‘Somos locos por ti, Brasil’: Lula e a América Latina
Por Bia Abramo — ICL Notícias
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x
Por Tâmis Parron e Raimunda Monteiro*
A derrota parcial de Lula para Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições contrasta com a onda de entusiasmo latino-americano que inundou as redes sociais às vésperas do primeiro turno e cresceu ainda mais na última semana. Os brasileiros, acostumados a cantar “Soy loco por ti, América”, escutaram uma espécie de “nós é que somos loucos por ti, Brasil.” Energizados por efeitos especiais, muita MPB e um remix de hits brasileiros com ritmos afro-latinos, influencers e comunicadores da Colômbia, México, Argentina, Chile e República Dominicana postaram vídeos e mensagens sobre nosso pleito. A maioria esmagadora está gritando por Lula, não por Flávio.
Talvez seja a maior presença espontânea do campo progressista latino-americano nas eleições do Brasil desde 1988, até porque a geração Z nunca tinha vivido na pele um grau tão alto de interferência externa, liderada pela coalizão internacional de direita, na vida política do Continente. A “ola” digital apresenta conteúdos que associam a vitória de Lula à sobrevivência das democracias latino-americanas. “Parece que Lula está aspirando à presidência da América Latina”, resumiu o deputado colombiano Alejo Toro. Não é difícil entender os motivos do movimento.
A América Latina vem ocupando uma posição crítica no tabuleiro geopolítico dos Estados Unidos. Para Donald Trump, a região deve servir aos interesses de uma república cada vez mais castigada pela competitividade chinesa. Seu papel seria servir de estoque de matérias-primas e petróleo baratos para a estratégia MAGA (América Grande de novo) e para a base industrial das big techs. “A Doutrina Monroe é uma grande coisa”, disse Trump depois de invadir a Venezuela. “Mas fomos muito além dela. Agora a chamam de Doutrina Donroe.”
Washington segue a Doutrina Donroe submetendo os países da América Latina a um alinhamento de dependência por duas vias. Uma é a intervenção militar, como na Venezuela, que impôs a troca forçada do comando político do país, com sequestro do presidente e de sua esposa. A outra é a via eleitoral. Trump apoia, no discurso e na prática, candidatos da direita nas eleições latino-americanas. Embora as votações resultem de causas complexas, seus esforços renderam. Desde que assumiu a Presidência em janeiro de 2025, Trump viu a direita ganhar as sete últimas eleições presidenciais da América Latina: Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica, Peru e Colômbia. Se levar no Brasil, são 8×0.
Trump cruza tantas vezes a linha da soberania que é fácil concluir que está metendo seu dedo na vontade popular latino-americana. Seu governo coagiu ministros do STF com a Lei Magnitsky, pressionou a Suprema Corte panamenha a anular contratos de concessão de terminais portuários do Canal do Panamá a uma empresa chinesa e apoiou a recente prisão do procurador-geral da Bolívia que apertava o cerco a Fernando Cerimedo, um articulador de redes digitais globais da extrema direita, envolvido no Putsch de 8 de Janeiro, investigado por narcotráfico e acusado de tentativa de feminicídio.
Por que então Trump não colocaria, furtivamente, a infraestrutura institucional das big techs a seu serviço? “Ingerência imperialista” é o grito de guerra das postagens da grande onda de apoio a Lula. Para muitos, o Brasil se tornou a última fronteira democrática da América do Sul e um palco essencial para o destino das eleições mexicanas no ano que vem.
Lula representa tudo o que é avesso à Doutrina Donroe. Contra o unilateralismo, ele defende uma ordem multipolar inclusiva. Contra as intervenções militares e a pressão sobre o judiciário, advoga a soberania do sul global. Contra acordos comerciais que reduzem a América Latina a um estoque barato de matérias-primas dos Estados Unidos, defende a agricultura brasileira, em especial a familiar, e o investimento industrial estratégico. Lula valoriza a ciência, apoia os acordos climáticos da ONU e se opõe ao negacionismo de Trump.
A ação digital dos latino-americanos evoluiu para uma rede internacional do campo progressista e atraiu lideranças regionais. O ex-presidente colombiano Gustavo Petro e sua vice, Francia Márquez, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum, e o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, publicaram mensagens apoiando Lula. Uma das frases mais lembradas é “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, que Lula proferiu na Assembleia Geral da ONU. “América Latina no cabe en el patio trasero de nadie”, virou o lema espontâneo do hemisfério contra o trumpismo global.
Até 25 de outubro, veremos com ainda mais nitidez como a internacionalização da direita está produzindo uma internacionalização da resistência democrática, com a ola latina se expandindo para a África, o Oriente Médio e a Europa. A esperança é que a mobilização consolide uma rede permanente de ação digital no campo progressista, para resistir à internacional do reacionarismo que alinha os conservadores do mundo, enquanto não dispomos de uma soberania digital protegida contra as big techs. Essa batalha, que agora encontra eco nas ruas do Brasil, já sinaliza um vértice histórico, na arena global, da resistência popular contra a morte das democracias.
* Tâmis Parron é historiador e professor da Universidade Federal Fluminense. Foi pesquisador visitante em Havard e no Instituto Max Planck de Teoria e História do Direito (Frankfurt). Raimunda Monteiro é comunicóloga e professora na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), com pós-doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Coimbra.
Informações em primeira mão! Siga o canal do ICL Notícias no WhatsApp
Acesso total a mais de 300 cursos, materiais e séries! Seja Membro ICL
Siga e acompanhe as atualizações do ICL Notícias também pelo Google News
Relacionados
Erika Hilton diz que PSOL cometeu erro estratégico na campanha e admite chance de sair do partido
Parlamentar afirma que há possibilidade de ir para o PT em 2027
Kassio atende Flávio e suspende circulação de jornal de sindicato dos petroleiros
Sindicato dos Petroleiros de São Paulo classificou medida de censura
Com tanto pra se fazer, com tanto pra se salvar
Vitoriosas ou derrotadas no dia 25, as forças da democracia social apenas começaram sua batalha nestes tempos fraturados, nesta nova era dos extremos
Carregar Comentários
Fonte: ICL Notícias




