Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Gustavo Scarpa, meio-campista do atlético Mineiro, surpreende com resenhas de livros e coloca os torcedores para ler e debater os clássicos

Aquele 2 de setembro era uma quarta-feira corriqueira no futebol nacional, com jogos da Copa do Brasil e do Brasileirão na agenda, até Gustavo ­Scarpa, meio-campista do Atlético Mineiro, postar em sua conta no ­YouTube um vídeo de dez minutos resenhando o livro A Morte de Ivan ­Ilitch, de Lev ­Tolstoi, um dos maiores clássicos da literatura russa. O impacto nos torcedores foi imediato e rendeu resultados inesperados. Em poucos dias, a obra passou a integrar a lista dos livros mais vendidos da Amazon no Brasil e a publicação atingiu mais de 700 mil espectadores. De lá para cá,o atleta já publicou mais quatro resenhas, todas com dezenas de milhares de visualizações. As longas análises de suas leituras são consequência de uma série de vídeos mais rápidos que Scarpa vinha postando com avaliação de livros no Instagram. Sobre Cartas ao Pai, de Franz Kafka, Scarpa publicou um trecho da obra com a observação “eis uma coisa que sempre pensei, mas nunca soube expressar”, acrescentando ao lado do nome do autor a nota: “esse cara é diferente”. O futebolista também usou a rede social para relatar o medo de ser cancelado por não curtir William Shakespeare e, sempre ao lado de trechos da leitura avaliada, anotava expressões como “maneiro” ou “muito maneiro”. Down With System: Um Livro de Memórias, de Serj Tankian, vocalista da banda System of a Down, recebeu a seguinte apreciação: “Que livrooooo top, seloco”. Já sobre A Lua Vem da Ásia, do mineiro Campos de Carvalho, escreveu: “Talvez um pouco filosófico, meio maluco, melancólico, sei lá kkkk. Mas gostei”.

O sucesso das resenhas de Scarpa não é fruto apenas do inusitado fato de um jogador falar sobre livros. É inegável que o jeito leve, rápido, despretensioso e sem afetações do meio-campista é fundamental para o resultado de seu entrosamento com os leitores atleticanos e de outros times. Para além do sucesso de vendas e das redes sociais, talvez a mais notável repercussão do vídeo do jogador sobre Tolstoi tenha sido a criação da ­Galeitura, um clube de leitura que une torcedores atleticanos. “Em um primeiro momento, achei até que era zoeira, depois fiquei sabendo que criaram um grupo no WhatsApp e no Instagram que já tem mais de 100 mil seguidores. Fiquei muito feliz com essa homenagem e com a influência que tive nesse processo”, diz o jogador.

“A galera abraçou a ideia e no primeiro dia já tínhamos mais de 300 membros na nossa comunidade”, diz fundadora da Galeitura

A estudante de letras Carolina Marques conta que a ideia surgiu enquanto se divertia no X (antigo Twitter) com os memes e as músicas de torcidas organizadas sobre Scarpa. Imediatamente, ela resolveu postar na rede social a proposta de criar um grupo de leitura para as indicações do meio-campista. “A galera abraçou a ideia e no primeiro dia já tínhamos mais de 300 membros na nossa comunidade. A partir daí, percebi que não dava pra fazer isso sozinha.” A ajuda veio de torcedores que ela nem conhecia, mas também da amiga Júlia. “A gente está se conhecendo ainda, está sendo uma coisa bem louca, porque explodiu do nada.” Júlia Barbosa de Araújo é produtora cultural e revela que a admiração por Scarpa já existia pelo fato de ele se apresentar de forma bem diferente dos demais jogadores. “Quando ele começou a compartilhar indicações de livros no YouTube, surgiu essa ideia para, principalmente, transformar esse interesse em uma experiência coletiva.”

No dia 23 de setembro, foi feita uma live no canal do jornalista Betinho Marques juntamente com­ ­Carolina Marques e Laís Barroso, outra das fundadoras da ­Galeitura. Ao longo de mais de duas horas, os três falaram sobre A Morte de Ivan Ilitch. O vídeo já teve quase 6 mil visualizações e segue sendo compartilhado. A criação do clube gerou forte repercussão em outras torcidas e iniciativas semelhantes foram criadas, como as do São Paulo e do Grêmio. A mobilização mostra que, quando as torcidas são acionadas por boas iniciativas, o reflexo pode ser muito positivo. Infelizmente, no mesmo mês em que a Galeitura ganhou vida, os grandes clubes brasileiros se mobilizaram para tentar impedir o fim das bets. A visão dos cartolas é tão mesquinha que faria o avarento Pliuchkin, do livro Almas Mortas, de Nikolai Gogol, corar de vergonha. O que importa, para eles, não é a vida dos torcedores, mas o precioso patrocínio das casas de apostas. Scarpa já leu O Jogador, de Fiodor Dostoievski, e é um dos poucos atletas do futebol brasileiros que já se pronunciaram contra as bets. “Com certeza, é um livro que vai contra qualquer tipo de vício em jogos ou apostas. É um livro que tem o poder de fazer você se sentir dentro da história, e isso é extremamente importante”, descreveu. O romance é um retrato do vício destrutivo do jovem Aleksei Ivanovitch pela roleta, enquanto mostra a ruína moral e financeira de uma família. O vício em jogos foi um mal que atingiu o próprio Dostoievski, que teve de escrever o livro em 26 dias para não perder os direitos sobre todas as suas obras.

É notável que a Galeitura nasça dentro no Atlético Mineiro, time que tem Reinaldo entre seus maiores ídolos, um jogador que sempre exibia o gesto-símbolo dos Panteras Negras em uma postura de luta contra a ditadura militar e o racismo. Mesmo alertado para não repetir o protesto, encarou os militares e mostrou o punho cerrado ao marcar seu gol na Copa de 1978. Nas arquibancadas alvinegras, também estão enfileiradas a Resistência Alvinegra, a Galo Marx e a Galosofia, que tem em seu escudo a imagem de Platão com os dizeres “Galo, logo existo”. Também vale lembrar a “Tropa do Fura Bloqueio”, da Galoucura, que destruiu barreiras de apoiadores de Jair Bolsonaro para poder assistir a uma partida no Morumbi. A leitura de Scarpa o colocou em evidências em vários países. Jornalistas da Rússia, França, Argentina e Portugal fizeram reportagens sobre o efeito produzido por suas resenhas e recomendações. “Torço para que outros jogadores comecem a postar suas leituras, todos temos um limite de alcance e alcançar mais gente depende de um movimento ainda maior”, argumenta. Otimista, ele espera que aqueles que sofrem com os jogos de azar consigam largar o vício e passem a cultivar o prazer da leitura. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Futebol arte’


Felipe Castanheira

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Fonte: Carta Capital

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