Mudanças climáticas, desemprego e retrocesso democrático lideram temores dos brasileiros, revela pesquisa
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – As mudanças climáticas são apontadas como a maior ameaça ao futuro por 41% dos brasileiros, superando apreensões com o mercado de trabalho e a estabilidade institucional. O levantamento indica que o medo do desemprego atinge 32% da população, mesmo percentual registrado pelo receio de retrocesso na democracia (32%), seguidos de perto pela preocupação com a deterioração da saúde (31%) e com a escassez de alimentos (30%). A pesquisa inédita intitulada “Termômetro do Brasil” foi realizada pelo Instituto Oyá, organização voltada à promoção da justiça climática, em parceria com a empresa de pesquisas Ipsos, explica Míriam Leitão, do jornal O Globo.
Ao todo, foram ouvidas 2 mil pessoas em todas as regiões do país com o objetivo de mapear os mecanismos de manipulação por algoritmos, o impacto da disseminação de informações falsas e a percepção dos cidadãos sobre a democracia.
Apesar do forte temor em relação à preservação do regime democrático, o estudo revela uma transformação profunda na maneira como a população exerce sua atuação política. Observa-se um afastamento gradual dos formatos tradicionais de militância e de exposição pública: 45% dos entrevistados descartam qualquer intenção de se candidatar a cargos eletivos, 39% recusam envolvimento em atividades partidárias e 33% declaram não ter disposição para participar de protestos nas ruas.
Por outro lado, o exercício da cidadania tem migrado para os canais digitais e modalidades de ação direta. O engajamento se manifesta prioritariamente na assinatura de petições virtuais e mobilizações nas redes sociais (21%), no boicote ético a marcas e empresas (16%) e no apoio financeiro ou institucional a organizações não governamentais e movimentos sociais (14%).
O diagnóstico sobre a relação do público com o poder público revela que a desconfiança atinge os três Poderes da República. O maior índice de descrédito é direcionado aos partidos políticos, rejeitados por 64% dos ouvidos, e ao Congresso Nacional, com 54%. O Poder Executivo, considerado nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal), é alvo da desconfiança de 45% dos brasileiros, enquanto o Supremo Tribunal Federal registra 41%.
O levantamento também aprofundou a análise sobre a circulação de notícias falsas e manipulação de dados. Para 51% dos brasileiros, a disseminação de informações enganosas é um problema considerado muito grave. Paralelamente, 81% dos entrevistados afirmam ter conhecimento de que ferramentas de inteligência artificial são capazes de criar conteúdos falsos hiper-realistas, conhecidos como simulações profundas, que reproduzem voz, imagem e vídeo de pessoas reais.
Para mensurar a capacidade da população em identificar conteúdos enganosos, o instituto realizou um teste prático com os participantes. O resultado mostrou que uma notícia falsa foi aceita como verdadeira por 78% dos entrevistados. Em contrapartida, uma informação verídica, embasada em dados técnicos e históricos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre eventos hídricos extremos no Brasil, obteve um percentual menor de adesão, alcançando 69%.
Ao avaliar os resultados do mapeamento, a liderança da organização destacou a mudança no perfil do engajamento popular diante do cenário atual. “Os dados provam que o brasileiro não está apático, mas sobrecarregado por modelos de representação que não resolvem as urgências da sua rotina. Diante do descrédito nas instituições e da manipulação algorítmica nas redes, a sociedade migra para formas pragmáticas de ação comunitária e engajamento digital”, afirma Kamila Camilo, diretora-executiva do Instituto Oyá.
Fonte: Brasil 247