Por Leonardo Miazzo — Carta Capital

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Jornalista especializado em energia. Apaixonado por vinho e gastronomia, área em que teve Mino Carta como mentor, mantém os sites pisandoemuvas.com e vinhosemsegredo.com

Vencedor da mostra de São Paulo do ano passado, longa iraquiano mostra que a busca por ingredientes básicos para celebrar Saddam Hussein revela autoritarismo e a perda da infância

A receita é simples. Está anotada a lápis no caderno que Lamia leva para a escola. Três ovos, que representam a fertilidade. Um quilo de farinha de trigo, a vida. Quinhentos gramas de açúcar, para que a vida seja doce. Fermento, para o bolo ficar fofo. Os ingredientes são simples, mas consegui-los é uma tarefa hercúlea. Estamos no Iraque em 26 de abril de 1990. Pela invasão do Kuwait, sanções econômicas foram aplicadas sobre o país. Filas se formam para obter um balde de água, famílias dividem um ovo por semana.

Faltam dois dias para o aniversário de Saddam Hussein. E o ditador determinou que, apesar das sanções, é preciso celebrar. Reunir quatro ingredientes se provará uma odisseia para uma menina de nove anos. Lamia tentou evitar, como sua avó tinha alertado um dia antes. Rezou, mas não deu certo. Na hora do sorteio, pediu para ir ao banheiro, mas não adiantou. Os alunos põem os nomes numa lata, com exceção de um aluno que lembra o professor que seu pai consertou a bicicleta do professor sem custo.

Com o sorteio, o professor, que se apresenta à classe como soldado, distribui as tarefas da festa. A Said cabem as frutas. A ela cabe a honraria máxima – o bolo do presidente. O professor avisa que terá de delatar quem descumprir as regras e lembra o colega que não honrou o aniversário do presidente: foi “arrastado como um cachorro”, com a família.

Naquela mesma manhã, a avó de Lamia, Bibi, tinha sido dispensada pelo dono da terra em que trabalhava. As duas vivem numa casa de junco nos pântanos do sul do Iraque, e a menina, primeira da turma, vai à escola de canoa, sozinha. No dia seguinte, Bibi embrulha um rádio, um relógio de bolso (que era do pai de Lamia) e alguns pratos. As duas pegam carona com um carteiro até a cidade, com o galo de Lamia, Hindi, a tiracolo. Vão tentar comprar os ingredientes.

O Bolo do Presidente , primeiro longa do iraquiano Hasan Hadi, ganhou em Cannes, em 2025, a Caméra d’Or, o prêmio para filmes de estreia. Cinco meses depois levou o Prêmio do Júri de melhor filme na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Passou pelos cinemas brasileiros em junho e acaba de chegar à HBO Max. 

Na cidade, uma multidão se espreme numa loja e agita cédulas como num leilão, atrás de farinha. Uma família de quatro pessoas chega a dividir um ovo por semana. A receita pede três. Lamia se perde da avó e reencontra Said num parque de diversões, com a mão no bolso de um desconhecido. A polícia corre atrás dele, ela corre junto, e os dois passam o resto do dia atrás da lista. Comerciantes usam comida como isca para sexo, e um deles mira a menina. Ela viaja pendurada no para-choque de um ônibus cuja passagem não pode pagar. Tem horror a roubo, mas acaba roubando. 

O diretor do filme, Hadi, hoje com 37 anos, contou que os bolos que chegavam à escola tinham destino certo. “O professor geralmente levava para casa, para a família”, contou ao Guardian . Ele mesmo só comeu bolo pela primeira vez aos 13, 14 anos. Antes disso havia uns doces de tâmaras grudadas, “deprimentes”, feitos para enganar criança, e havia as padarias. “Eu passava horas, às vezes, olhando os bolos na vitrine.” Antes das sanções, disse Hadi ao jornal inglês, um professor iraquiano podia ganhar 800 dólares por mês; depois, 5. 

O caderno de Lamia diz para que serve cada ingrediente: os ovos, a fertilidade; a farinha, a vida; o açúcar, a doçura. Ela deixa em branco para quem será oferecido o bolo. Não é preciso. O culto ao ditador está presente no hino em que a escola abre suas portas, na saudação quando o professor entra na aula, em cartazes nas ruas, em fotos em todos os prédios públicos, em carros públicos que cortam a cidade homenageando o ditador. 

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Roberto Rockmann

Jornalista especializado em energia. Apaixonado por vinho e gastronomia, área em que teve Mino Carta como mentor, mantém os sites pisandoemuvas.com e vinhosemsegredo.com

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Fonte: Carta Capital

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