Eduarda Campopiano apresentou projetos de lei que repetem textos de outros políticos e erra até a própria cidade
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – Eleita deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026, com 1,96 milhão de votos, Eduarda Campopiano (PL) apresentou durante seu mandato como vereadora de Praia Grande projetos de lei que reproduzem trechos de propostas de outros parlamentares e, em alguns casos, mantêm referências a municípios diferentes daquele em que ela atuava.
A constatação é de um levantamento da BBC News Brasil, que comparou as versões originais dos 20 projetos protocolados por Campopiano na Câmara Municipal de Praia Grande com iniciativas apresentadas em outras câmaras e assembleias legislativas. Em ao menos 14 deles, foram encontradas correspondências textuais, que vão de artigos específicos a extensos conjuntos de dispositivos e justificativas.
Dois projetos apresentam erros evidentes de adaptação. Uma proposta sobre educação financeira destinada às escolas municipais de Praia Grande afirma, na justificativa, que o programa beneficiaria “cidadãos paulistanos”. Outra iniciativa, que prevê multas pelo consumo de maconha em determinadas situações, estabelece que os recursos arrecadados seriam destinados a organizações “no município da Serra”, no Espírito Santo, a mais de 700 quilômetros de Praia Grande.
Entre os textos com trechos semelhantes aos de propostas anteriores estão projetos apresentados por aliados políticos de Campopiano, como Lucas Pavanato (PL-SP), eleito deputado federal em 2026, e a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC). A parlamentar paulista cita Campagnolo, assim como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), entre suas referências políticas.
Campopiano ganhou projeção nas redes sociais ainda jovem, com discursos contrários ao feminismo e ao aborto, críticas às cotas raciais e defesa do acesso de mulheres a armas de fogo. Aos 21 anos, foi eleita vereadora de Praia Grande em 2024, com 3.583 votos. Dois anos depois, alcançou 1.956.238 votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo.
Em entrevista ao UOL após a eleição, Campopiano afirmou que pretende ampliar o caráter ideológico de sua atuação parlamentar.
“A minha legislatura como deputada na Alesp [Assembleia Legislativa de São Paulo] será muito mais ideológica do que a que foi de vereadora. Vamos intensificar nosso combate cultural. Acho que tudo que vira política, que se torna política pública um dia, já foi uma ideia em algum momento, já foi cultura, ideologia, uma discussão sobre moral, sobre o que é certo e errado.”
A deputada eleita também disse que pretende combater o que chama de “bandidolatria” e afirmou que deseja transformar o aborto em algo “impensável”.
“Quero viabilizar a ajuda para mulheres que engravidam em decorrência de violência sexual, para que elas não precisem matar o próprio filho, que nada tem a ver com o crime que foi cometido. E para que o verdadeiro monstro que cometeu o crime contra essa mulher apodreça na cadeia, coisa que não acontece hoje.”
Projeto para Praia Grande cita “cidadãos paulistanos”
Um dos casos identificados pela BBC News Brasil é o projeto de lei 64/2026, apresentado por Campopiano em 30 de abril de 2026. A proposta cria um programa de educação financeira na rede municipal de ensino de Praia Grande.
O texto contém trechos do PL 875/2021, apresentado pelo então vereador de São Paulo Rubinho Nunes (União Brasil), responsável pelo chamado Programa Jovem Capitalista.
Na versão de Campopiano, o nome da iniciativa foi alterado para Programa de Educação Financeira, mas a justificativa preservou referências ao título original e até uma menção à população da capital paulista.
O documento afirma que a medida “viabiliza uma realidade mais agradável e um futuro mais próspero aos cidadãos paulistanos”.
Outro trecho aparece com a mesma redação nos dois projetos:
“Este projeto de lei dispõe sobre a implantação do Programa Jovem Capitalista, voltado à garantia do desenvolvimento intelectual, físico, emocional, social e cultural dos alunos da rede pública municipal de ensino.”
Multas em Praia Grande destinariam recursos ao Espírito Santo
Situação semelhante foi identificada no PL 68/2026, protocolado em 11 de maio. O projeto estabelece multas administrativas para o consumo de maconha na presença de crianças e adolescentes ou em espaços públicos.
A proposta tem passagens semelhantes às de um projeto apresentado em janeiro de 2025 na Câmara Municipal da Serra, no Espírito Santo, pelos vereadores Pastor Dinho (PL) e Agente Dias (Republicanos).
Em um dos artigos, o projeto protocolado em Praia Grande afirma que os valores obtidos com as multas seriam destinados a organizações “no município da Serra”, sem substituir o nome da cidade capixaba.
Projeto cita ChatGPT e legislação de outro município
A análise também identificou problemas no PL 73/2025, apresentado por Campopiano em junho do ano passado. O texto previa que hospitais públicos emitissem diariamente boletins médicos sobre o estado de saúde e as condições de tratamento de pacientes internados.
Uma das fontes incluídas em nota de rodapé contém uma URL com a marcação “utm_source=chatgpt.com”, indicação de que o endereço foi copiado a partir de uma resposta fornecida pelo ChatGPT.
Ao justificar a base jurídica da medida, o projeto também menciona a Lei Orgânica do Município de São José, embora a proposta tenha sido apresentada em Praia Grande.
“A proposta do ilustre edil está amparada juridicamente pela Carta Magna, Lei Orgânica do Município de São José e Regimento Interno desta Casa Legislativa, uma vez que aborda e defende o direito fundamental à saúde, informação e os princípios da transparência e publicidade”, afirma o documento.
Segundo o site da Câmara Municipal de Praia Grande, nenhum desses três projetos chegou a ser aprovado.
Propostas também repetem textos de aliados
Três iniciativas analisadas têm relação direta com parlamentares politicamente próximos de Campopiano.
O PL 2/2026, apresentado por ela em fevereiro, prevê sanções administrativas por maus-tratos a animais e apresenta diversos artigos semelhantes aos do PL 43/2026, de Lucas Pavanato, protocolado dias antes em São Paulo.
As duas propostas listam condutas como privar animais de alimento, água ou abrigo, abandonar o animal e negligenciar atendimento veterinário. Também preveem advertência, multas entre R$ 2 mil e R$ 50 mil e apreensão.
O projeto apresentado em Praia Grande menciona ainda a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap), órgão existente no município de São Paulo, mas não em Praia Grande, segundo informou a prefeitura à BBC News Brasil.
Outro texto, o PL 63/2026, autoriza a Guarda Civil Municipal a utilizar provisoriamente veículos, equipamentos e outros bens apreendidos em crimes. A proposta reproduz dispositivos do PL 76/2026, também apresentado por Pavanato em São Paulo.
Já o PL 112/2026 cria o Programa Meninos Fortes, voltado ao acolhimento de estudantes do sexo masculino vítimas ou expostos à violência escolar e ao bullying.
A iniciativa tem redação praticamente igual à de um projeto de mesmo nome apresentado anteriormente pela deputada Ana Campagnolo em Santa Catarina, com a troca da referência à rede estadual catarinense pela rede municipal de Praia Grande.
Fonte: Brasil 247