Moda pra quê?
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Para o designer e stylist Dudu Bertholini, os modos de vestir e a estética refletem as tensões sociais, políticas e culturais do mundo atual
Dudu Bertholini, que conquistou seu lugar no mundo fashion com a Neon, grife criada em 2003 e mantida ao longo de dez anos, é hoje uma das principais e mais provocadoras vozes a falar sobre a moda no Brasil.
Designer, stylist, comunicador e defensor incansável da pluralidade, Dudu, que nasceu em São Paulo e tem 47 anos, foi se revelando, ao longo de sua trajetória, como um perspicaz observador da indústria.
A moda, diz ele, é muito mais que um campo estético. É um espelho das tensões sociais, políticas e culturais do nosso tempo.
“As redes sociais pluralizaram vozes, mas contribuíram para que tendências e estéticas muitas vezes efêmeras dominem o mundo. Isso cria uma gentrificação estética global”
Bertholini insiste em uma moda que liberta, acolhe identidades, questiona padrões e devolve às pessoas o direito de existir em seus próprios corpos em um momento em que a diversidade – tão celebrada na década passada – sofre um retrocesso.
Em entrevista a CartaCapital, ele analisa as forças que moldam esse movimento conservador, reflete sobre o papel da representatividade, discute sustentabilidade e diz que, embora sua atuação seja multifacetada – vai da tevê aberta ao design de objetos para a Tok&Stok –, ela é guiada por um mesmo compromisso: a busca pela pluralidade.
CartaCapital: Você tem apontado um retrocesso na diversidade na moda. O que está acontecendo?
Dudu Bertholini: Sim, existe um retrocesso violento. E não é apenas na última temporada de desfiles – isso vem se desenhando há alguns anos. Depois de um período muito potente, entre 2015 e 2020, em que lutas feministas, raciais, LGBTs e sociais ganharam força, impulsionadas pela internet e pela pluralização das vozes, a moda voltou a reforçar padrões restritivos. A magreza extrema, que já havia sido questionada, retorna com força, inclusive romantizada. Isso é sintomático de um mundo que também vive retrocessos políticos, econômicos e sociais.
Versões. O estilista com Marina Dias, no projeto Academia de Poses, num debate com Sônia Guajajara, seu trabalho como stylist para a capa da Bazaar e numa performance inspirada em Ney Matogrosso – Imagem: André Hidalgo, Ivan Erick, SBT e Márcio Del Nero
CC: Por que esse avanço da diversidade entre 2015 e 2020 não se sustentou?
DB: Porque a moda é um espelho do mundo. Ela reflete tudo que está acontecendo, é antropológica. Quando o mundo vive crises – guerras, recessão, ascensão conservadora –, há uma tendência de retorno a padrões normativos. Depois de momentos progressistas, em que as lutas sociais e o avanço da diversidade provocaram a reivindicação por uma pluralidade maior de corpos, surgem ondas de retração. A emancipação feminina, por exemplo, sempre gera respostas patriarcais. E a imposição da magreza extrema é uma dessas respostas, porque desloca energia, foco e protagonismo das mulheres. Isso é consequência de um conjunto de fatores: crises geopolíticas, ascensão conservadora, tecnologia avançando mais rápido que a moda, procedimentos estéticos criando novos padrões inalcançáveis. A moda, tentando manter relevância, volta a impor padrões difíceis, lucrando com o desejo de pertencimento das pessoas, e acaba se impondo, em vez de contribuir para a individualidade de cada um. E temos que romper essa lógica…
CC: Por quê?
DB: Porque não faz sentido um modelo que quer que a gente tente caber desesperadamente dentro de tendências nas quais, literalmente, nosso corpo, nosso bolso e nossa realidade não cabem. Temos que lutar para que a moda possa nos oferecer caminhos cada vez mais plurais e, desta forma, nos construir a partir da nossa subjetividade. Devemos vestir aquilo que realmente combina com a gente. A moda é para todas as pessoas, não apenas para quem está dentro do padrão, certo? Não é errado admirar a magreza. Nem um pouco. Até porque a magreza é uma forma de beleza. O problema é dizer que é a única beleza possível.
CC: Você fala muito sobre representatividade e liberdade individual na moda. Por que a representatividade é tão essencial?
DB: Porque ninguém consegue amar o próprio corpo se nunca vê esse corpo representado em outdoors, novelas, revistas e na cultura em geral. É muito difícil amar a própria pele se você cresce num mundo que não coloca nenhum modelo igual a você. Representatividade não é estética, é sobrevivência emocional. O ponto de partida deve ser plural, para que cada pessoa possa ser a melhor versão de si, não a melhor versão de um só padrão. Nesse processo, a internet tem um papel dúbio. As redes sociais pluralizaram vozes, mas também contribuíram para que tendências e estéticas muitas vezes efêmeras dominem o mundo. Isso cria uma gentrificação estética global, apagando traços culturais locais. A internet deu liberdade a uma polifonia de vozes que puderam contar suas experiências e que não tinham espaço antes, mas também reforçou a lógica da padronização rápida e descartável.
CC: Você defende uma “moda para libertar”. O que isso significa na prática?
