Por Francisco Calmon — Brasil 247

O dia 1º de outubro de 2026 ficará marcado por uma sucessão de movimentos do antijogo democrático. Quem controla a agenda pública, quem define as regras do confronto político e, sobretudo, quem tem o poder de escolher quando, onde e como o eleitor terá acesso aos candidatos e às suas propostas.

O último debate presidencial da TV Globo foi cancelado horas antes de iniciar; o TSE proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio reservado ao presidente Lula e de permitir que os demais candidatos fizessem perguntas dirigidas ao ausente. Em seguida, uma decisão do STF autorizou a participação de Renan Santos, do Missão, e com isso, mais uma vez, Flávio Bolsonaro, que até então havia confirmado presença, mesmo sem Lula, anunciou sua desistência pouco depois. A Globo, então, cancelou o debate.

É o antijogo democrático em funcionamento: um movimento provoca outro, uma decisão altera as regras, uma candidatura recua, uma emissora cancela e, no fim, o eleitor fica sem o confronto que deveria encerrar a primeira etapa da campanha presidencial.

O que o presidente Lula fez foi uma jogada política extremamente estratégica. Desde o início, ele deixou claro que não participaria do debate da Globo e que, no mesmo horário, faria uma transmissão ao vivo pelo Flow Podcast. A decisão foi inserida a partir de um longo histórico de conflitos entre Lula e a TV Globo, marcado por episódios que, segundo o próprio presidente, demonstram um tratamento desigual ao longo de sua trajetória política.

Lula relembrou episódios como a impossibilidade de participar do debate com Fernando Henrique Cardoso e, principalmente, o que ocorreu em 2006. Naquele ano, ao faltar ao debate da Globo, sua ausência acabou se transformando em um espetáculo de tentativa de ridicularização, com a cadeira reservada ao presidente sendo exibida repetidamente. Vinte anos depois, Lula decidiu não permitir que a história se repetisse nos mesmos termos. Em vez de simplesmente faltar, estabeleceu previamente sua posição, de forma a estabelecer a própria agenda política. Escolheu onde estaria, falou diretamente ao eleitor e levou para o Flow a discussão que pretendia fazer.

Do outro lado, o que aconteceu com Flávio Bolsonaro evidenciou, uma vez mais, seu despreparo e sua incapacidade. Depois de confirmar sua participação no debate, o candidato desistiu quando a Justiça autorizou a entrada de Renan Santos, candidato que ocupa o terceiro lugar nas pesquisas.

Flávio mostrou não ter estratégia eleitoral, não ter tirocínio político e ser pautado pela agenda de Lula.

Essa é uma das principais nuances do que aconteceu ontem: Lula antecipou sua jogada, recusou o palco da Globo e construiu uma alternativa; Flávio, diante da alteração das condições do debate, retirou-se; e a Globo acabou sem o programa que havia planejado, frustrou seus telespectadores e mostrou que não é mais a vênus platinada.

A política mudou, a justiça mudou, só a Globo continua com os mesmos métodos astuciosos consoante aos seus interesses político-ideológicos.

Lula decidiu não jogar no campo que considerava desfavorável e criou seu próprio campo de disputa. A Globo perdeu o controle do roteiro que havia preparado, e o debate que pretendia encerrar a campanha não aconteceu. Em uma eleição marcada por intensa disputa de narrativa, escolher onde falar e em quais condições falar também é parte do jogo democrático.

Quem marca o calendário político não é a Globo. É o eleitor.

Lula escolheu o Flow. Flávio escolheu não ir mais uma vez. A Globo escolheu cancelar. O Judiciário interferiu nas regras. Cada ator fez sua escolha. Mas nenhuma dessas escolhas pode ser confundida com a soberania popular.

O povo brasileiro continuará sendo chamado a decidir. E é justamente por isso que precisamos defender o direito de cada cidadão à informação, ao contraditório e à formação política. Sem isso, a democracia deixa de ser um espaço de disputa de projetos e passa a ser apenas uma sucessão de movimentos calculados para impedir o jogo do outro.

Temos informações de Lula, temos a desistência repetida de Flávio Bolsonaro; se este não se propõe a ir a debates, como ousa dizer que vai defender os interesses de uma nação soberana? Flávio vai entregar o Brasil de bandeja se eleito; se não consegue enfrentar Renan Santos em um debate, como vai comandar um país inteiro?

O antijogo pode até dominar uma noite. Pode cancelar um debate. Pode esvaziar um estúdio. Pode substituir o confronto por transmissões paralelas. Mas não pode marcar o calendário da democracia.

Quem marca esse calendário é o povo, e Lula é o seu mais puro representante.

Flávio já havia adquirido as cuecas para evitar o mau cheiro do medo; talvez não tenham uso, pois Lula pode vencer no primeiro turno.

Bora, Lula, com a força do povo que não teme a Globo!

Fonte: Brasil 247

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