Transmissão de fuzilamento nos EUA em rede de TV é voyeurismo punitivo
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Publicado em 12 de Outubro de 2026 às 03:50
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O anúncio de que a execução do ex-psiquiatra militar Nidal Hasan será transmitida ao vivo em rede pública transcende o mero debate jurídico sobre a pena capital. A decisão orquestrada pelo governo dos Estados Unidos, capitaneada pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, com o aval do presidente Donald Trump, marca a ruptura formal do Estado contemporâneo com os princípios mais elementares da dignidade humana.
Sob a justificativa da retribuição, resgata-se não a justiça, mas o suplício medieval transfigurado em entretenimento de massas.
Não se trata de relativizar a gravidade dos atos cometidos por Hasan. Em novembro de 2009, o atentado promovido por ele em Fort Hood ceifou 13 vidas e deixou dezenas de feridos, cravando uma ferida profunda na memória coletiva. A condenação à morte, proferida por um júri militar em 2013 e mantida após o esgotamento dos recursos cabíveis, já representava a resposta máxima do ordenamento jurídico norte-americano.
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No entanto, a decisão de converter a aplicação da pena, mediante pelotão de fuzilamento, no dia 3 de dezembro de 2026, em um espetáculo midiático adiciona um componente de grotesca perversidade à sanção estatal.
A transmissão ao vivo da morte de um ser humano em praça pública virtual desce ao nível do sadismo institucional. Historicamente, a transição da execução pública para a privacidade dos muros das prisões não foi um mero capricho arquitetônico, mas um marco na evolução das civilizações.
O filósofo Michel Foucault, em “Vigiar e Punir”, demonstrou como o fim dos suplícios públicos buscou retirar do Estado o papel de carrasco vingativo e evitar a degradação moral da sociedade espectadora. Ao resgatar a execução pública, e ainda por cima a primeira militar em mais de 60 anos, o governo norte-americano aparelha a máquina de violência estatal para transformá-la em propaganda política e circo de vingança.
O argumento de que o espetáculo atende ao clamor por justiça é uma falácia perigosa. A verdadeira justiça fundamenta-se na sobriedade da lei e na preservação dos limites morais que diferenciam a civilização do crime.
Quando a execução se torna um programa de televisão agendado para o horário nobre, o Estado curva-se ao voyeurismo punitivo e instrumentaliza a dor das próprias vítimas como mercadoria política. Não há justiça no voyeurismo da morte, há apenas a degradação ética do espectador e a dessensibilização da sociedade perante a violência desmedida.
Trata-se de uma medida eivada de desumanidade, que abre um precedente tenebroso no direito internacional e na cultura ocidental. Ao flertar abertamente com a barbárie performática, os Estados Unidos enfraquecem sua autoridade moral e normalizam a crueldade como instrumento de poder.
A morte de Nidal Hasan no pelotão de fuzilamento não trará de volta as 13 vítimas de Fort Hood, tampouco tornará o mundo mais seguro. Apenas confirmará que, na busca por punir, o próprio Estado aceitou vestir a sua carapuça.
Verônica Bezerra
É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública
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