DB: É meu mantra. A moda deve acolher quem somos, não nos aprisionar. Ela deve nos libertar na expressão individual e coletiva e na responsabilidade social, e nos libertar das imposições e das dores que a própria moda ajudou a criar. Essa é a resposta para a pergunta que me faço todos os dias: “Moda pra quê?” A diversidade não pode ser apenas uma tendência. Ela tem que ser uma nova forma de ver o mundo.
“A moda é para todas as pessoas, não apenas para quem está dentro do padrão, certo? Não é errado admirar a magreza. Até porque a magreza é uma forma de beleza. O problema é dizer que é a única beleza possível”
CC: Como isso aparece no seu styling e na sua vida?
DB: Aparece na minha defesa da pluralidade, da identidade, da mistura entre o popular e o sofisticado. Poder me vestir como eu gosto é um exercício de liberdade individual. Vestir é contar o que somos. E essa liberdade individual só faz sentido se gerar liberdade coletiva. As roupas não têm gênero, não nasceram divididas em masculino e feminino. Isso é uma divisão social que vira fonte de angústia para muita gente. Então, por que não inverter esse jogo e usar a moda para nos libertar de padrões que ela mesma construiu?
CC: Como a moda pode transformar socialmente?
DB: A moda transforma quando questiona procedência, impacto ambiental, condições de trabalho; valoriza artesãos, comunidades e culturas periféricas; e reconhece que a roupa mais sustentável é a que já existe. Roupa nova nem sempre é a solução. A moda transforma quando designers usam criatividade para regenerar, reaproveitar, pluralizar. Esse foi o tema de um encontro recente que tive com a líder indígena e deputada federal Sonia Guajajara: como a moda precisa reprogramar-se para ser inclusiva e mais simbiótica com os recursos naturais. Nas palestras e cursos que apresento, sempre faço um convite para que se olhe a moda por um viés mais crítico e reflexivo. Porque o impacto negativo dessa indústria é muito grande.
CC: Como assim?
DB: Nós já temos roupas suficientes no mundo para vestir as próximas gerações. Para existir, uma roupa tem que ter uma história para contar. A gente tem que se perguntar de onde ela veio, mas também para onde ela vai. Hoje conseguimos ver, do espaço sideral, os grandes lixões a céu aberto, provocados pelo fast fashion em lugares como o Deserto do Atacama, no Chile, e Gana, na África. Esses lixões estarão ali por centenas de anos. Não podemos vencer uma indústria, mas podemos começar com nossas escolhas sobre o que consumir, fazendo upcycling, por exemplo.
Corpos. Nas passarelas, a magreza extrema, antes questionada, voltou com força, e ainda romantizada. Para Bertholini, a pluralidade na moda é um exercício de liberdade individual, que ele próprio buscou na Neon, sua antiga grife – Imagem: Sean Zanni/Getty Images/AFP, Henry Nicholls/AFP e Cassia Tabatini
CC: Upcycling?
DB: Roupa sustentável é aquela que já existe. Uma intelectual brasileira, chamada Beyoncinha do Brasil, reivindicou para o “upcycling” o nome nacional de “transmutação têxtil”. Isso significa transformar aquilo que já foi produzido pela moda em novos materiais. Por meio da criatividade, do design e de inúmeras técnicas é possível dar nova vida a roupas que já existem. É um começo… Não existe planeta B.
CC: Você circula no mundo luxuoso do design, da moda, mas também é apresentador e jurado de programas populares, como Esquadrão da Moda, Show de Calouros, Drag Race Brasil. Como você comunica sua visão nessa outra esfera?
DB: Com respeito e profundidade. Ser mais acessível não significa ser raso. O Show de Calouros, por exemplo, permite valorizar artistas diversos, especialmente LGBTs, e isso tem um impacto enorme. É um palco que historicamente acolheu travestis e mulheres trans desde os anos 1970 e, hoje, se amplia com talentos de todas as regiões do País, que não teriam chance de brilhar em outros lugares. O programa fala de uma pluralidade cultural que tem muito a ver comigo. E ali eu destaco que o fato de trabalhar com moda não significa ser tóxico ou excludente. A moda foi pensada para valorizar as pessoas, para elevar sua autoestima e interpretar de forma poética e estética o mundo à nossa volta. Ela não precisa ser feita com “carão”.
CC: Qual o seu objetivo com o projeto Academia de Poses?
DB: É um projeto fotográfico que desenvolvo com a modelo Marina Dias, no Instagram, em que buscamos ensinar as pessoas comuns a se relacionarem melhor com seus corpos diante das câmeras, em fotos e videoconferências. Hoje, todo profissional, de qualquer área, precisa saber se comunicar diante da câmera, que praticamente virou uma extensão dos nossos corpos. Queremos ajudar as pessoas de todas as idades a desenvolver um autoconhecimento sobre suas imagens neste mundo tão exposto aos likes e hates.
CC: Além de designer de moda, você é jurado, apresentador, palestrante, criou uma coleção de óculos para a Chili Beans, outra de objetos de decoração e utensílios para Tok&Stok. Você parece incansável.
DB: São áreas de atuação muito diferentes, mas, para mim, têm o mesmo cerne. São lugares onde se abriu a possibilidade de eu defender, fortalecer e dar continuidade à minha busca pela pluralidade. Moda, arquitetura e design são expressões do ser. E pluralidade é mais profunda que diversidade: ela elimina a ideia de normatividade. A moda plural é reflexo de um mundo plural. •
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Moda pra quê?’
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Fonte: Carta Capital