A eleição do medo
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Eleições 2026
Arilton Freres
1/10/2026 10:00
A polarização brasileira ganhou uma nova dimensão. Durante muito tempo, procuramos entendê-la observando em quem o eleitor pretendia votar. Agora, talvez seja necessário olhar também para aquilo que ele deseja evitar.
A sexta rodada da pesquisa nacional Indexa/Broadcast traz um dado que ajuda a compreender o momento político. Perguntamos aos eleitores qual é o maior temor diante da atual disputa presidencial. Para 40%, é mais um mandato de Lula. Para 39%, é a volta da família Bolsonaro ao poder. Outros 8% temem as duas possibilidades.
Os números praticamente se espelham.
Não estamos falando apenas de preferência eleitoral. Estamos falando de medo. E quando o medo passa a ocupar um espaço tão importante na decisão do voto, a eleição deixa de ser somente uma disputa entre projetos e passa a funcionar também como um mecanismo de veto.
Outro dado da pesquisa reforça essa leitura. Para 38% dos entrevistados, o voto serve principalmente para eleger o candidato de sua preferência. Mas 22% dizem votar principalmente para impedir que outro candidato seja eleito. Para outros 32%, as duas motivações têm o mesmo peso.
Isso significa que, para mais da metade do eleitorado, impedir a vitória do adversário participa, em alguma medida, da decisão eleitoral.
É nesse ambiente que precisam ser compreendidos os acontecimentos das últimas semanas.
Flávio Bolsonaro chegou à reta final da campanha tendo de responder a questionamentos relacionados ao caso do Banco Master e ao chamado caso Dark Horse. O senador é formalmente investigado em inquérito que apura suspeitas relacionadas ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Ele nega irregularidades. Ao mesmo tempo, episódios relacionados ao antigo caso das “rachadinhas” voltaram ao noticiário a partir de novos desdobramentos judiciais.
Do outro lado, Lula também enfrenta o desgaste produzido pelas investigações envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência em investigações derivadas da Operação Sem Desconto. A defesa de Fábio Luís nega seu envolvimento e questiona elementos das investigações.
Não cabe antecipar julgamentos em nenhum dos casos. Investigação não é condenação, suspeita não é prova e proximidade não significa necessariamente participação em irregularidade. Essa distinção é fundamental em uma democracia.
Mas a política tem uma dinâmica diferente da Justiça.
Para o eleitor, uma sucessão de denúncias, suspeitas, investigações e acusações pode produzir efeitos antes de qualquer conclusão judicial. E, em uma sociedade fortemente polarizada, cada novo episódio tende a ser incorporado às convicções anteriores: o eleitor encontra novos motivos para desconfiar justamente do campo político do qual já desconfiava.
O resultado é uma espécie de polarização retroalimentada.
A própria pesquisa da Indexa ajuda a enxergar esse fenômeno. Lula tem 36% de eleitores que dizem votar nele com certeza, mas 50% afirmam que não votariam nele de jeito nenhum. Flávio Bolsonaro tem 33% de voto certo e rejeição de 51%.
Os dois principais candidatos possuem, portanto, eleitorados consolidados e, simultaneamente, rejeições próximas da metade do país.
É uma combinação poderosa. De um lado, dificulta grandes deslocamentos do eleitorado. De outro, transforma cada denúncia envolvendo um candidato ou seu entorno em combustível para mobilizar o campo adversário.
A crise recente no Supremo Tribunal Federal acrescentou outro elemento a esse cenário. As revelações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro abriram uma discussão dentro da própria Corte sobre a apuração de suspeitas relacionadas a ministros. O plenário chegou a discutir o rito para analisar a possibilidade de investigação do ministro Alexandre de Moraes e as questões envolvendo a atuação do ministro André Mendonça.
O episódio expôs divergências internas e colocou novamente no centro do debate temas como transparência, imparcialidade, limites institucionais e capacidade das instituições de investigar seus próprios integrantes.
Isso importa eleitoralmente porque o STF deixou há muito tempo de ser, aos olhos de boa parte da população, uma instituição distante da disputa política. Suas decisões passaram a integrar o debate cotidiano e, muitas vezes, são interpretadas pelo eleitor através das mesmas lentes que organizam sua preferência partidária.
Quando a confiança nas instituições também entra no circuito da polarização, surge um problema adicional: fatos, investigações e decisões judiciais correm o risco de ser avaliados não pelo seu conteúdo, mas por quem é beneficiado ou prejudicado por eles.
É justamente aí que a pesquisa sobre os temores do eleitorado se torna especialmente reveladora.
Os 40% que dizem temer outro mandato de Lula e os 39% que temem a volta da família Bolsonaro não representam necessariamente dois grupos movidos pelas mesmas razões. Dentro desses contingentes existem motivações econômicas, ideológicas, morais, religiosas e institucionais muito diferentes.
Mas há algo em comum: o adversário ocupa um espaço extraordinariamente importante na formação da escolha eleitoral.
Isso ajuda a compreender por que escândalos nem sempre provocam a migração de votos que se poderia esperar. Em um ambiente altamente polarizado, a pergunta do eleitor pode deixar de ser “qual candidato considero melhor?” para se transformar em “qual resultado eu mais quero evitar?”.
Talvez este seja um dos principais desafios da política brasileira.
Uma democracia precisa do conflito. Precisa de divergência, oposição, fiscalização e disputa entre projetos. Mas também precisa oferecer ao cidadão razões para votar a favor de alguma coisa, e não apenas contra alguém.
Os números da Indexa mostram que preferência e rejeição convivem hoje quase com a mesma intensidade. E mostram, sobretudo, que o medo se tornou uma variável eleitoral que não pode ser ignorada.
Quando 40% de um país temem um lado e 39% temem o outro, a pergunta que fica depois da eleição talvez seja ainda mais importante do que aquela feita durante a campanha: como governar uma sociedade em que uma parcela tão grande dos cidadãos enxerga a vitória do adversário não apenas como uma derrota política, mas como uma ameaça?
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco