Che Guevara: como o famoso retrato de 1960 se tornou ícone da rebeldia do século 20
Por Gabriel Vera Lopes — Brasil de Fato
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Foi apenas uma questão de segundos. Os rostos entristecidos da multidão acompanhavam o cortejo fúnebre das vítimas da explosão de La Coubre. A poucos metros da entrada do cemitério de Colón, uma tribuna improvisada na parte traseira de um caminhão encabeçava a procissão. O povo chorava seus mortos. Era ali mesmo que o povo cubano voltaria a se reunir tantas vezes para se despedir de seus filhos, vítimas dos atentados terroristas que se multiplicariam nas décadas seguintes.
De pé na tribuna, Che observava a multidão enquanto acompanhava atentamente os comentários — quase sussurrados — que o presidente Dorticós fazia a Raúl e aos intelectuais Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, que, naqueles dias, visitavam a ilha para conhecer de perto o processo revolucionário. A voz de Fidel retumbava pelos alto-falantes, com um timbre metálico. Olhando para fora, Che deu alguns passos à frente, com o olhar por cima do ombro. Foi naquele instante que Alberto Díaz Gutiérrez apertou duas vezes o disparador de sua câmera Leica, pouco antes de Che se retirar: uma vez na horizontal e outra na vertical.
Em seu discurso inflamado, Fidel pronunciaria a palavra de ordem que marcaria indelevelmente a Revolução: “Só que agora liberdade quer dizer algo mais: liberdade quer dizer pátria. E a nossa alternativa seria: pátria ou morte!”
Assim que o ato terminou, Díaz Gutiérrez, conhecido na época como Korda, apressou o passo para voltar à redação do jornal Revolución, onde, naquela mesma tarde, entregou o rolo fotográfico aos editores. A foto de capa do jornal de 6 de março seria a imagem de Fidel com a bandeira cubana ao fundo.
Sem saber, Korda guardava naquele rolo a fotografia que, anos depois, se transformaria em uma das imagens mais reproduzidas da história da humanidade e em um dos símbolos mais poderosos do século 20. No laboratório de seu estúdio, localizado na esquina das ruas 21 e 15, Korda descobriu o gesto e o olhar de Che naquela fotografia que havia tirado quase por acaso. Interveio na imagem para eliminar a palmeira à direita e o perfil de Jean-Paul Sartre à esquerda, centralizando a composição no rosto de Che. Durante anos, a fotografia permaneceu pendurada em seu estúdio.
“Essa foto praticamente permaneceu desconhecida, e foi somente após a morte de Che que começou a ser divulgada pelo mundo”, explica ao Brasil de Fato o historiador e membro da União de Jovens Comunistas (UJC), Alejandro Sánchez Fernández.
Sánchez Fernández explica que, em meados de 1967, Ernesto Che Guevara estava há dois anos fora da cena pública. Naquele momento, já havia deixado Cuba e, após participar da experiência guerrilheira no Congo, havia se deslocado para a Bolívia com o objetivo de estender o processo revolucionário ao Cone Sul.
Naquele momento, Che já era uma figura de enorme projeção internacional, e sua dedicação à causa revolucionária começava a adquirir uma dimensão mítica. Em agosto de 1967, Giangiacomo Feltrinelli, editor italiano ligado à esquerda radical e fundador de uma das editoras mais influentes da Europa, viajou a Cuba com o objetivo de negociar os direitos de publicação das obras escritas de Che e obter a primazia sobre seus diários de campanha na Bolívia.
Em Havana, Feltrinelli entrou em contato com Haydée Santamaría, presidenta da Casa de las Américas e uma das figuras centrais na projeção cultural da Revolução Cubana. Foi ela quem lhe indicou que procurasse Alberto Korda, fotógrafo do jornal Revolución, para ajudá-lo a encontrar material gráfico com o qual ilustrar as publicações sobre Che que pretendia lançar na Europa.
No estúdio de Korda, o editor italiano encontrou a ampliação do lendário retrato de Che, que estava pendurada havia anos na parede do ateliê. Impressionado com a intensidade do olhar, pediu cópias da imagem, e Korda lhe presenteou com duas ampliações de 30 por 40 centímetros.
Poucas semanas depois, já de volta à Itália, Feltrinelli recebeu a notícia do assassinato de Che em La Higuera, na Bolívia, que abalou o mundo. “Como uma ação de propaganda, Feltrinelli utiliza os cartazes que Korda lhe havia dado e manda imprimir centenas de cópias, que distribui nas mobilizações que acontecem. Rapidamente, as principais cidades da Itália aparecem cobertas de cartazes com o rosto de Che”, aponta Sánchez Fernández.
Na época, o artista irlandês Jim Fitzpatrick tomou como referência a imagem de Korda, difundida por Feltrinelli, para criar um desenho gráfico pop de alto contraste, com o rosto estilizado em preto e vermelho. A imagem ficou estreitamente associada à serigrafia e ao cartaz político.
“Apenas alguns meses depois, em julho de 1968, Feltrinelli publicou o diário de Che Bolívia, cuja capa trazia o retrato de Korda. Sua divulgação coincidiu com o ciclo de mobilizações juvenis da época, uma onda de questionamentos à ordem estabelecida que se manifestou em diferentes partes do mundo: desde o Maio Francês e o Outono Quente na Itália até as mobilizações estudantis de Tlatelolco, no México, e os protestos no Brasil, marcados pelo assassinato do estudante Edson Luís”, explica Sánchez Fernández.
“Onde quer que os jovens tenham saído às ruas para reivindicar mudanças no sistema, com palavras de ordem como ‘a imaginação no poder’ e tantas outras de 1968, levaram a imagem de Che como estandarte”, afirma.
Desse modo, Che se tornou não apenas um símbolo moral da luta contra o imperialismo e um estandarte da nova esquerda que emergiu no final dos anos 1960 e ao longo dos anos 1970, mas também um ícone da cultura popular e juvenil da época.
Em Cuba, após a morte de Che, sua figura foi incorporada ao emblema da União de Jovens Comunistas (UJC), criada em 1962. Até então, o emblema incluía apenas Julio Antonio Mella, Camilo Cienfuegos e os fuzis.
A imagem de Che, marcada por sua morte prematura e sua dedicação à causa revolucionária, foi atravessada desde o início por uma dualidade: foi símbolo de ideais políticos, mas também de uma rebeldia juvenil nem sempre claramente politizada. Mario Tatu Albarello, jovem artista cubano, aponta essa dualidade entre a comercialização da figura de Che e sua irreduzível força contestatória. Uma imagem que pode aparecer tanto em uma camiseta à venda em um shopping quanto em uma pichação da resistência palestina em Gaza.
Albarello explica que, na década de 1990, após a queda do socialismo europeu, a imagem de Che voltou a adquirir uma presença particular em Cuba. Por um lado, foram anos em que sua figura voltou a ocupar um lugar central no discurso oficial. Em 1993, uma enorme escultura de bronze foi instalada na fachada de um edifício da Praça da Revolução, obra do escultor Enrique Ávila González, baseada diretamente na fotografia Guerrilheiro Heroico, feita por Alberto Korda.
Além disso, o 30º aniversário de seu assassinato foi acompanhado de diversas comemorações que tiveram repercussão internacional. Em 1997, cientistas cubanos identificaram os restos mortais de Che na Bolívia e conseguiram que fossem trasladados para Cuba. Naquela época, foram publicadas duas biografias monumentais de Che: a do escritor mexicano Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara, também conhecido como Che, e a do jornalista Jon Lee Anderson, Che Guevara: Uma vida revolucionária.
Mas também foram os anos difíceis do Período Especial. Albarello aponta que, durante essa etapa, a utopia revolucionária parecia se apagar em meio às crescentes dificuldades do cotidiano. “Che também aparece como uma figura de rebeldia diante da crescente corrupção e burocracia estatal, diante das desigualdades que começavam a surgir. Uma figura que canalizou muito do crescente mal-estar, sobretudo entre os setores sociais mais desfavorecidos”, afirma.
Nas cenas underground do rap e do rock, com posturas desafiadoras diante do Estado, a imagem de Che também era adotada como símbolo de contestação. “A figura de Che se encaixa muito bem no que seria a iconografia ou a ideia do que é um roqueiro ou um rapper. Com essa ideia de que é preciso sempre dizer a verdade. Conheço aqui rappers da velha escola que têm uma tatuagem de Che no braço.”
“Estamos falando de pessoas que nasceram nos anos 1980 ou no final dos anos 1970. Jovens que haviam crescido sob a utopia revolucionária e que, de repente, viam sua juventude transcorrer em meio a enormes dificuldades. De alguma forma, para esses setores, a imagem de Che era como a imagem da promessa revolucionária que eles sentiam ter sido frustrada ou não cumprida. A imagem de um revolucionário heroico, totalmente dedicado à causa, inimigo de toda desigualdade, que nem sempre viam em todos os funcionários”, reflete.
No final dos anos 1980 e durante a década de 1990, após as derrotas históricas do movimento revolucionário e em pleno auge do neoliberalismo, a cultura popular underground — aquela que muitas vezes não tinha espaço nos meios de comunicação — tornou-se um refúgio para as aspirações de transformação social de milhares de jovens da classe trabalhadora, cujas condições de vida se precarizavam rapidamente.
“É muito difícil dissociar a cultura alternativa que surge naquela época de sua rebeldia contestatória”, afirma Julia Baquerisa, editora e crítica de arte argentina. Expressões como o futebol e a música popular incorporaram amplamente as imagens de Che.
Na década de 1980, diversas torcidas ligadas às classes trabalhadoras na Europa incorporaram a imagem de Korda/Fitzpatrick a seu repertório de símbolos. As arquibancadas de equipes como o St. Pauli, formado por punks, ocupantes de prédios, estudantes e trabalhadores na Alemanha; a Fiorentina e o Livorno, berço do Partido Comunista, na Itália; e o Rayo Vallecano, localizado em um bairro de tradição operária e antifascista na Espanha, começaram a utilizar a figura de Che em suas bandeiras.
Da mesma forma, aponta Baquerisa, os movimentos culturais surgidos nas periferias urbanas, como o rock pesado na Argentina e o hip-hop no Brasil, começaram a abordar explicitamente questões políticas. Sua dimensão contestatória também se expressava nas histórias que contavam. “Falavam da miséria daqueles jovens que cresciam sem perspectivas de conseguir um emprego, que sofriam com a violência policial e que, sobretudo, rejeitavam a cultura hiperconsumista que começava a ser vendida em massa pela cultura oficial”, afirma.
Baquerisa aponta que, naquele contexto, a imagem de Che voltou a ganhar relevância como um código contracultural de rejeição ao sistema. “No início dos anos 1990, entre os fãs do La Renga, uma banda argentina que não aparecia nos meios de comunicação nem fazia publicidade de seus shows como forma de não se vender ao sistema, começou a circular um canto que dizia: ‘Uma bandeira que diga Che Guevara e um par de rock and rolls’”. Com o tempo, o La Renga se tornaria uma das bandas mais populares do país.
A palavra de ordem situa Che dentro dessa “cultura do aguante”, na qual a identificação com o guerrilheiro se entrelaça com a rebeldia e a rejeição às regras da indústria cultural.
Naqueles anos, as tatuagens começavam a se disseminar, embora ainda carregassem o estigma da marginalidade. Longe da aceitação social que têm hoje, continuavam associadas às margens da sociedade. Em 1995, Diego Maradona tatuou no braço direito a imagem de Che feita por Korda. Alguns anos mais tarde, na década de 2000, o boxeador Mike Tyson também tatuaria o rosto do guerrilheiro.
“Por que será que Che tem esse perigoso costume de continuar nascendo? Quanto mais o insultam, o traem, mais ele nasce”, escreveu, com enorme precisão, Eduardo Galeano. Cinquenta e nove anos após sua morte, Che continua presente nas lutas populares que percorrem o mundo.
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Fonte: Brasil de Fato