Entenda por que Flávio Bolsonaro é um inimigo, não um adversário conjuntural
Por Fábio Maia Sobral — Brasil 247
O dia 4 de outubro de 2026 marcou uma derrota da candidatura de Lula no primeiro turno das eleições presidenciais. Precisamos repensar a campanha para o segundo turno. O objetivo deste texto não será o de avaliar as condições estruturais da derrota parcial, mas o de elaborar propostas que, eu creio, possibilitariam a vitória no segundo turno.
O primeiro passo é reconhecer que não se trata de uma disputa entre adversários conjunturais, mas de um antagonismo profundo: enfrentamos um inimigo. A luta de classes atravessa estas eleições. A candidatura de Lula deve reafirmar-se como expressão da defesa do trabalho e das camadas trabalhadoras — condição que perdemos e que hoje é contestada pela acusação de desestimular o esforço produtivo e a busca por melhores condições de vida. Nós somos os que defendemos o trabalho e as camadas trabalhadoras.
Devemos combater compreensões erradas sobre os programas governamentais, tais como o Bolsa Família. Este programa é essencial para manter a atividade econômica na indústria, no setor de serviços e na moradia. Sem ele, o empreendedorismo perderia um mercado significativo. A direita se apresenta como defensora dos empreendedores e das empreendedoras, mas isso não é verdade. Ao eliminarem programas sociais, a atividade empreendedora desabaria, provocando a falência de muitos pequenos negócios.
O Bolsa Família cumpre uma função decisiva na elevação dos salários. Ao assegurar uma renda mínima, impede que a necessidade imediata force os trabalhadores a aceitar qualquer remuneração, pressionando os empregadores a oferecer salários mais atrativos para preencher as vagas. Simultaneamente, ao injetar recursos na base da economia, amplia o consumo popular, sustenta a demanda por bens e serviços e impulsiona a produção, o emprego e a renda. Instaura-se, assim, um ciclo multiplicador: renda mais alta gera mais consumo, que gera mais atividade econômica, que gera mais empregos e melhores salários. Assim é que o Bolsa Família não é apenas proteção social, mas uma política de dinamização do mercado interno e de valorização do trabalho. Esse papel é deturpado pela extrema direita.
O Nordeste exige prioridade estratégica. É necessário apresentar um projeto de futuro que enfrente injustiças históricas e reconheça no Nordeste um motor capaz de impulsionar a economia brasileira por muitos anos. Tentativas de atrair o grande agronegócio são inócuas: sua hostilidade a Lula e à esquerda é estrutural e não será convertida em aliança. Não há mais espaço, nem tempo, para tentar agradar a todos.
É preciso substituir a ideia de “arrocho fiscal”, que sempre recai sobre as camadas mais pobres, pelo conceito de “arrocho financeiro”. Não podemos ter as maiores taxas de juros reais do mundo. A Ucrânia, em guerra, possui taxas menores. Isso é injustificável. A redução brutal do pagamento de juros por parte do governo permitiria financiar os programas que mudariam a vida do nosso povo para um patamar mais alto. Isso eliminaria o domínio da economia especulativa em que estamos enredados.
É preciso propor um programa amplo de redução das prestações de empréstimos consignados. Tais empréstimos pagam juros escorchantes e reduzem a capacidade de consumo de parcelas significativas dos setores assalariados, afetando fortemente o funcionalismo público em todos os níveis.
A economia obtida com a queda dos juros permitiria a construção de sistemas rápidos de transporte, que trariam, como consequência, menor tempo de vida gasto no deslocamento. Além disso, permitiria a recuperação de áreas ambientalmente degradadas, preparando-nos para enfrentar e mitigar mudanças climáticas. Não basta desacelerar o desmatamento: desmatamento zero e ampliação da cobertura vegetal devem ser programas de governo.
Programas de proteção às mulheres, às crianças e aos grupos sociais e étnicos oprimidos devem ser desenhados e defendidos. É preciso confrontar as visões da extrema direita nesses campos.
É preciso expor que a extrema direita sempre propõe o massacre econômico contra as camadas médias e que nós somos os verdadeiros defensores desse setor. É preciso propor a continuidade das correções das tabelas do imposto de renda. Além disso, é preciso criar programas de intensa elevação da qualidade da saúde e da educação públicas— duas fontes expressivas de gasto para a renda das camadas médias.
Precisamos propor um novo patamar civilizatório no Brasil, incluindo a preparação para resistir a ameaças externas e a tentativas de subordinação.
É preciso um programa que proponha o futuro, e não apenas a defesa de ações de governo, como se bastasse uma mera prestação de contas. O povo não vota para aplaudir o passado; vota para decidir o porvir. A campanha deve encarnar um projeto de país, com metas claras, compromissos concretos e um horizonte de dignidade, trabalho, moradia, alimentação, educação, saúde, cultura e esperança. Sejamos o futuro aos olhos do povo brasileiro!
Fonte: Brasil 247