Por Miguel Paiva — Brasil 247

Lula ladrão foi um apelido que pegou. Flávio miliciano não, e, se pegou, não causou prejuízos. Quase todas as falsas acusações contra a esquerda são levadas a sério, e todas as verdadeiras acusações contra a direita batem e voltam. O resultado do primeiro turno das eleições mostrou bem isso. Quanto mais provas surgiam do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o Banco Master e sua rede de lavagem de dinheiro, fraudes e falcatruas, mais ele subia nas pesquisas. Os vídeos das festinhas, então, se fossem divulgados, iam alimentar o mito do macho alfa e jamais o do defensor de Deus, Pátria e Família desmascarado.

Parece que esses valores, mesmo que discutíveis, deixaram de ter importância. O mito desfavorável que o PT criou para si e as trapalhadas do STF na fiscalização da Constituição para evitar que alguns de seus membros pudessem ser envolvidos na trama do Master acabaram dando a entender, erradamente, que o Supremo trabalha para o governo do PT e que é “tudo ladrão mesmo”.

O que o governo fez, sobretudo neste último governo de Lula, não foi levado em consideração. A queda do desemprego e da inflação, o aumento da qualidade de vida e dos salários, a melhora do atendimento no SUS e o desempenho do ensino público nem foram considerados e, se foram, também não tiveram importância nem marcaram pontos a favor dos candidatos do governo. E olha que muita gente boa deixou de ser eleita, enquanto outros, sem nenhuma relevância, conseguiram.

Há, no mundo inteiro, uma incontestável guinada à direita que assusta a democracia. Aliás, democracia é um sistema que está saindo de moda. Qualquer valor que envolva a coletividade ou que se baseie no pensamento de vários é desconsiderado. O que importa agora é a rede social, a iniciativa individual, o empreendedorismo que vai do vendedor de salgadinho na praia ao banqueiro que lava o dinheiro, que pode também ajudar o empreendedor mais bem relacionado que faça um negócio em que sobre mais para todos, além dos salgadinhos produzidos. É uma teia que ignora o Estado nesse aspecto, despreza os sindicatos e associações e leva em consideração somente a iniciativa privada. Seja você mesmo e somente você para poder ser agraciado por Deus ou pelo seu esforço pessoal, que será reconhecido. Ignorando as dificuldades sociais e estruturais, cobram de você um sucesso quase impossível, mas que, quando acontece, é supervalorizado.

Assim vivemos essas eleições, com um partido chamado de desonesto, que trabalha pela coletividade, de um lado, e, do outro, um grupo político que ignora, despreza a política, que se diz contra o sistema e que pretende usar os elementos decadentes da democracia para se manter no poder e valorizar o indivíduo, e que atrai muita gente, o suficiente para levá-los ao poder.

Flávio ganhou as eleições sem falar de plano de governo. Os empresários da Faria Lima querem que ele apresente uma proposta. Eles são gananciosos, mas querem profissionalismo. Aquele que o candidato Lula fornecia para eles no seu governo, mas valorizando também o ganho coletivo. Eles preferem o lucro sem ter que abrir mão de nada. Aí entram Flávio, Tarcísio e toda a direita.

Vai ser difícil retomar o rumo que o Brasil seguia, valorizando a política, a cultura, a educação e tudo o mais que faz de um país um lugar melhor para se viver. Se Lula não ganhar no segundo turno e usar sua capacidade política para negociar apoios e acordos, será complicado. Vamos reviver momentos de total descrédito no povo brasileiro, esse mesmo que, pela metade, optou por esta situação, e vamos ter que renovar a energia e a capacidade de luta para voltar a ter esperança no Brasil.

Fonte: Brasil 247

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