Mendonça não soube que Vorcaro acusou Lula?
Por Eduardo Guimarães — Brasil 247
Relator do caso Master, André Mendonça centralizou em seu gabinete provas coletadas em operações da PF. Provas brutas, ou seja, provas sem perícia feita pela corporação e que seriam escrutinadas sob a supervisão amiga de delegados ligados ao ministro.
O próprio Mendonça relatou que negociou com os advogados de Vorcaro a delação que seu cliente ofereceu e que foi recusada três vezes tanto pela PGR quanto pela força-tarefa da PF ligada ao ministro e incrustada em seu gabinete.
O bem informado leitor deve se lembrar de que um Mendonça indignado vociferou no Plenário do Supremo, diante dos colegas, que os advogados de Vorcaro lhe ofereceram uma “delação seletiva”.
Não se sabe se isso foi antes ou depois de o indignado ministro ganhar 5 milhões de reais de um laranja do ex-banqueiro para montar seu lucrativo negócio de cursos de oratória, que lhe rendeu 5 milhões de reais no ano passado e mais 5 neste ano.
A revista Veja quer nos fazer crer que Paulo Gonet, o procurador-geral da República — que, juntamente com a PF, negociava a delação com a defesa de Vorcaro — recusou a oferta dele de acusar Lula sabendo haver provas testemunhais e documentais. E fez tudo isso sem a Polícia Federal (de Mendonça) saber.
Em 9 de outubro de 2026, a Veja publicou áudio atribuído a Daniel Vorcaro em que o banqueiro afirma ter pago cerca de R$ 30 milhões em espécie ao Instituto Lula para produzir o documentário de Oliver Stone intulado, simplesmente, “Lula”.
O cineasta americano afirma que jamais ouviu falar de Daniel Vorcaro. Stone, segundo a Veja, teria recebido 5 milhões de dólares para fazer um documentário que se resume a imagens de arquivo e entrevistas com diversos atores políticos ao longo de 90 minutos.
O esquema envolveria João Vaccari Neto para viabilizar o credenciamento do Banco Master em fundos de pensão. Veja não detalha se algum desses “fundos de pensão” enterrou bilhões no banco Master como os governadores bolsonaristas.
O áudio divulgado por Veja distingue a doação multimilionária que teria sido dada a Lula daquela que foi efetiva e comprovadamente dada a Flávio Bolsonaro para fazer o filme Dark Horse.
A Veja não explica por que Lula teve que dar contrapartida a Vorcaro via fundos de pensão “controlados” por Vaccari e Flávio não precisou dar nada em troca de um valor quatro vezes maior que o dado ao filme sobre a trajetória do atual presidente da República.
Segundo a Veja, doação de Vocaro para o filme do cineasta americano sobre Lula seria “por fora” e “errado”, e o dinheiro doado a Flávio seria “patrocínio normal”.
Uma coisa a Veja já confessou: Vorcaro gosta muito mais do filho primogênito do Jair e do próprio Jair, pois, além de aceitar doar a Flávio 135 milhões de reais para a cinebiografia bolsonariana, doou 5 milhões para a candidatura de Bolsonaro e Tarcísio em 2022.
Detalhe: naquela eleição, Vorcaro não doou mais nada a mais ninguém.
Mas a estranheza não para por aí. À jornalista Daniela Lima, os advogados de Vorcaro negaram que a voz na gravação seja dele e garantem que ele jamais ofereceu delação alguma.
Veja emitiu nota neste sábado 10 sobre “mitos e verdades” relativos à matéria infame que publicou na sexta 9. Disse que o advogado de Vorcaro Daniel Bialski afirmou que reconheceu a voz do seu cliente na gravação da revista. E que foi isso que sustentou a matéria todinha.
Uau!, provavelmente a revista Veja nunca ouviu falar de reprodução de vozes via Inteligência Artificial. O autor da matéria, Robson Bonin, iria se surpreender. Fica igualzinho. Ele não reconheceria a voz da própria mãe, se reproduzida por IA.
Bonin e seu patrão tampouco devem ter ouvido falar em perícia fonética. Compara a voz de um áudio questionado com uma amostra padrão conhecida de um suspeito para verificar semelhanças e traços únicos.
Tal perícia é condição sine qua non para publicar uma matéria baseada em gravação que atinge diretamente a honra de alguém, principalmente se esse alguém for presidente da República.
O ex-banqueiro ainda não se pronunciou, mas a negativa de seus advogados induz à crença da PF de que a gravação seja uma farsa produzida pela revista Veja em conluio com Flávio Bolsonaro.
Em caso de a gravação ser verdadeira, a suspeita maior recai sobre o relator do caso Master. Se houvesse acordo entre PF e/ou PGR com Vorcaro sobre essa delação contra Lula, o acordo teria que ser homologado por André Mendonça, que jamais disse um A sobre o assunto.
Vorcaro está custodiado na Papudinha sob regras definidas por Mendonça. De um presídio de segurança máxima, foi para a aprazível Papudinha do Jair, com casa de 50 metros quadrados, área para churrasco, academia, wi-fi, tevê a cabo, cama de casal etc., etc., etc.
O relator homologa monocraticamente qualquer acordo de colaboração premiada, verificando voluntariedade, regularidade e legalidade. Mendonça teria que estar disposto a homologar uma delação grosseira e sem provas.
Além disso, se Vorcaro não estiver mentindo sobre não ter feito acusação alguma, perícia do áudio irá mostrar. E a PF a fará, porque emitiu nota dizendo que já está investigando tudo.
Se o áudio tiver sido forjado, Robson Bonin, autor da matéria em questão, bem como seu patrão, ou seja, a revista Veja, estarão atolados em problemas até os respectivos pescoços. Terão que explicar por que não fizeram uma perícia antes de acusação tão grave.
Mas se houve a proposta de delação de Vorcaro, Mendonça sabia e sequer pediu perícia fonética. Nem comunicou uma vírgula à PF, pois, segundo a Veja, a proposta indecente do ex-banqueiro foi feita só a Gonet, que recusou porque a prova sem perícia era ruim para o amigão Lula.
Na melhor das hipóteses, o autor da matéria, Robson Bonin, e a Veja podem ter cometido crimes de calúnia e divulgação temerária.
O tipo penal está inserido nos termos do art. 138, § 1º, do Código Penal: “quem, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga, incorre na mesma pena”. A empresa também responde civilmente por má-fé ou culpa grave na divulgação, conforme Tema 995 do STF.
Fonte: Brasil 247