Consórcio internacional do projeto do reator de pesquisa MBIR, da Rússia, amplia rede de parceiros
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
247 – O Centro Internacional de Pesquisa (IRC MBIR), criado em torno do reator de pesquisa multifuncional de nêutrons rápidos MBIR, atualmente em construção na Rússia, continua crescendo com a adesão de novos parceiros russos e internacionais. Esse interesse foi confirmado durante a terceira reunião do Conselho Consultivo do Centro, que reuniu, em Tashkent, mais de 150 participantes de 72 organizações de 18 países, incluindo representantes de organizações internacionais.
O encontro ocorreu em 29 de setembro de 2026, no Instituto de Física Nuclear da Academia de Ciências da República do Uzbequistão (INP AS RUz). Os participantes discutiram testes de combustíveis e materiais para reatores de próxima geração, produção de radioisótopos médicos, gestão segura de resíduos radioativos, validação de códigos de cálculo e formação de profissionais especializados.
A mensagem oficial da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aos participantes foi apresentada por Petr Chakrov, chefe da Seção de Reatores de Pesquisa da agência. Ele destacou a importância fundamental das pesquisas em ciência dos materiais para o desenvolvimento de tecnologias avançadas de energia nuclear e observou que as capacidades do MBIR, considerado o reator de pesquisa de nêutrons rápidos com o maior fluxo do mundo, estabelecem um novo padrão nesse campo.
A experiência do Instituto de Pesquisa de Reatores Atômicos (JSC SSC RIAR), integrante da divisão científica da Rosatom e responsável pela operação do reator, é reconhecida pela AIEA por meio de sua designação como Centro Internacional Baseado em Reatores de Pesquisa (ICERR).
O reator está sendo construído em Dimitrovgrad, na Rússia. A instalação dos equipamentos do circuito primário está em andamento e, em 2026, dois trocadores de calor de emergência, com peso de 7,3 toneladas cada, foram instalados em suas posições definitivas.
Stepan Kalmykov, presidente do Conselho Consultivo do IRC MBIR e vice-presidente da Academia Russa de Ciências, ressaltou a importância do programa científico do Centro para o fechamento do ciclo do combustível nuclear, a redução dos resíduos radioativos e a ampliação da base de recursos da energia nuclear.
“A ciência nuclear e a energia nuclear sempre impulsionaram o desenvolvimento de inúmeras outras áreas, e a ampla diversidade geográfica dos participantes de hoje — da Coreia e da Índia aos países da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), ao Brasil e às nações africanas — é uma prova direta disso”, afirmou.
Evgeny Abakumov, vice-diretor-geral de Ciência e Estratégia da estatal russa Rosatom, declarou:
“O Consórcio IRC MBIR ultrapassou os limites de um projeto local e se tornou um centro global de pesquisas e ideias de ponta na área nuclear.”
Mikhail Kovalchuk, presidente do Centro Nacional de Pesquisa Instituto Kurchatov, enviou uma mensagem de boas-vindas aos participantes. No documento, destacou que o reator MBIR, em construção, e o reator PIK, já em operação, são instalações complementares que abrangem todo o espectro de fluxos de nêutrons e devem oferecer uma plataforma para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras e para a cooperação internacional.
Nesse contexto, ressaltou a importância de elaborar um programa científico unificado e abrangente para instalações de pesquisa de grande escala, conhecidas como megascience.
Países árabes: dos acordos à cooperação prática
Salem Hamdi, diretor-geral da Agência Árabe de Energia Atômica (AAEA), enfatizou a importância estratégica de transformar a cooperação entre os países árabes e o Consórcio em iniciativas concretas.
“Em fevereiro de 2026, demos um passo importante ao assinar um acordo de cooperação estratégica que estabelece as bases para pesquisas científicas conjuntas e formação de profissionais. Consideramos a reunião de hoje do Conselho Consultivo uma oportunidade valiosa para transformar esse acordo em ações práticas.”
