Ministério do Interior, ou cerca de 450 mil, na estimativa dos organizadores. Em entrevistas realizadas com estudantes universitários manifestantes em 8 de outubro, uma das jovens enfatizou que a mobilização “é uma expressão da insatisfação da juventude, que não quer mais viver em um mundo marcado pelo racismo, pela discriminação contra os moradores dos subúrbios e pelo fato de que os colégios localizados no centro de Paris têm acesso a condições educacionais privilegiadas, às quais os estudantes dos subúrbios não têm”. Entre as demandas apresentadas, destacam-se: aumento do orçamento, a eliminação do Parcoursup – sistema de entrada no ensino superior –, investimento em recursos e infraestrutura, contratação de professores, eliminação da desigualdade no ensino e oposição à violência policial. A adesão universitária também alcançou instituições pouco propensas a esse tipo de mobilização. Em 8 de outubro, cerca de cem estudantes bloquea­ram a Universidade Panthéon-Assas, conhecida por sua forte presença de direita, em solidariedade aos secundaristas.

Os estudantes têm buscado construir formas autônomas e duradouras de organização, como a Federação dos Estudantes Secundaristas dos Bairros Populares. Contudo, a repressão aos bloqueios provocou ferimentos graves em adolescentes, incluindo a perda de uma mão de um estudante em Lens e a perda da visão de um olho de outro jovem em Tours.

Uma manifestante universitária afirmou: “Nós, no âmbito da convergência das lutas, estamos bloqueando a universidade para apoiar os estudantes do ensino médio, sobretudo diante de uma repressão que não víamos há muito tempo”. As demandas da classe estudantil, desse modo, são evidentes. “Estamos defendendo as nossas reivindicações. São reivindicações para que todos tenham o direito à educação, o direito de trabalhar em boas condições e a possibilidade de ter um futuro.”

A crítica ao massacre na Palestina foi incorporada às reivindicações dos manifestantes

Entre os manifestantes, a presença de símbolos da luta palestina não passa despercebida. Com o uso de keffiyeh – tradicional lenço palestino – e da bandeira, os jovens articulam as demandas nacionais com a solidariedade às lutas palestinas. Segundo relato de estudantes entrevistados, as manifestações não podem limitar-se a uma causa própria, mas devem abranger um chamado e uma solidariedade aos povos oprimidos. Com a atenção e o destaque dados pelas mídias nacionais e internacionais aos protestos, a utilização de símbolos palestinos foi identificada como uma estratégia para evidenciar que ainda há um genocídio em curso na Faixa de Gaza, bem como a violência que abrange os territórios ocupados da Cisjordânia.

Mas a questão palestina não é a única presente nos protestos. Bandeiras e chamados contra a violência no Congo, no Sudão e no Iêmen também se tornam pautas. Segundo uma manifestante, “a Palestina se tornou o símbolo de uma luta maior do que ela própria, uma luta contra o imperialismo e contra o sistema”. Os entrevistados relembram, no entanto, as repressões sofridas por manifestantes que utilizavam símbolos palestinos na França. “Nas mobilizações estudantis, esses símbolos sempre estiveram presentes. O que acontece é que, nos espaços públicos, há repressão a isso. E, quando estamos sozinhos, corremos mais riscos.” Esse relato é reforçado por outra entrevistada: “Este é um espaço no qual podemos exibir esses símbolos sem necessariamente sofrer repressão, receber insultos e ameaças ou ser vítimas de diferentes tipos de violência”.

Os manifestantes também tecem críticas ao posicionamento do atual governo francês em relação a essa pauta. “A Palestina se tornou o símbolo e a expressão de uma luta global que todos travamos contra um governo que não nos respeita e financia guerras e genocídios”, diz um manifestante.

Segundo uma entrevistada, as manifestações que eclodiram em diferentes partes do mundo em 2023, incluindo na França, levaram os jovens a um processo de conscientização e politização. “A Palestina está dentro de nós, no fundo dos nossos corações. Usaremos os keffiyehs, apoiaremos a resistência palestina e continuaremos a fazê-lo até a sua libertação.” •

*Karime Ahmad Borraschi Cheaito é doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas, atualmente em estágio de pesquisa doutoral no IRISSO da Universidade Paris-Dauphine PSL, em Paris; Carlos Eduardo Rezende Landim é doutorando em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas, atualmente em estágio de pesquisa doutoral no IHEAL-CREDA da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris; Daiani da Silva Barbosa é doutoranda em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente em estágio de pesquisa doutoral no CELLF da Sorbonne Université, em Paris.

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘6-7 e 68’


Karime Ahmad Borraschi Cheaito


Daiani da Silva Barbosa


Carlos Eduardo Rezende Landim

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Fonte: Carta Capital

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