O filho visita o pai para dizer que, quando a família vence, o povo deve ser respeitado

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Por Moisés Mendes — Brasil 247

A Procuradoria-Geral da República autorizou Flávio a visitar Bolsonaro. O filho quer comemorar com o pai a vitória no primeiro turno, ouvir conselhos e fazer comunicações pontuais. A visita depende agora de decisão de Alexandre de Moraes, que deve liberar o encontro.

O que é estranho nessa situação? Um pai preso em casa por desrespeitar a democracia, o adversário vitorioso e a decisão do povo vai receber o filho que sai na frente na eleição por desfrutar das liberdades da democracia e se beneficiar do voto e das decisões do mesmo povo que o homem preso desrespeitou.

Quatro anos depois da tentativa de golpe, o filho leva ao pai golpista o sentimento de que pode chegar ao poder de onde o pai saiu sem admitir a derrota. O filho do pai que não respeita a democracia recorre ao Judiciário para fazer a visita e dispor de concessões da democracia administradas pelo Judiciário que o pai sempre afrontou.

É assim que funciona a democracia e é assim que o fascismo pode voltar a governar o Brasil. O filho irá dizer ao pai que anunciou publicamente sua decisão de assumir e enviar logo ao Congresso propostas de mudanças na Constituição. Para, disse ele em encontro com Ronaldo Caiado em Goiás, “redemocratizar o país”. Também dirá que decidiu orientar sua turma no Congresso a sabotar o fim da escala 6 por 1.

Porque os trabalhadores, como irá explicar ao pai, devem ter a liberdade de acertar com o patrão quantas horas desejam trabalhar. É como se a Chapecoense pudesse combinar com o Flamengo quantos gols pode fazer e sofrer.

São essas as falas de impacto de início da campanha do segundo turno. Mudanças na Constituição e sabotagem aos dois feriados por semana. Flávio ataca nessas frentes com convicção bem planejada.

O candidato está certo de que as pessoas acham, como ele representa “mudanças”, que deve mexer na Constituição, o único bem ainda não destruído pela direita no Brasil. Diz que vai defender a reforma do Judiciário, a redução da maioridade penal e o fim da reeleição para presidente. Só isso?

Flávio joga para os homens da classe média branca, os empresários e o mercado financeiro, sem o receio de correr riscos. Ganha mais acenando para quem tem dinheiro do que perde de quem tem muito pouco. A extrema-direita trata com desenvoltura temas que anos atrás seriam complicados.

Mexer na Constituição é, para o filho ungido, menos arriscado do que proibir as bets para Lula, porque está tudo controlado. E assim Flávio Bolsonaro irá visitar o pai de salto alto. A única coisa que pode prejudicá-lo é a própria arrogância.

O bolsonarismo se considera com a mão na taça. Se anunciar amanhã que o irmão Eduardo deve retornar dos Estados Unidos antes do resultado do segundo turno, o aviso terá o mesmo efeito da notícia de que Kassio Nunes Marques pretende libertar seu pai por liminar.

O Brasil não consegue mais metabolizar tudo o que envolve o candidato do bolsonarismo, seu entorno e seus ministros no Supremo. Um porta-voz do PL poderia dizer amanhã que Flávio não considera o SUS cláusula pétrea da Constituição e que até o salário mínimo pode ser extinto. Não acontecerá nada de muito relevante, além dos debates com os especialistas convocados pelos jornalões para dizer se pode ou não pode.

A visita de Flávio pode esclarecer, a partir dos desejos do pai, o que afinal ele vai querer ser no governo do filho. Bolsonaro pode dizer que deseja apenas ser anistiado e disputar democraticamente prévias com Flávio, Eduardo, Michelle e Tarcísio, para saber quem será o candidato da família a presidente em 2030.

Está tão fácil ser extremista que até Carluxo, Magno Malta, Sergio Moro, Damares Alves, Douglas Ruas, Jorginho Mello e Guilherme Derrite podem entrar nessas prévias. Muitas vezes, a democracia é uma festa também para o golpismo.

Fonte: Brasil 247

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