Segundo Hamdi, “as áreas de interesse dos países árabes incluem pesquisas sobre materiais e combustíveis para sistemas de Geração IV, aplicações não energéticas da tecnologia nuclear, incluindo a produção de radioisótopos médicos, abordagens regionais para a gestão segura de resíduos radioativos e a validação de códigos de cálculo para órgãos reguladores. Uma iniciativa fundamental é a criação de um centro árabe especializado em formação profissional”.
Especialistas das comissões de energia atômica da Jordânia e da Síria abordaram questões relacionadas à segurança e à operação de instalações nucleares, incluindo a confiabilidade funcional dos sistemas digitais de controle de reatores avançados, métodos de análise por ativação neutrônica e requisitos modernos para a formação de operadores.
A Comissão de Energia Atômica do Iraque apresentou oportunidades para atender às metas nacionais de desenvolvimento da energia nuclear no âmbito do IRC MBIR.
América Latina e Ásia
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Brasil, compartilhou sua experiência na aplicação de inovações em usos não energéticos das tecnologias nucleares. Seu Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) apresentou iniciativas latino-americanas relacionadas a pequenos reatores modulares e microrreatores.
Long Maoxiong, vice-secretário-geral da Associação Chinesa de Energia Nuclear (CNEA), manifestou a disposição da comunidade nuclear chinesa de aprofundar a cooperação prática com todos os parceiros, ampliando a capacidade experimental do IRC MBIR, desenvolvendo projetos conjuntos de pesquisa e promovendo a formação de profissionais.
Ele ressaltou a importância de uma rede inclusiva de cooperação científica internacional no setor nuclear como parte do desenvolvimento global de fontes de energia limpa.
O Instituto de Energia Atômica do Vietnã (VINATOM) apresentou seus planos e perspectivas para a realização de pesquisas no MBIR.
O acadêmico Ilkham Sadikov, diretor do Instituto de Física Nuclear da Academia de Ciências do Uzbequistão, demonstrou como a infraestrutura nacional de pesquisa de um país parceiro pode trabalhar de forma integrada ao MBIR.
“A integração das capacidades do reator MBIR, em construção, com a infraestrutura existente do Instituto de Física Nuclear, incluindo nosso reator de pesquisa WWR-SM modernizado e nosso complexo de aceleradores, abre horizontes fundamentalmente novos para a ciência aplicada na macrorregião. Vemos um enorme potencial em experimentos conjuntos de ciência dos materiais, verificação de códigos de cálculo e produção de radioisótopos.”
Shavkat Ayupov, presidente da Academia de Ciências da República do Uzbequistão, destacou o crescente interesse de organizações especializadas na cooperação desenvolvida no âmbito do IRC MBIR.
Das pesquisas sobre fusão nuclear às pequenas usinas nucleares
As apresentações abrangeram uma ampla variedade de áreas científicas e tecnológicas.
O Instituto de Física de Plasmas (ASIPP) e o Instituto de Física Moderna (IMP), ambos vinculados à Academia Chinesa de Ciências, juntamente com a empresa russa JSC Proryv, discutiram testes em reatores de pesquisa destinados a comprovar o desempenho de materiais e combustíveis para fusão termonuclear controlada, sistemas híbridos de reatores e aceleradores e reatores de nêutrons rápidos.
A JSC VNIINM apresentou o ciclo do combustível de um reator de pesquisa de sais fundidos, enquanto a Faculdade de Química da Universidade Estatal de Moscou Lomonosov compartilhou sua experiência na aplicação de inteligência artificial à ciência dos materiais.
Vasily Konstantinov, diretor-geral da empresa Consortium Leader of IRC MBIR, LLC, apresentou as perspectivas tecnológicas do projeto.
“No âmbito do programa de pesquisa de longo prazo do Centro Internacional de Pesquisa, uma direção promissora também é o desenvolvimento de um projeto de pequena usina nuclear baseado nas soluções do MBIR. Considerando que uma parcela significativa do calor gerado será direcionada à produção de eletricidade e que a unidade terá uma capacidade elétrica de aproximadamente 50 a 55 MW, o MBIR poderá servir como protótipo de uma futura plataforma energética e como demonstrador de soluções tecnológicas.”
