Lula não deve buscar apoio na direita e precisa falar de futuro no 2º turno, avalia Valter Pomar
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
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Para o histórico dirigente do PT, o partido subestimou Flávio Bolsonaro: ‘Houve quem acreditasse que o cavernícola filho não tinha força eleitoral’
Dirigente histórico do PT e diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar avalia que o caminho para Lula (PT) buscar uma virada no segundo turno não passa por buscar uma composição com setores da direita, mas por priorizar o diálogo com quem anulou o voto ou escolheu Flávio Bolsonaro (PL).
“Devemos organizar um esforço nacional de campanha militante 24 horas por dia, sete dias por semana, até as 17h de 25 de outubro”, afirmou Pomar, professor da Universidade Federal do ABC, em entrevista a CartaCapital. “Gastar tempo nenhum buscando ‘ampliar apoios’ nos diferentes segmentos da direita.”
Flávio avançou ao segundo turno na liderança com 47,03% (56.104.503 votos), contra 45,16% (53.879.538) de Lula. A diferença a favor do candidato do PL é de cerca de 2,2 milhões de votos.
A abstenção no primeiro turno bateu recorde: 33,4 milhões de pessoas não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Em 2022, a abstenção foi de 20,9%. Em seu primeiro pronunciamento após a eleição, ainda na noite de domingo, Lula disse que fará um apelo a esses eleitores, “para que saibam que o voto é necessário para decidir o futuro do País.”
O segundo turno acontecerá em 25 de outubro.
Leia os destaques da entrevista com Valter Pomar:
CartaCapital: O PT e a campanha de Lula subestimaram Flávio?
Valter Pomar: Em teoria, não. Na prática, sim. Havia quem achasse que, depois da condenação, a família criminosa estaria “enterrada”. Depois houve quem acreditasse que o cavernícola filho não tinha força eleitoral. Em seguida, que venceríamos já no primeiro turno.
Ou seja: os mesmos que adoram brandir a “ameaça fascista” para justificar suas “amplíssimas alianças”, na prática, subestimaram não o candidato inimigo pessoa física, mas a capilaridade e a força da extrema-direita, ao mesmo tempo em que superestimaram nossa força.
CC: Por onde passa, concretamente, um plano emergencial para reverter a derrota do primeiro turno?
VP: Quem deve responder isso é a direção do partido e da campanha. Minha opinião é que devemos organizar um esforço nacional de campanha militante 24 horas por dia, sete dias por semana, até as 17h de 25 de outubro. Dar prioridade para o diálogo com os trabalhadores de menor salário, as mulheres, os negros e negras, a juventude e o povo de coração nordestino, inclusive aquele que habita o Sudeste do País e que se absteve, votou branco, nulo ou até no cavernícola, corrupto, fascista e miliciano candidato da extrema-direita.
Gastar tempo nenhum buscando “ampliar apoios” nos diferentes segmentos da direita. Fazer um discurso focado no futuro do Brasil, deixando em segundo plano o tema da comparação de governos e em terceiro plano o tema do medo . E falar claramente do que queremos: derrotar o crime, as milícias, a Faria Lima, os vendilhões do templo, os feminicidas, os racistas, os fundamentalistas, os negacionistas e — acima de tudo — os imperialistas, os golpistas e os traidores da pátria.
Por fim, acho que o governo devia tomar medidas para acabar imediatamente com a escala 6×1.
CC: Quais são os estados-chave para Lula concentrar os esforços nessas três semanas?
VP: Bom, todo lugar é lugar de manter e ampliar votos. Mas devemos priorizar as cidades onde houve um grande número de eleitores nossos que migraram para o outro lado. E boa parte dessas cidades está em estados como São Paulo e Minas Gerais.
CC: O PL também foi o grande vencedor das eleições para o Congresso. O que explica essa nova demonstração de força do bolsonarismo?
VP: A explicação está no conjunto da obra, o que inclui o sistema eleitoral, mas também a tática exitosa que a direita adota para fazer campanha, seu controle das redes sociais, a fartura de dinheiro, a compra de votos.
Se não houver uma urgente reforma política e se não for colocado um breque nas redes antissociais, a política brasileira vai ser totalmente controlada pela aliança entre o fascismo e o crime organizado.
Leonardo Miazzo
Editor de CartaCapital
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Fonte: Carta Capital