Andrey Shadrin, vice-diretor da instituição Ciência e Inovações, integrante da Rosatom, observou que o MBIR deverá ser utilizado para testar combustíveis tolerantes a acidentes (ATF) e combustíveis destinados a reatores de grafite moderados a gás, além de permitir estudos abrangentes de materiais estruturais e combustíveis nucleares.
Segundo Shadrin, a Rússia planeja iniciar, em 2027, o reprocessamento do combustível MOX irradiado do reator BN-800. Para 2029, está prevista a fabricação de combustível MOX a partir de materiais recuperados, com o objetivo de fechar integralmente o ciclo do combustível nuclear.
O MBIR no contexto nuclear mundial
De acordo com a instituição Ciência e Inovações, mais de 800 reatores de pesquisa já foram construídos em todo o mundo. Desse total, 234 estão atualmente em operação ou temporariamente desligados.
Nikolay Arkhangelsky, analista da instituição, observou que todos os países e regiões que possuem reatores de pesquisa planejam prolongar sua vida útil e construir novas instalações para substituir aquelas que serão desativadas.
O MBIR deverá ocupar uma posição de destaque nesse cenário, oferecendo suporte a pesquisas em ciência dos materiais para todos os tipos de reatores de Geração IV, especialmente os de nêutrons rápidos.
Ao final da reunião, os participantes revisaram e aperfeiçoaram as necessidades de pesquisa dos desenvolvedores de sistemas inovadores de reatores de potência e reafirmaram a posição do IRC MBIR como uma importante rede internacional de especialistas dedicada à cooperação científica de longo prazo.
O Consórcio permanece aberto à adesão de novos integrantes, que terão acesso prioritário aos futuros experimentos realizados no MBIR, necessários à execução de seus programas nacionais voltados ao uso pacífico da energia nuclear.
O MBIR é um reator de pesquisa multifuncional de nêutrons rápidos, refrigerado a sódio, com potência térmica de 150 MW. Está sendo construído em Dimitrovgrad, nas instalações do Centro Científico Estatal — Instituto de Pesquisa de Reatores Atômicos (JSC SSC RIAR), que integra a divisão científica da estatal russa Rosatom. A instalação dos equipamentos do circuito primário está em andamento: os adaptadores das tubulações quentes já foram soldados ao vaso do reator e aos primeiros segmentos das tubulações, enquanto a montagem dos principais equipamentos tecnológicos no edifício de armazenamento de sódio foi concluída. Em 2026, dois trocadores de calor de emergência, com peso de 7,3 toneladas, cinco metros de altura e 1,5 metro de diâmetro cada, foram instalados em suas posições definitivas.
O MBIR foi projetado para a realização de pesquisas experimentais, produção de radioisótopos e materiais modificados, além de testes de novos tipos de equipamentos e sistemas tecnológicos. Espera-se que as capacidades exclusivas do novo reator acelerem o desenvolvimento de tecnologias de energia nuclear de dois componentes e de ciclos fechados do combustível nuclear, além de contribuir para a criação de usinas nucleares seguras de quarta geração (Geração IV).
O Centro Internacional de Pesquisa (IRC MBIR) foi criado em torno do reator na forma de um consórcio internacional. Seus integrantes têm acesso prioritário aos futuros experimentos realizados no MBIR, necessários à execução de seus programas nacionais voltados ao uso pacífico da energia nuclear. O modelo de consórcio permite a utilização flexível dos recursos do reator e permanece aberto à adesão de novos membros. Entre as instituições que já aderiram estão o Instituto Conjunto de Pesquisa Nuclear, o Instituto de Física Nuclear da Academia de Ciências da República do Uzbequistão e a empresa chinesa Shanghai ZDAN International.
Fonte: Brasil 247